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quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Capítulo 7 - Revolução: A Nova Finnel

- Inicialmente, é necessário dizer que esta foi uma decisão difícil e não-unânime...

- Não! Não é justo! – gritou Hugo, em meio à multidão.

- Companheiro Hugo, por favor, deixe-me terminar de informar a decisão.

- Pedimos desculpas, ele só está muito nervoso. Pode prosseguir conselheiro! Certo Hugo?

- Sim, eu peço desculpas... pode continuar...

- Obrigado! Continuando, esta decisão é controversa, porém representa a opinião da maioria dos conselheiros. Peço a todos os presentes que se comprometam a respeitar a decisão de... bem... conceder anistia ao acusado... – neste momento, várias pessoas na multidão começam a gritar em desaprovação, mas são prontamente contidas pelo porta-voz  - ATENÇÃO! Como eu disse anteriormente, sabemos que esta é uma decisão controversa, mas pedimos que confiem na decisão dos vossos conselheiros e, para aqueles que ainda tiverem problemas com esta decisão, estaremos abertos para ouvi-los a seguir. Entretanto, gostaríamos de ressaltar alguns pontos importantes acerca desta decisão: quanto ao irmão mais novo, visto que não teve participação direta no que ocorreu em Pasine e por se tratar meramente de uma criança, não será realizado julgamento, embora ambos não estão livres para partir, de modo que devem permanecer em Arlyston sob supervisão direta do conselheiro Felipe, o qual foi nomeado como guardião dos dois a partir de agora. Caso algum dos dois tente sair do vilarejo sem supervisão, os demais moradores estão autorizados a tomar as medidas necessárias. O acusado está em período probatório por prazo indeterminado, de modo que deve provar o seu valor ao povo de Arlyston, contribuindo ativamente para o bem do vilarejo. Caso, seja apanhado em qualquer atividade que prejudique o vilarejo ou não contribua da mesma forma que os outros, este conselho fará nova avaliação para reavaliar a decisão de anistia. Por fim, o acusado está obrigado a se desculpar pessoalmente com as famílias de cada pessoa que foi afetada pelas suas ações. Caso Rafael II e o conselheiro Felipe estejam de acordo com essas condições, podemos dar por encerrada a deliberação deste caso e iniciar o período probatório, no qual o ex-visconde deve tentar se integrar a este vilarejo e tentar se redimir dos seus erros.

 

- Eu aceito estes termos e admiro a objetividade do conselho nesta decisão – prontamente respondi – responsabilizo-me pelos cuidados de Rafael II e Davi, fazendo o possível para que se integrem ao nosso vilarejo e sejam dignos da misericórdia que estão demonstrando para com eles.

- Muito bem, que assim seja – respondeu o porta-voz – Tragam Rafael II! – ordenou ele. Assim que o meu primo saiu à rua, a multidão iniciou novamente a gritar – SILÊNCIO! Repito que, qualquer pessoa que esteja descontente com a decisão pode conversar conosco a seguir. Por ora, vamos confirmar se o acusado aceita os nossos termos, em cujo caso será escoltado até o alojamento do conselheiro Felipe. Então, o que tem a dizer em relação ao que foi decidido? – finalizou ele, dirigindo-se a Rafael.

- Eu... bem... – podia-se ver que pronunciar aquelas palavras estava a ser uma tortura para ele – Eu agradeço a oportunidade... vou fazer tudo... tudo para provar que me deixar viver não foi um erro...

- Sendo assim, dou por encerrado este veredito e peço que todos voltem às suas atividades. Como eu disse, quem não se sentiu representado por esta decisão pode vir conversar com o conselho agora – Assim, a multidão dispersou-se, embora muitas das pessoas estivessem visivelmente incomodadas e descontentes.

- Então eu acho que podemos ir – disse eu, depois que a multidão havia se dispersado, dirigindo-me a Rafael, o qual estava sendo contido por dois conselheiros.

- Rafael! – disse Hugo, abraçando-o – Ainda bem que, no fim, deu tudo certo!

- Podes parar com... – respondeu Rafael, corado, visivelmente desconfortável e tentando se desvencilhar de Hugo – isso... sabes que eu não gosto...

- Bem, pois pode começar a se acostumar – respondeu Hugo, determinado – Boa parte da mudança que precisa ocorrer contigo diz respeito a te aceitares! És um de nós agora e aqui nós demonstramos afeto sempre que nos apetece!

- Sim... é que...

- Nem adianta, este aqui quando põe algo na cabeça, é extremamente persistente!

- Sou mesmo! – confirmou Hugo - Agora vamos andando, afinal, com certeza, precisas urgentemente descansar! No momento estás com uma aparência péssima, que não faz jus à tua beleza!

- Está bem! Está bem! Desde que pares com estas coisas de abraços e elogios – respondeu Rafael, visivelmente desconcertado – Será que podem me levar de uma vez ao alojamento... por... favor? – finalizou ele, dirigindo-se aos conselheiros, os quais assentiram e começaram a conduzi-lo, enquanto eu me mantive um pouco atrás, junto com Hugo.

- Bem, parece que as mudanças já começaram – disse eu, sussurrando e rindo – Já até ouvimos um “por...favor?”

- Espero que sim – respondeu Hugo em um tom mais sério – Sabes tanto quanto eu que ele ainda não está fora de perigo e, com aquele temperamento, não sei se ele conseguirá mostrar que mudou... e se eles voltarem atrás na decisão? E se...

- Calma – pus minhas mãos nos ombros dele – Te importas de verdade com ele, não é? Dá para perceber!

- Sim! Como eu disse, que sei que ele foi parte de coisas horríveis... que ele te torturou... e eu sinto muito! Mas eu sei que ele não é tão mau quanto parece!

- Eu também já comecei a perceber isso, embora não possa perdoá-lo completamente por ora...

- Eu imagino...

- Mas não se engane, eu realmente espero que isso dê certo! Afinal, ele é meu primo! A única diferença entre ele e eu é que o meu pai não era um monstro! Olha, eu vou fazer de tudo para que ele consiga se integrar aqui e tentarei convencer o conselho a manter a decisão, mas vou precisar da tua ajuda para ter certeza de que  Rafael vai fazer a parte dele.

- Quanto a isso, pode ficar tranquilo, pois eu estarei todos os dias de olho nele! Fazendo de tudo para que a adaptação seja mais fácil!

- Eu tenho certeza de que sim! – neste momento os conselheiros, que estavam logo à frente, chegaram ao meu alojamento, então eu finalizei – Eu fico muito feliz de ver o quanto crescestes emocionalmente Hugo, a ponto de poderes ajudar outra pessoa que também está perdida a encontrar o próprio caminho! – dito isso, dirigi-me aos conselheiros – Eu assumo daqui. Muito obrigado! – Assim que conduzi Rafael para dentro do alojamento, Davi veio ao nosso encontro e abraçou o irmão, enquanto Tomás e William expressaram com olhar grande surpresa e confusão.

- Irmão! É tão bom te ver de novo! Eu pensei que eles fossem...

- Está tudo bem agora, eu acho… - respondeu Rafael, olhando para mim.

- Ótimo! Quando podemos ir para casa?

