sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Capítulo 7 - Revolução: A Nova Finnel (Cont.)

- É tão bom vê-los junto novamente!
- Nossa, eu quase esqueci que vocês estava aqui! Mas não se engane! Eu estou muito feliz por ter o Bernardo de volta ao meu lado, mas nada vai me impedir de expressar a minha indignação por você ter contado ao Raul sobre a sua... relação... com o Rafael! Por que você fez isso?
- Você contou a ele?! Nós já havíamos conversado sobre isso Hugo!
- Bem, eu não consegui mentir para o Raul! Depois de todo o mal que eu fiz, o mínimo que ele merecia é a verdade!
- Você tem bons motivos! Não gosto quando vou brigar com alguém e a pessoa tem argumentos!
- Eu sei bem!
- Olha, você deveria ficar calado e descansar! Quanto a você Hugo, eu entendo os seus motivos e até concordo com eles. Mas agora nós temos um problema enorme nas mãos! O Rafael será julgado pelos moradores de Arlyston e não há nada que eu possa fazer para protegê-lo! Você só piorou as coisas revelando ao Raul o envolvimento de vocês, pois ele tem uma grande influência sobre os outros! Você sabe que, apesar de ser bruto, ele tem carisma e as pessoas passam a considerá-lo uma referência! Ele não vai conseguir ser imparcial na votação sobre o que fazer com o Rafael.
- Eu sei... mas também não há nada que eu possa fazer para ajudar o Rafael! Se algo de ruim acontecer com ele, vai ser por coisas pelas quais, de fato, ele é culpado! Não haverá injustiça! Infelizmente, ele tem sido uma pessoa horrível!
- Ele tem razão Felipe...
- Sim... eu sei que ele tem... mas, surpreendentemente, eu estou preocupado com o futuro do Rafael. Quero dizer, eu quero que ele pague pelos erros que cometeu, mas eu não quero ter nada a ver com a morte dele!
- Bem, ele não necessariamente vai ser condenado... vai?
- Eu sinto muito Hugo, mas... sim... a probabilidade é muito alta!


- Não! Eu já disse que preciso ver o meu irmão!
- Por favor Davi, eu já expliquei que não podemos lhe levar ao seu irmão, pois ele...
- Mentira! Vocês não querem me levar! Eu pensei que vocês fossem pessoas boas!
- Não! Eu juro que não podemos! Nós lhe levaríamos até ele, mas o seu irmão está...
- Ele está preso Davi... É isso o que o Tomás quer dizer!
- Mas... por quê?
- Eu prefiro não ter que lhe dizer isso... Você pode pensar que eu estou mentindo! Portanto, eu vou pedir ao Felipe que você possa ser levado até o seu irmão e, assim, poderá obter as respostas diretamente dele! Está bem assim?
- Vocês prometem?
- Definitivamente!
- É claro que nós prometemos!


- Nós temos tanto a conversar! Mas eu preciso ir para o julgamento!
- Eu sei Felipe, você pode ir! Eu estarei aqui lhe esperando!
- Eu sei... mas eu fiquei tanto tempo sem você ao meu lado... eu...
- Você está com medo de me deixar e não tornar a me ver, certo?
- Sim...
- Eu estou bem! Vá fazer o que precisa ser feito e quando você estiver livre venha correndo me ver, pois eu estarei aqui ansiosamente esperando para ter você a meu lado novamente!
- Eu vou com você Felipe! Eu já estou me sentindo bem!
- Você tem certeza que é uma boa ideia? Você, o Rafael e o Raul no mesmo espaço não me parece tão promissor!
- Eu sei, mas eu preciso estar lá...
- Lá vamos nós! Você está sendo impulsivo novamente! Olha, eu concordo que você vá, com uma condição: diga o que você vai fazer e nós vamos pensar JUNTOS se isso seria uma boa ideia ou não!
- Certo...Bem, eu estou pensando em contar aos outros o modo como eu me sinto em relação ao Rafael... Eu sei que parece a pior coisa a se fazer nesse momento, mas eu não vejo outra pessoa que possa falar melhor sobre arrependimento e mudança! De fato, foi isso o que me fez me interessar pelo Rafael! Lá no fundo, ele é somente alguém que está muito perdido... como eu...
- Não acredito que vou dizer isso, mas pode vir para o julgamento...
- Sério?!
- É claro! Eu não posso te impedir de dizer às outras pessoas o que você acabou de me dizer! É uma linda declaração e eu acho que, acima de todos, o Rafael deveria ouvi-la! Quem sabe isso toque o coração dele...
- Então vamos! Eu estou pronto!
- Hugo, só um conselho, procure não estar certo novamente na frente do Felipe nos próximos dias, ou ele pode ser bastante perigoso!
- Ei! Eu sou perfeitamente compreensivo quando as pessoas estão certas!
- Tem certeza?
- Sim! Bem... eu posso ficar um pouco incomodado... Mas... Olha Hugo, faça o que o Bernardo disse!

Desse modo, enquanto Bernardo e Hugo gargalhavam, eu deixei o local e me dirigi ao julgamento de Rafael. De certa forma, eu estava muito apreensivo sobre o destino do meu primo, pois, apesar de todas as coisas terríveis que ele havia feito, incluindo me torturar, eu não desejava a sua morte. A declaração de Hugo só reforçou esse sentimento.
Por outro lado, eu estava muito preocupado com Raul, pois, continuamente, as coisas pareciam dar errado para ele.
No caminho, eu percebi que as ruas estavam lotadas de pessoas, aparentemente esperando a decisão que seria tomada. Além disso, quando cheguei à sede de reuniões do conselho, todos os membros,  incluindo Raul, já estavam esperando para deliberar sobre o futuro de Rafael, o qual estava no centro da sala.