- Bem, quanto a isso... Davi, esta é sua a nova casa! O conselho aceitou libertar o Rafael, com a condição de que os dois fiquem aqui em Arlyston... não, se preocupe, pois ninguém os fará mal, isto eu garanto! Mas vocês precisarão executar tarefas, assim como todos neste vilarejo!

- Mas eu nunca fiz nenhuma tarefa... e se não gostarem e quiserem me punir!

- Ninguém vai te punir Davi! Além disso, não se preocupe, pois nós vamos ajudar!

- Prometem?!

- É claro! Nós gostamos muito de você e vamos fazer de tudo para que consiga se sentir em casa aqui!

- Exato! Nós vamos cuidar de você! Isso é uma promessa! E assim que eu estiver melhor eu prometo que vamos te levar para ver as partes mais bonitas do vilarejo!

- Eu gostaria muito! Obrigado Tomás!

- Claro, porque aqui todos vivem felizes para sempre… – resmungou Rafael.

- E… quase! – respondeu Hugo – Quase ficamos uma conversa inteira sem comentários…bem, comentários como só você sabe fazer! – Finalizou ele rindo – Eu peço desculpas, ele ainda é um trabalho em andamento!

- Bem, eu vou dar crédito a ele por ter ficado tanto tempo sem fazer os seus comentários, mas realmente a atitude precisa melhorar! De fato, nós aqui em Arlyston, ultimamente, não temos trabalhado com a perspectiva de “felizes para sempre”, pois, como você mesmo sabe, os nossos entes queridos podem desparecer de nossas vidas de uma hora para outra. Mas temos tentado trabalhar com a perspectiva de fazer tudo uns pelos outros e tentar tirar o melhor do tempo que temos com aqueles que amamos. Talvez essa seja a maior lição que podes aprender conosco e nós... bem... eu, pelo menos, estou disposto a recomeçar do zero e te ajudar no que for possível. Mas eu preciso que estejas disposto a trilhar esse caminho junto comigo.

- Bem…

- Não precisa responder agora, até porque eu preciso ir ver o Bernardo. Mas pensa sobre isso! E digo mais, caso você melhore a sua atitude, eu não vou ser o único a te oferecer ajuda! Aqui em Arlyston, assim como na antiga Finnel, nós estamos abertos a receber todos aqueles que estejam de coração aberto para fazer parte da nossa família – dito isso, eu saí e direção ao local onde estava Bernardo, com o coração um pouco mais leve, por ter momentaneamente resolvido o problema do julgamento de Rafael. Agora, o que eu mais queria era finalmente ter Bernardo nos meus braços, sem pressa... apenas nós dois...depois de tanto tempo.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Capítulo 7 - Revolução: A Nova Finnel (Cont.)

- É tão bom vê-los junto novamente!
- Nossa, eu quase esqueci que vocês estava aqui! Mas não se engane! Eu estou muito feliz por ter o Bernardo de volta ao meu lado, mas nada vai me impedir de expressar a minha indignação por você ter contado ao Raul sobre a sua... relação... com o Rafael! Por que você fez isso?
- Você contou a ele?! Nós já havíamos conversado sobre isso Hugo!
- Bem, eu não consegui mentir para o Raul! Depois de todo o mal que eu fiz, o mínimo que ele merecia é a verdade!
- Você tem bons motivos! Não gosto quando vou brigar com alguém e a pessoa tem argumentos!
- Eu sei bem!
- Olha, você deveria ficar calado e descansar! Quanto a você Hugo, eu entendo os seus motivos e até concordo com eles. Mas agora nós temos um problema enorme nas mãos! O Rafael será julgado pelos moradores de Arlyston e não há nada que eu possa fazer para protegê-lo! Você só piorou as coisas revelando ao Raul o envolvimento de vocês, pois ele tem uma grande influência sobre os outros! Você sabe que, apesar de ser bruto, ele tem carisma e as pessoas passam a considerá-lo uma referência! Ele não vai conseguir ser imparcial na votação sobre o que fazer com o Rafael.
- Eu sei... mas também não há nada que eu possa fazer para ajudar o Rafael! Se algo de ruim acontecer com ele, vai ser por coisas pelas quais, de fato, ele é culpado! Não haverá injustiça! Infelizmente, ele tem sido uma pessoa horrível!
- Ele tem razão Felipe...
- Sim... eu sei que ele tem... mas, surpreendentemente, eu estou preocupado com o futuro do Rafael. Quero dizer, eu quero que ele pague pelos erros que cometeu, mas eu não quero ter nada a ver com a morte dele!
- Bem, ele não necessariamente vai ser condenado... vai?
- Eu sinto muito Hugo, mas... sim... a probabilidade é muito alta!


- Não! Eu já disse que preciso ver o meu irmão!
- Por favor Davi, eu já expliquei que não podemos lhe levar ao seu irmão, pois ele...
- Mentira! Vocês não querem me levar! Eu pensei que vocês fossem pessoas boas!
- Não! Eu juro que não podemos! Nós lhe levaríamos até ele, mas o seu irmão está...
- Ele está preso Davi... É isso o que o Tomás quer dizer!
- Mas... por quê?
- Eu prefiro não ter que lhe dizer isso... Você pode pensar que eu estou mentindo! Portanto, eu vou pedir ao Felipe que você possa ser levado até o seu irmão e, assim, poderá obter as respostas diretamente dele! Está bem assim?
- Vocês prometem?
- Definitivamente!
- É claro que nós prometemos!


- Nós temos tanto a conversar! Mas eu preciso ir para o julgamento!
- Eu sei Felipe, você pode ir! Eu estarei aqui lhe esperando!
- Eu sei... mas eu fiquei tanto tempo sem você ao meu lado... eu...
- Você está com medo de me deixar e não tornar a me ver, certo?
- Sim...
- Eu estou bem! Vá fazer o que precisa ser feito e quando você estiver livre venha correndo me ver, pois eu estarei aqui ansiosamente esperando para ter você a meu lado novamente!
- Eu vou com você Felipe! Eu já estou me sentindo bem!
- Você tem certeza que é uma boa ideia? Você, o Rafael e o Raul no mesmo espaço não me parece tão promissor!
- Eu sei, mas eu preciso estar lá...
- Lá vamos nós! Você está sendo impulsivo novamente! Olha, eu concordo que você vá, com uma condição: diga o que você vai fazer e nós vamos pensar JUNTOS se isso seria uma boa ideia ou não!
- Certo...Bem, eu estou pensando em contar aos outros o modo como eu me sinto em relação ao Rafael... Eu sei que parece a pior coisa a se fazer nesse momento, mas eu não vejo outra pessoa que possa falar melhor sobre arrependimento e mudança! De fato, foi isso o que me fez me interessar pelo Rafael! Lá no fundo, ele é somente alguém que está muito perdido... como eu...
- Não acredito que vou dizer isso, mas pode vir para o julgamento...
- Sério?!
- É claro! Eu não posso te impedir de dizer às outras pessoas o que você acabou de me dizer! É uma linda declaração e eu acho que, acima de todos, o Rafael deveria ouvi-la! Quem sabe isso toque o coração dele...
- Então vamos! Eu estou pronto!
- Hugo, só um conselho, procure não estar certo novamente na frente do Felipe nos próximos dias, ou ele pode ser bastante perigoso!
- Ei! Eu sou perfeitamente compreensivo quando as pessoas estão certas!
- Tem certeza?
- Sim! Bem... eu posso ficar um pouco incomodado... Mas... Olha Hugo, faça o que o Bernardo disse!

Desse modo, enquanto Bernardo e Hugo gargalhavam, eu deixei o local e me dirigi ao julgamento de Rafael. De certa forma, eu estava muito apreensivo sobre o destino do meu primo, pois, apesar de todas as coisas terríveis que ele havia feito, incluindo me torturar, eu não desejava a sua morte. A declaração de Hugo só reforçou esse sentimento.
Por outro lado, eu estava muito preocupado com Raul, pois, continuamente, as coisas pareciam dar errado para ele.
No caminho, eu percebi que as ruas estavam lotadas de pessoas, aparentemente esperando a decisão que seria tomada. Além disso, quando cheguei à sede de reuniões do conselho, todos os membros,  incluindo Raul, já estavam esperando para deliberar sobre o futuro de Rafael, o qual estava no centro da sala.

- Muito bem, agora que meu primo está aqui, nós podemos começar!
- Se eu fosse você, não estaria tão feliz com a minha presença. Não há muito que eu possa fazer para te defender. De fato, se os conselheiros me permitirem, gostaria de fazer algumas considerações antes de começarmos a votação.
- Eu acho que não há problema Felipe.
- Obrigado. Bem, para começar, gostaria de dizer que escolho me abster de voto neste caso, visto que há uma ligação com o Rafael que poderia deixar o meu voto menos objetivo e, assim, desqualificar a seriedade da decisão a ser tomada por este conselho. Segundo, eu gostaria que o nosso companheiro Hugo tivesse a oportunidade de falar, antes da votação, pois há algumas informações que ele escolheu compartilhar conosco, caso vocês concordem. Por fim, eu gostaria de falar um pouco sobre a minha experiência pessoal com o acusado, com o objetivo de lhes mostrar a minha perspectiva sobre o assunto. Estou ciente de que eu e Hugo pretendemos compartilhar informações que podem influenciar os seus votos, portanto peço a sua permissão.

O conselho deliberou a minha requisição e, surpreendentemente, Raul foi mais uma vez o porta-voz.

- Todos concordamos que tanto você como o Hugo contribuíram muito com as pessoas deste vilarejo, portanto, se vocês acham que precisam compartilhar tais informações sobre este caso, nós ficaríamos honrados em ouvi-las. Confesso que, pessoalmente, a sua decisão de abdicar do seu voto me fez refletir e decidir que também preciso abdicar do meu, pois há alguns aspectos deste caso que podem influenciar a objetividade do meu julgamento. Além disso, caso seja possível, gostaria que este conselho me dispensasse desta reunião.
- Se você se sente desta forma, você está dispensado Raul. Quanto a você Felipe, gostaríamos de ouvi-lo primeiro e, em seguida, ouviremos o companheiro Hugo. Somente após os seus discursos nós prosseguiremos com o julgamento.
- Eu agradeço! Bem, como eu imagino que todos saibam, o Conde Rafael é meu tio e, portanto, o acusado é meu primo. Entretanto, nunca houve muita aproximação entre as nossas famílias, tanto que eu nunca soube da existência dos meus dois primos até o incidente em Pasine, o qual, como também é de conhecimento geral, foi um verdadeiro massacre. Eu fui... fui torturado durante vários dias enquanto estive em Pasine e Rafael II estava presente em muitos momentos. O meu primo jamais transpareceu qualquer arrependimento em qualquer uma das vezes. Ele, sem dúvida, é uma pessoa com valores extremamente pervertidos. Além disso, eu sei que ele está envolvido na morte e tortura de familiares e amigos de muitas pessoas deste vilarejo. Com base nestas informações, eu e vocês poderíamos, sem dúvida, concluir que o meu primo merece ser executado como punição por seus crimes. Porém, eu gostaria de ressaltar duas coisas: a primeira, na verdade, é uma história que pertence ao passado de Rafael II e que, portanto, cabe somente a ele revelar, de modo que eu deixo a critério dele lhes contar como todo o ódio que ele sente por "pessoas como nós" começou, pois eu acho que isso pode explicar muito do comportamento que ele vem apresentando. Segundo, gostaria de ressaltar o quão difícil eu imagino que deva ser a convivência com alguém cuja mente é tão deturpada como o meu tio. Eu juro que cheguei a pensar que enlouqueceria durante o tempo que passei em Pasine, pois eu não conseguia acreditar nas loucuras que eu ouvia aquele homem falar. Eu consegui entrar na cabeça dele por algum tempo e isso quase me enlouqueceu, pois ele, de fato, tem uma mente doentia. Porém, isso foi por apenas algumas semanas e eu, sinceramente, não me surpreendo que alguém que passou a vida toda com ele tenha construído valores pessoais tão podres. Dito isso, eu peço que reflitam sobre o que eu disse antes de julgarem o acusado, pois eu acredito em segundas chances, mesmo para alguém como ele. Ressalto que não estou pedindo perdão e nem arranjando desculpas para o que ele fez, pois não há qualquer modo de reverter todo o dano que ele causou e todas as suas ações foram indesculpáveis, mas eu gostaria que ele pudesse ter um recomeço para poder construir valores melhores.
- Nós agradecemos a informação, conselheiro Felipe. Vamos levar em consideração o que foi dito. Agora podemos passar para o discurso do companheiro Hugo.
- Muito obrigado por essa oportunidade conselheiros. Eu sei que a maioria de vocês mal me conhece, portanto agradeço o voto de confiança em um assunto tão delicado. Entretanto, sem querer abusar da sua boa-fé, eu gostaria de pedir que o acusado pudesse contar a sua história antes de revelar o que eu tenho a dizer.
- Bem... acho que não há problema... acusado, você deseja compartilhar conosco a sua história? deseja se defender? se é que isso é possível...
- Não...
- Felipe, por favor!
- Eu já disse que não!
- Felipe, eu preciso que você faça isso... por favor!
- Nã... Por quê? Não há esperança!
- Você não sabe disso! Talvez... de alguma forma...
- Eu sei que não há esperança para mim! Então pare! Ouçam bem, pois eu só vou falar disso uma vez e não espero ser questionado depois de terminar.
- Você não acha que está fazendo muitas exigências para alguém na sua condição?
- Pode ser, mas seu eu vou morrer, o que eu tenho certeza que vai acontecer, o mínimo que eu posso fazer é morrer com honra e alguma dignidade.
- Honra?!Olha aqui... Quer saber, esqueça. Prossiga com a sua história para podermos acabar com isso de uma vez.
- Bem, meu nome é Rafael Carlos Francisco Miguel Xavier Leopoldo Gonzaga Almeida, Visconde de Pasine. Eu sou casado... fui casado com um plebeu do vilarejo de Gorgi de nome Pierre. Sim, caso estejam se perguntando, eu sou homossexual e me casei com um homem... o homem dos meus sonhos... alguém que eu amava... Desde quando eu era criança, sempre gostei de andar disfarçado pelas ruas de Pasine, pois fazia de tudo para passar o mínimo possível de tempo com o meu pai dentro do castelo. Eu mantive este hábito quando estava mais velho e, em uma dessas ocasiões, quando estava andando pelo mercado de trocas, esbarrei em Pierre, o qual estava vendendo produtos que trouxera de Gorgi. Infelizmente para ele, eu me apaixonei no momento em que ele pediu desculpas por ter esbarrado em mim. Eu nunca tinha estado com outro homem até então e sempre fiz de tudo para esconder os meus desejos, mas Pierre, simplesmente, parecia enxergar através de todos os meus esforços, de modo que, de alguma forma, ele me convenceu a acompanhá-lo até a saída da cidade, para que pudéssemos nos conhecer melhor. Quando eu percebi, já estávamos nos beijando em uma floresta ao redor de Pasine e eu percebi que já estava perdidamente apaixonado por ele. Pierre partiria no dia seguinte e, para minha surpresa, ele disse que gostaria que eu lhe acompanhasse. Eu solicitei ao meu pai que pudesse viajar sob o falso pretexto de conhecer outras partes do nosso reino e, no dia seguinte partira em direção a Gorgi na companhia de Pierre. Diferentemente do meu pai, a família de Pierre não via nada de anormal em dois homens se amarem e me acolheram muito bem. Eu costumava ir até Gorgi para visitar Pierre e vice-versa, de modo que a nossa relação floresceu e, finalmente, decidimos que queríamos nos casar. A família dele adorou a ideia e fui convidado a morar com eles em Gorgi, onde eu seria aceito e amado. Nunca tive coragem de contar a Pierre quem eu realmente era... Mal sabiam eles do que estava por vir... Como muitos sabem, Gorgi era conhecido por realizar casamentos entre homossexuais há muitos anos e, há algum tempo atrás, foi devastado pelo exército de meu pai. O que não deve ser de seu conhecimento é que meu pai só descobriu este vilarejo e o devastou porque eu decidi me casar com Pierre e vir morar com ele. A família de Pierre, a qual me acolheu, foi sumariamente executada bem diante dos meus olhos e, pouco tempo depois, o meu pai fez a seguinte proposta para o meu marido: Pierre teria uma hora para decidir entre ficar comigo - neste caso nós morreríamos juntos - ou fugir para bem longe na direção oposta de Pasine ou qualquer outro reino aliado - neste caso nós nunca mais teríamos contato e minha vida seria poupada para que eu pudesse viver com a culpa e a vergonha. Adivinhem qual foi a opção que o meu marido escolheu... Ele nem hesitou...
- Então Gorgi... Foi por sua causa... Mas... por que você odeia os homossexuais e compactua com as ações do seu pai, sendo que você mesmo já amou um homem?
- Veja bem, depois que Pierre fugiu eu caí em desespero profundo. Como prometido, eu vivi para sentir a dor, a culpa, o ódio e a vergonha... Porém, no fundo, eu não sentia nada... No início, o meu pai me mantinha trancado no meu quarto para definhar. Porém, na maior parte do tempo, eu estava desligado daquilo que acontecia ao meu redor. Eu acordava quando algum servo deixava uma porção minúscula de comida e água, ou então quando estava sendo examinado pelos homens de confiança do meu pai, o qual queria me manter minimamente vivo para que eu pudesse sofrer ainda mais. Fora essas duas ocasiões, eu passava os dias dormindo, tentando permanecer nos dias em que eu fora feliz... ainda que eu soubesse que não eram reais, era melhor do que aquilo que eu estava passando. Um dia, o meu pai adentrou o meu quarto e me submeteu a um tratamento que vocês conhecem muito bem... a inestimável "cura". O meu pai acha que há uma "cura" porque, aparentemente, ela funcionou comigo... Mas a grande verdade é que eu não sentia nada por ninguém... Ninguém me interessava... Nenhum amigo ou amor... Eu não precisava fingir...
- Foi aí que você começou a torturar os seus iguais...?
- Não exatamente... Ouça, mesmo sem querer, o fato de estar "curado" melhorou o modo como o meu pai me tratava e, pouquíssimo tempo depois, ele me apresentou à sua mais nova atividade favorita: as caçadas. Segundo o meu pai, ele nunca pretendeu deixar Pierre viver. O que ele realmente queria era me mostrar o quão fraco era o amor dele por mim. Bem... funcionou. Meu pai me contou que, de fato, ele deu uma vantagem de uma hora para que Pierre pudesse fugir, mas logo em seguida ele e seus homens partiram em seu encalço. Ele foi encurralado e violentamente torturado dois dias depois em uma floresta ao sul de Gorgi. Este processo deu tanto prazer ao meu pai que ele teve a ideia de fazer isso com todos os homossexuais nas áreas próximas a Pasine e, principalmente, com as pessoas em Gorgi que ainda tivessem a ousadia de se declararem homossexuais. Isso deu origem ao reino de terror que meu pai vem expandindo nos últimos tempos e eu sempre estive ao seu lado, tanto em caçadas como em invasões a outros vilarejos. Eu assisti a tudo. Porém, por mais surpreendente que isso possa parecer, eu nunca matei ou torturei uma única pobre alma. Eu confesso que assisti e nunca me mobilizei pelo sofrimento das pessoas durante tais eventos e disso eu sou culpado, mas eu jamais feri diretamente uma pessoa. Bem, exceto Felipe, o qual eu realmente torturei e feri deliberadamente, mas isso é porque eu... eu... eu o invejo... Inveja foi a única coisa que realmente eu consegui sentir em muito tempo e isso foi tão avassalador que me fez agir do modo como eu agi...
- Inveja?
- Ah, vamos lá! É só olhar para ele e Bernardo! A relação deles é tão perfeita que chega a ser irritante! O Felipe conseguiu, de uma só vez, despertar inveja, raiva e nojo! Sério, ele me irrita muito e eu tenho vontade de socar a cara dele! Mas este é um caso isolado! Quanto aos demais, em minha defesa, eu fui apenas um cúmplice nas ações doentias do meu pai! Como eu disse, eu sou culpado de omissão e eu sei que nunca poderei ser perdoado por isso, mas eu nunca feri alguém.  Pelo menos não fisicamente...
- Algo mais que você gostaria de dizer?
- Acho que isso foi suficiente...
- Muito bem... Hugo, é a sua vez.
- Eu serei breve. Eu pedi ao Felipe que me deixasse falar por dois motivos: o primeiro é porque eu tive ou tenho... na verdade eu não sei direito ainda... uma relação com o acusado. Portanto, conheço o Rafael em um nível mais pessoal e já ouvi estas mesmas histórias que ele acaba de lhes contar. Durante o tempo que passamos juntos em Pasine, eu pude perceber que ele já sofreu bastante e, por mais que ele insista em manter uma postura autoritária e esnobe, eu sei que ele só está procurando paz e algo que o faça sentir algo significativo de novo. Ressalto que o Rafael sabe por experiência própria que a cura não funciona, portanto sabia que eu e Bernardo nunca tínhamos sido "curados", mas ele nunca nos delatou ou armou para que nós fôssemos apanhados enquanto planejávamos a nossa fuga de Pasine. O segundo motivo de estar aqui é porque eu mesmo já cometi muitos erros no passado e posso, com toda propriedade, dizer que estou arrependido e regenerado atualmente. Dito isso, gostaria de pedir aos senhores que considerem olhar para esta pessoa e tentar enxergar os motivos que o levaram a fazer o que ele fez. Assim como o Felipe, eu também acredito em segundas chances, pois eu mesmo já fui beneficiado por isso e consegui melhorar quem eu sou, portanto acredito que o Rafael também merece esse benefício. Isto era tudo o que eu tinha a dizer, eu agradeço a sua atenção!
- Bem, eu acho que já ouvimos todos e agora podemos prosseguir com a votação para decidir o futuro do acusado. Eu peço ao conselheiro Felipe, o qual abdicou do seu direito de voto, que se retire da sala e leve o companheiro Hugo consigo. Procederemos à votação e, assim que finalizarmos, vocês serão informados do veredito.

Eu e Hugo nos retiramos da sala e, assim que saímos, encontramos William, o qual estava na companhia do meu outro primo. Estranhamente, Hugo saiu correndo, sem dar explicações.

- Primo! Eles disseram que o meu irmão está preso! É verdade?
- Sim Davi... É verdade...
- Mas eles disseram que eu poderia ver o meu irmão! Eu vou poder ver ele?
- Eles disseram isso? Que interessante!
- Em nossa defesa, ele é tão voluntarioso quanto o primo! Não havia alternativa!
- Tudo bem irmão, eu acho que você fez a coisa certa! Mas neste momento não vai ser possível, pois eles estão votando...
- William é seu irmão?
- Sim Davi! Bem, meio-irmão na verdade, mas isso não faz muita diferença pra mim!
- Então ele é meu primo também?!
- Eu acho que sim! Na verdade você é meu primo por laços maternos e William não compartilha a mesma mãe comigo, mas, de novo, essas questões não fazem muita diferença já que vocês estão se dando tão bem! Portanto, você pode considerá-lo seu primo!
- Eu não tinha atentado para isso! É verdade Davi, nós somos primos! Viu só? Você não precisa mais duvidar da minha palavra! Afinal, um primo mentiria para você?
- Eu acho que não!
- Eu também penso que não! Quanto ao seu irmão Davi, você só vai poder ver ele depois que as pessoas decidirem se ele é culpado ou não.
- Mas, o que o meu irmão fez?
- Bem... eu...
- Nós combinamos que ele mesmo iria lhe contar, não foi Davi?
- Ah! Essa é uma ótima ideia! Obrigado William!
- Sem problemas! Felipe, você se importa de ficar com o Davi por enquanto? Eu gostaria de ir ficar com o Tomás, afinal ele ficou só enquanto eu vim trazer o Davi para falar com o irmão.
- É claro William! Eu agradeço muito você ter ficado com ele todo esse tempo! Há tanta coisa que eu preciso resolver! Bernardo acordou, mas eu nem pude ficar muito tempo ao lado dele!
- Ele acordou? Então eu vou fazer uma visita e ver como ele está antes de ir encontrar o Tomás!
- Ele vai ficar muito feliz de ver você!

Assim que William saiu, percebi que outras pessoas estavam silenciosamente se aproximando de nós. Finalmente, uma delas indagou:

- Qual foi o veredito?
- Ainda não temos um veredito. Eu abdiquei do meu voto, pois assim não haveria dúvidas de que essa será uma decisão imparcial. Estou esperando para saber o que foi decidido, assim como vocês.
- E quanto a essa criança? Também não é filho de Conde Rafael?
- Sim... este também é meu primo...
- O que vai acontecer com ele? Ele não deveria estar sendo julgado também? Afinal, ele é filho daquele homem vil! Deveríamos infligir dor a Conde Rafael por meio do filho dele! Isso seria uma boa retribuição por tudo que ele já nos fez!
- Primo! Eles querem me ferir!
- Vejam! Ele é só uma criança e está extremamente assustado! Não vamos esquecer de que somos as vítimas e não os vilões aqui! Eu imagino toda a revolta e dor que vocês estão sentindo, mas ferir esta pobre criança não vai deixar nada melhor!
- Ele tem razão! Não vamos nos comportar como selvagens e esquecer de que lutamos contra a violência de Conde Rafael! O próprio fato de pensar em ferir esta criança já enfraquece a nossa causa, pois isso nos faria semelhantes a ele! Seriamos pessoas doentias!
- Sábias palavras Raul!

Depois do que Raul disse, ninguém mais se pronunciou. Mas várias pessoas continuaram esperando do lado de fora da sala de reuniões do conselho para saber o que havia sido decidido. Aparentemente, Hugo e Raul tinham se encontrado e rumado para o local. Ou será que Hugo tinha ido, imediatamente, atrás de Raul quando saíamos da sala de reuniões?

- Está tudo bem entre vocês?
- Sim. O Hugo é meu amigo acima de tudo! Se ele ama outra pessoa, eu deveria pelo menos ser capaz de aceitar isso... Embora eu não goste...
- Obrigado Raul! Eu sinto muito...
- Podemos deixar isso para trás? Eu realmente quero seguir em frente Hugo...
- Claro...
- Você foi atrás dele? Foi por isso que saiu correndo tão de repente?
- Sim! Eu estava tentando ajudar o Rafael, mas não queria magoar o Raul! Eu fui atrás dele e nós tivemos uma breve conversa, então eu o convenci a estar presente quando derem o veredito, pois ele é parte do conselho e tem o direito de estar aqui. 
- Eu expliquei a ele que não estou magoado dessa vez! Na verdade ele foi sincero comigo e eu aprecio muito o modo como ele vem lidando com essa situação. Eu apenas estou triste e um pouco frustrado... Mas isso vai passar! Ainda continuamos amigos!
- Com certeza Raul! Todos vocês são muito importantes para mim! Eu nem sei se estaria vivo sem a ajuda de vocês!
- Ei, você é amigo do meu irmão, certo?
- Eu sou sim Davi! Você se lembra de mim?
- Claro! Eu vi você beijando meu irmão e...
- Atenção! A quem interessar, nós já temos o veredito sobre o acusado Rafael II!

A decisão, finalmente, tinha sido tomada. Eu tinha me eximido da responsabilidade de decidir o futuro do meu primo e ainda não estava totalmente certo do quão bom isso tinha sido. Caso ele fosse condenado à morte, eu não seria culpado por omissão? Afinal, eu era a única família que poderia intervir por ele no meio de tantas pessoas que ele magoou! Agora nada disso tinha importância, pois, em alguns instantes, os conselheiros iriam revelar o futuro de Rafael e já não havia mais nada que eu pudesse fazer por ele. 

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Capítulo 7 - Revolução: A Nova Finnel (Cont.)

Uma grande confusão sucedeu a chegada do grupo de exploração. Depois disso, Hugo e Bernardo, o qual ainda estava inconsciente, foram levados para o alojamento do curandeiro do vilarejo, pois o primeiro apresentava alguns ferimentos que precisavam ser tratados e meu marido precisava ser colocado em algum lugar onde o seu estado de saúde pudesse ser avaliado. O pequeno Davi, o qual estava muito assustado, foi levado para o nosso alojamento. Quanto a Rafael II, este foi mantido prisioneiro no local onde realizávamos as nossas reuniões do conselho.
Na casa do curandeiro, unções e misturas foram utilizadas para tratar os ferimentos de Bernardo e Hugo, o qual desmaiou assim que chegou ao local, provavelmente de cansaço. Dessa forma, ambos estavam inconscientes e, segundo o curandeiro, não conseguiríamos obter nenhuma informação deles pelas próximas horas. Além disso, ele me tranquilizou dizendo que o estado de Bernardo não era grave, de modo que ele apenas precisaria de várias horas de repouso para recuperar a saúde e energia.
Depois de sair da casa do curandeiro, onde deixei o meu marido e um dos meus companheiros de jornada, eu me dirigi até o meu alojamento, a fim de conversar com o meu primo. Quando cheguei ao local, encontrei-o gritando com Raul e William, os quais pareciam não saber o que fazer. Assim que me viu, o pequeno Davi veio correndo em minha direção e me abraçou.

- Primo! Eles querem me fazer mal! Eu não quero ficar aqui!
- Calma Davi! Eu estou aqui agora! Você deve estar muito confuso, certo?
- Sim... por que aqueles homens me amarraram? Onde está o meu irmão?
- Davi... o seu irmão está bem! Algumas coisas complicadas estão acontecendo e nós precisávamos trazer vocês para cá...
- Onde está o meu pai?
- Eu não sei...
- Primo, eu estou com medo! Você promete que cuida de mim?
- É claro Davi! Eu vou cuidar de você! Mas você precisa confiar em mim, tudo bem?
- Sim...
- Ouça, estes rapazes são meus amigos e eles não farão mal a você! Eu prometo e eles também prometem! Certo rapazes?
- É claro...
- Certo...
- Viu?! Eles são bonzinhos!
- Eu acho que sim...
- Muito bem, então já que agora você sabe disso, eu posso te deixar aqui com eles enquanto eu vou fazer uma coisa? Você vai se comportar, certo?
- Eu vou tentar...
- Parece bom o bastante! Eu prometo não demorar Davi! Quando eu voltar, nós podemos conversar mais!
- Tudo bem!

Finalmente, eu segui para a sede das reuniões do conselho, onde várias pessoas estavam gritando e ameaçando o meu outro primo de diversas formas. Eu precisei intervir para acalmar os ânimos e solicitei privacidade para falar com ele. Apesar de contrários a isso, as pessoas respeitaram o meu pedido e me deixaram a sós com Rafael II.

- Eu exijo que você me solte agora mesmo!
- Olha, eu acho melhor você parar de reclamar e começar a me contar o que aconteceu! Ou eu vou simplesmente deixar as pessoas fazerem as coisas terríveis que elas pretendem fazer com você! Não se esqueça de que praticamente todas perderam algum familiar por causa do seu pai!
- Você não faria isso!
- Você não me conhece! Não teste a minha paciência! Principalmente agora, quando o meu marido está desmaiado e eu não sei o que aconteceu! Neste exato momento, eu não sou a pessoa mais equilibrada, mas, incrivelmente, eu sou a aquele que quer lhe fazer menos mal! Então você pode começar a falar ou pode ir se resolver com a população enfurecida desse vilarejo! Qual a sua escolha?
- Eu não sei! O seu dito "marido" é um traidor e meu pai nunca vai perdoá-lo!
- Já que não sabe de nada, eu acho que as pessoas pode fazer o que quiserem com você! Adeus!
- Espera! Eu vou contar o que eu sei...

Aparentemente, o meu tio vinha pessoalmente procurando o grupo fugitivo nas últimas semanas. Bernardo tinha se tornado o braço direito de Conde Rafael e o acompanhava em várias das missões de busca. Devido à confiança que meu tio desenvolvera em Bernardo, há alguns dias ele o deixou no comando do reino enquanto iria em mais uma missão de busca. Porém, Rafael suspeitou da saída massiva de guardas do reino logo depois que o seu pai havia saído para a missão de busca e alertou os guardas remanescentes, os quais flagraram Hugo e Bernardo tentando fugir do reino. Os dois tiveram que lutar e Bernardo acabou ferido, de modo que eles teriam morrido se não fosse pela inesperada ajuda de dois guardas que se rebelaram contra os outros. Devido ao fato de haver poucos guardas no reino, já que a maioria tinha sido enviada para missões de busca, eles conseguiram neutralizar os guardas leais a Conde Rafael. Além disso, antes de fugirem, Hugo foi pessoalmente ao quarto de Rafael, o qual havia fora subjugado e amarrado com cordas. O mesmo foi feito com Davi, de modo que ambos foram nocauteados e trazidos como prisioneiros durante a fuga. Rafael não revelou muitos detalhes sobre os fatos antes ou depois do momento da fuga de Pasine, mas fez questão de deixar a sua indignação explícita.

- Fomos tratados da pior forma possível! O pobre Davi passou dias amarrado!
- Quem te ouve dizer isso pode até pensar que você se importa com alguém além de si mesmo! Mas eu sei a verdade Rafael, então pode parar.
- Como você ous...
- CALADO! Eu acho que você ainda não percebeu, mas não está mais em Pasine e não tem qualquer tipo de autoridade aqui! Muito pelo contrário, você corre um sério risco de vida aqui! Portanto, se não quiser que eu precise explicar ao Davi como o irmão dele morreu, eu acho bom você melhorar a sua atitude! Principalmente, porque você vai querer convencer aquelas pessoas de que você merece viver!
- Mas você vai me proteger, certo?
- Olha, eu não poderia te proteger, nem se eu quisesse! Eu não mando neste vilarejo e você não merece que eu entre em qualquer tipo de conflito com os moradores para poder salvar a sua pele! Portanto, a responsabilidade de te salvar é inteiramente sua! Mostre àquelas pessoas que você não é tão mal quanto o seu pai! O máximo que eu posso fazer, e eu só farei por consideração ao Davi, é solicitar uma reunião do conselho para decidir a sua situação. Até lá, supostamente, ninguém deverá te fazer mal... mas, como eu disse, eu não mando neste vilarejo...

A minha proposta, como esperado, fora mal recebida pelas pessoas que aguardavam do lado de fora da sede do conselho. Muitos queriam retribuir ao filho de Conde Rafael todo o sofrimento que meu tio havia causado para as famílias do vilarejo e eu, sinceramente, não discordava deles. Porém, agi do modo como havia prometido a Rafael e obtive resposta positiva das pessoas que faziam parte do conselho para que realizássemos uma reunião no dia seguinte. A população fora instruída para que não atentassem contra a integridade física de Rafael mas, bem no fundo, eu sabia e até mesmo esperava, que alguém fosse desacatar aquela ordem. Assim, meu trabalho tinha terminado ali, de modo que retornei ao meu alojamento para ver como Davi estava lidando com os meus companheiros. Para minha surpresa, todos estavam conversando animadamente ao redor da cama de Tomás, o qual aparentava estar se sentindo bem. Assim que me viu, Davi disse:

- Primo! Você voltou!
- Sim! E eu vejo que você está bem mais calmo! Além disso, parece estar bem mais confortável quanto aos meus amigos!
- Eles são bonzinhos como você disse! Tomás estava me contando sobre o dia do casamento!
- Ah, que bom! Eu adoro essa história!

Novamente, Davi havia me impressionado pela naturalidade com que ele falava sobre uma relação entre dois homens. Considerando-se que ele era filho de Conde Rafael, eu esperaria que ele tivesse sido ensinado a detestar este tipo de comportamento, mas eu estava enganado. Nós conversamos por horas sobre as aventuras de William e Tomás em suas missões como guardas reais. No fim da tarde, eu fui chamado à casa do curandeiro, pois Hugo havia acordado. Quando cheguei ao local, notei que Bernardo ainda estava inconsciente, mas tentei ignorar a preocupação e me concentrei em Hugo, o qual estava acordado e aparentava estar bem melhor. Assim, abracei-o e disse:

- Bem-vindo de volta! Fico tão feliz que vocês tenham conseguido!
- Como é bom te ver Felipe! Eu achei que... eu também estou muito feliz de ter conseguido! Onde estão os outros? E o Raul?
- Calma! Todo mundo está bem! Nós é que estávamos preocupados com vocês!
- Você deve estar querendo saber o que aconteceu, certo?
- Bem, eu não vou negar que estou muito curioso para saber o que aconteceu em Pasine desde que fugimos! Mas você pode nos contar quando estiver se sentindo melhor! Eu só estou um pouco preocupado com o que aconteceu com Bernardo...
- Eu vou te contar tudo agora Felipe! Eu só precisava descansar! Além disso, é o mínimo que eu posso fazer, já que Bernardo foi ferido ao salvar a minha vida! Muito bem, vamos começar do dia em que vocês fugiram...

De acordo com Hugo, a ascensão de Bernardo não foi tão simples quanto Rafael insinuou. Hugo e Bernardo foram trancafiados e interrogados durante quase uma semana, até que pudessem voltar aos seus postos de trabalho. Depois disso, Bernardo passou a sair nas missões de busca ao nosso grupo, visto que Conde Rafael acreditava que ele saberia os possíveis locais para os quais nós poderíamos ter ido. De fato, Bernardo era a pessoa mais indicada para nos encontrar, mas ele confessou a Hugo que sempre levava o meu tio a lugares nos quais ele sabia que não estaríamos. Meu tio não desconfiou da estratégia de Bernardo porque, no início, este os levava a vilarejos onde nós, de fato, tínhamos estado no passado, mas que estavam desabitados porque a maioria da população havia sido enviada a Pasine e morrera no massacre. Posteriormente, ele os levou a outros lugares onde nós nunca tínhamos estado, mas nos quais ele implantava falsas pistas da nossa passagem por lá. Felizmente, como Rafael mencionara, Conde Rafael deixara Bernardo no comando do reino, o que era muito bom, considerando-se que ele já estava ficando sem ideias de lugares para levar o meu tio, sem que este começasse a duvidar da sua lealdade.
Hugo mencionou que ele ficara o tempo todo trabalhando no castelo, já que não era um oficial do meu tio, então todas as informações sobre as missões de busca ele havia recebido de Bernardo, com o qual ele sempre se reunia para organizar uma maneira de nos avisar sobre o que estava acontecendo em Pasine, porém eles nunca encontraram um momento apropriado para fazê-lo, até o dia em que fugiram do reino. No momento em que Bernardo fora nomeado para liderar o reino na ausência de Conde Rafael, Hugo e ele sabiam que esta era a chance que eles vinham esperando para poder fugir de Pasine. Assim, Bernardo começou a enviar vários guardas reais em falsas missões para lugares bem distantes, de modo que não restariam muitos guardas no reino, caso eles fossem apanhados durante a fuga, o que de fato ocorreu. No momento da luta anteriormente relatada por Rafael, Hugo era o alvo de uma flecha que acabou acertando Bernardo na parte posterior da perna, de modo que ele não podia andar adequadamente e, portanto, não poderia fugir. Graças aos guardas que se rebelaram, segundo Hugo, porque também eram homossexuais, eles conseguiram sobrepujar os guardas de Conde Rafael, raptar os meus primos e fugir de Pasine. Porém, Bernardo perdera muito sangue e desmaiara pouco antes de chegarem a um vilarejo ao norte de Arlyston, onde encontraram Raul e o resto da equipe de exploração, os quais, prontamente, ofereceram suporte para que os fugitivos de Pasine encontrassem o nosso refúgio.

- Mas... por que trazer os meus primos?
- Sinceramente, eu estou com vergonha do motivo...
- Como assim?
- Eu cedi... ele foi bastante insistente...
- Quem foi... espera, você quer dizer que... você e o Rafael...
- Eu sei! É horrível! Mas eu acho que isso não devia te surpreender... Afinal, eu nunca fui uma pessoa boa! Veja o problema que eu quase criei entre você e o Bernardo! Mas é que eu preciso tanto de atenção e... eu não sei... acho que tenho algum tipo de problema...
- Escuta Hugo, aquilo é passado! Mas eu não posso negar que ceder aos encantos do Rafael, sejam eles quais forem, não foi a sua melhor ideia! Ele sim tem problemas sérios! Quero dizer, eu até entendo que ele esteja amargurado pelo que o pai fez a ele, mas ele já ultrapassou alguns limites! Você sabe que tipo de coisas ele já fez, certo?
- Eu sei Felipe! Não entenda mal o que eu te contei! Eu sei o que fez, mas ele parece ser alguém perdido, assim como eu... e talvez essa identificação tenha me atraído nele...
- Bem, eu não posso te dizer o que fazer, mas ainda acho uma má ideia! Só mais uma coisa, como fica o Raul nessa história? Você não sente nada por ele? Vocês passaram muito tempo juntos quando estavam presos em Pasine, pelo que ele me contou.
- Eu acho que já fiz muito mal ao Raul... ele merece alguém melhor...
- Mas a pergunta foi: você não sente nada por ele?
- Às vezes eu acho que sim... mas eu tenho medo de magoá-lo novamente! Ele não merece isso! Acho que perder o Paulo já deve ter sido suficiente para ele e essa minha inconstância não vai ser muito boa para ele agora!
- Olha Hugo, eu concordo que o Raul tenha passado por muita coisa nesses últimos tempos e que, realmente, você tem sido bastante inconstante quanto aos seus sentimentos desde que eu te conheço. Mas, se você quer ficar com o Rafael apenas porque você sente que não é uma pessoa boa, saiba que você está completamente enganado! Você está nessa família que formamos há algum tempo e eu sei que você tem inúmeras qualidades, você só precisa as fazer serem mais evidentes do que a sua inconstância! Pense nisso!
- Obrigado Felipe! Você é um bom amigo!
- Eu que agradeço! Por ter trazido o meu marido de volta para mim!
- Ele fez a maior parte de tudo! O seu marido é um homem extraordinário, assim como você! Não é a toa que eu senti algo pelos dois!
- Err... isso ficou para trás, certo?
- Claro! Não me entenda mal, tudo o que sinto por vocês dois agora é uma profunda admiração! Bem, e um pouco de inveja, já que vocês conseguem sustentar o amor de vocês no meio de tanta coisa ruim que vem nos acontecendo! Espero poder fazer o mesmo, seja lá quem eu escolher para ficar ao meu lado!
- Eu sei que você vai conseguir! Quanto ao "quem", eu só tenho uma dica: escolha a pessoa que te faz sentir único, independente da aparência!
- Obrigado! Eu vou levar isso em consideração!
- Eu espero que sim! Agora eu preciso ir, pois o meu adorável priminho está me esperando e eu ainda tenho que pensar em um jeito de alocá-lo no meu alojamento, pois eu tenho a impressão de que ele não vai sair de lá tão cedo!
- Ele é realmente uma criança adorável! Pode dizer a ele que eu sinto muito por tê-lo amarrado, mas eu precisava que ele colaborasse durante a fuga! E desculpe por mais este incômodo que eu lhe causei!
- Eu vou dizer a ele! Quanto a ele ser um incômodo, eu discordo! Talvez ele tenha sido a segunda melhor coisa que você me trouxe de Pasine, depois de ter trazido o meu marido vivo! Bem, espero que você esteja se sentindo melhor! Você vai ter que passar a noite aqui e amanhã discutiremos a reorganização dos alojamentos, agora que temos mais moradores!

O fato de Rafael ter supostamente seduzido Hugo havia me surpreendido muito, visto que eu presumira que o meu primo não fosse se envolver com ninguém depois que Conde Rafael havia destruído a vida do próprio filho. Porém, sabendo da ineficácia do suposto tratamento do meu tio, não me surpreendia o fato de Rafael ainda ter desejos por outros homens. Independente disso, a relação entre ele e Hugo me trazia certo temor, já que Raul havia revelado que talvez ainda tivesse sentimentos pelo ex-namorado. Este tipo de situação não era ideal para o momento que vivíamos no vilarejo e eu, sinceramente, esperava que aquilo não abalasse o potencial de Raul de nos liderar em uma possível nova batalha contra Conde Rafael, visto que ele era o mais capacitado no momento para isso. Quando cheguei ao meu alojamento, Davi estava dormindo em minha cama.

- Ele parecia tão cansado, então o deixamos ficar na sua cama, mas ele acabou adormecendo!
- Tudo bem, acho que essa vai ter que ser a solução! Agora, eu só preciso encontrar um lugar para dormir!
- Você pode ficar com a minha cama irmão! Eu não a uso tão frequentemente e, nos últimos dias, não consigo me afastar da cama de Tomás!
- Eu já disse que eu estou me sentindo bem! Mas eu concordo Felipe, você deveria dormir na cama dele e nós podemos dividir a minha.
- Tem certeza?
- Mas é claro! Amanhã nós decidiremos como podemos alojar o seu primo mais adequadamente!
- Bem, então eu vou aceitar, porque eu estou exausto! Mas onde está o Raul?
- Ele saiu há alguns minutos, mas não disse aonde ia!
- Espero que ele não tenha ido visitar o Hugo!
- Por quê? Achei que eles tivessem se entendido em Pasine!
- Eles tiveram muito tempo para ressignificar o que aconteceu em Finnel!
- Tudo bem, eu vou contar algo muito importante, mas que não deve chegar ao conhecimento do Raul até que seja extremamente necessário!

Contei aos dois sobre a relação entre Hugo e Rafael, o que lhes surpreendeu tanto quanto a mim. Também lhes contei o que havia descoberto sobre a fuga de Finnel, o que levou bastante tempo. Quando terminei de atualizá-los sobre o que Hugo e Rafael haviam me contado, Raul ainda não tinha chegado e meu primo parecia estar em um sono profundo. Assim, considerando-se que eu estava exausto e tivera um dia cheio de tantas surpresas, dormir foi extremamente fácil.
Porém, no outro dia, fora novamente acordado por gritos. Quando saí para verificar a fonte da confusão, encontrei Raul agredindo Rafael no meio de outras pessoas que também faziam o mesmo. Assim, corri em direção à multidão e gritei:

- Parem! Achei que tinha ficado acordado que faríamos uma reunião antes de decidirmos o que fazer com o nosso prisioneiro! Estou certo?
- Felipe, não precisamos de uma reunião para decidir que o pai e ele já nos fizeram muito mal e merecem que a ira das famílias daqueles que morreram caia sobre eles!
- Escutem, eu tenho o direito de lhes dizer o que fazer, eu já deixei isso muito claro! Mas, em nome do bom senso, eu lhes peço que façamos a reunião do conselho antes de continuarmos com... isso...
- O que a reunião vai mudar em nossa decisão de fazê-lo sofrer? Não será apenas uma perda de tempo que acabará no mesmo fim?
- Talvez sim... Mas eu prefiro que tomemos essa decisão em um local calmo e usando de toda a nossa capacidade de analisar os fatos! Eu tenho algumas informações sobre este filho de Conde Rafael, o qual, como sabem, é meu primo! Eu não estou aqui para defendê-lo, mas também não posso deixar de interceder para que ele tenha um julgamento justo, considerando-se a nossa ligação. Prometo que serei imparcial na apresentação das informações que possuo e, aqui na frente de todos, abdico do meu voto no conselho como uma prova do meu comprometimento com as pessoas deste vilarejo.

As pessoas acataram o meu pedido e, assim, a decisão sobre o futuro de Rafael fora momentaneamente adiada para dali a uma hora, quando aconteceria a reunião do conselho. Algumas pessoas levaram Rafael de volta para o local de onde o haviam tirado e o resto se dispersou. Raul também estava indo embora, mas eu o interceptei.

- Raul! Por que você fez aquilo?! Eu achei que você tinha concordado com a minha decisão!
- Eu tinha... até conversar com o Hugo...
- O que ele te disse?
- Você sabe... ele me disse o que aconteceu entre eles nesse período...
- Eu sinto muito Raul! Eu...
- Não importa! Eu te disse que estava conformado com a minha sina! Desculpe pela confusão, eu perdi a cabeça!
- Está tudo bem, esquece isso! Mas, você vai ficar bem?
- Vou... eu sempre fico... Mas eu preciso espairecer! Nos vemos na reunião do conselho, tudo bem?
- Claro...

Raul estava, visivelmente, devastado e eu não podia suportar vê-lo daquela forma. Eu me sentia inútil, pois não sabia o que fazer para fazer aquilo menos devastador para o meu amigo. Como eu previra, o envolvimento de Hugo com Rafael havia trazido problemas para Raul. Aquilo, de certa forma, causara um pouco de frustração e raiva, pois eu estava planejando contar o que havia acontecido de forma menos drástica para Raul, mas Hugo se antecipara. Assim, fui ao local onde ele estava para tirar satisfações. 

- Hugo, eu não acredito que você...
- Como sempre, fazendo questão de ser notado onde quer que você entre!

Lá estava ele. Sentado na cama, sorrindo, com olhos alertas e, o melhor de tudo, vivo! Eu nem me importei de não terminar a frase que havia começado. Eu, simplesmente, corri para os seus braços, encostei-me em seu largo peitoral e lá me mantive, sem pressa e nem intenção de me afastar dele por incontáveis minutos. As lágrimas corriam de forma incontrolável e eu soluçava diante da reciprocidade do abraço do meu marido. Ele estava de volta e, naquele momento, era como se nunca tivéssemos nos separado.