- Muito bem, agora que meu primo está aqui, nós podemos começar!
- Se eu fosse você, não estaria tão feliz com a minha presença. Não há muito que eu possa fazer para te defender. De fato, se os conselheiros me permitirem, gostaria de fazer algumas considerações antes de começarmos a votação.
- Eu acho que não há problema Felipe.
- Obrigado. Bem, para começar, gostaria de dizer que escolho me abster de voto neste caso, visto que há uma ligação com o Rafael que poderia deixar o meu voto menos objetivo e, assim, desqualificar a seriedade da decisão a ser tomada por este conselho. Segundo, eu gostaria que o nosso companheiro Hugo tivesse a oportunidade de falar, antes da votação, pois há algumas informações que ele escolheu compartilhar conosco, caso vocês concordem. Por fim, eu gostaria de falar um pouco sobre a minha experiência pessoal com o acusado, com o objetivo de lhes mostrar a minha perspectiva sobre o assunto. Estou ciente de que eu e Hugo pretendemos compartilhar informações que podem influenciar os seus votos, portanto peço a sua permissão.

O conselho deliberou a minha requisição e, surpreendentemente, Raul foi mais uma vez o porta-voz.

- Todos concordamos que tanto você como o Hugo contribuíram muito com as pessoas deste vilarejo, portanto, se vocês acham que precisam compartilhar tais informações sobre este caso, nós ficaríamos honrados em ouvi-las. Confesso que, pessoalmente, a sua decisão de abdicar do seu voto me fez refletir e decidir que também preciso abdicar do meu, pois há alguns aspectos deste caso que podem influenciar a objetividade do meu julgamento. Além disso, caso seja possível, gostaria que este conselho me dispensasse desta reunião.
- Se você se sente desta forma, você está dispensado Raul. Quanto a você Felipe, gostaríamos de ouvi-lo primeiro e, em seguida, ouviremos o companheiro Hugo. Somente após os seus discursos nós prosseguiremos com o julgamento.
- Eu agradeço! Bem, como eu imagino que todos saibam, o Conde Rafael é meu tio e, portanto, o acusado é meu primo. Entretanto, nunca houve muita aproximação entre as nossas famílias, tanto que eu nunca soube da existência dos meus dois primos até o incidente em Pasine, o qual, como também é de conhecimento geral, foi um verdadeiro massacre. Eu fui... fui torturado durante vários dias enquanto estive em Pasine e Rafael II estava presente em muitos momentos. O meu primo jamais transpareceu qualquer arrependimento em qualquer uma das vezes. Ele, sem dúvida, é uma pessoa com valores extremamente pervertidos. Além disso, eu sei que ele está envolvido na morte e tortura de familiares e amigos de muitas pessoas deste vilarejo. Com base nestas informações, eu e vocês poderíamos, sem dúvida, concluir que o meu primo merece ser executado como punição por seus crimes. Porém, eu gostaria de ressaltar duas coisas: a primeira, na verdade, é uma história que pertence ao passado de Rafael II e que, portanto, cabe somente a ele revelar, de modo que eu deixo a critério dele lhes contar como todo o ódio que ele sente por "pessoas como nós" começou, pois eu acho que isso pode explicar muito do comportamento que ele vem apresentando. Segundo, gostaria de ressaltar o quão difícil eu imagino que deva ser a convivência com alguém cuja mente é tão deturpada como o meu tio. Eu juro que cheguei a pensar que enlouqueceria durante o tempo que passei em Pasine, pois eu não conseguia acreditar nas loucuras que eu ouvia aquele homem falar. Eu consegui entrar na cabeça dele por algum tempo e isso quase me enlouqueceu, pois ele, de fato, tem uma mente doentia. Porém, isso foi por apenas algumas semanas e eu, sinceramente, não me surpreendo que alguém que passou a vida toda com ele tenha construído valores pessoais tão podres. Dito isso, eu peço que reflitam sobre o que eu disse antes de julgarem o acusado, pois eu acredito em segundas chances, mesmo para alguém como ele. Ressalto que não estou pedindo perdão e nem arranjando desculpas para o que ele fez, pois não há qualquer modo de reverter todo o dano que ele causou e todas as suas ações foram indesculpáveis, mas eu gostaria que ele pudesse ter um recomeço para poder construir valores melhores.
- Nós agradecemos a informação, conselheiro Felipe. Vamos levar em consideração o que foi dito. Agora podemos passar para o discurso do companheiro Hugo.
- Muito obrigado por essa oportunidade conselheiros. Eu sei que a maioria de vocês mal me conhece, portanto agradeço o voto de confiança em um assunto tão delicado. Entretanto, sem querer abusar da sua boa-fé, eu gostaria de pedir que o acusado pudesse contar a sua história antes de revelar o que eu tenho a dizer.
- Bem... acho que não há problema... acusado, você deseja compartilhar conosco a sua história? deseja se defender? se é que isso é possível...
- Não...
- Felipe, por favor!
- Eu já disse que não!
- Felipe, eu preciso que você faça isso... por favor!
- Nã... Por quê? Não há esperança!
- Você não sabe disso! Talvez... de alguma forma...
- Eu sei que não há esperança para mim! Então pare! Ouçam bem, pois eu só vou falar disso uma vez e não espero ser questionado depois de terminar.
- Você não acha que está fazendo muitas exigências para alguém na sua condição?
- Pode ser, mas seu eu vou morrer, o que eu tenho certeza que vai acontecer, o mínimo que eu posso fazer é morrer com honra e alguma dignidade.
- Honra?!Olha aqui... Quer saber, esqueça. Prossiga com a sua história para podermos acabar com isso de uma vez.
- Bem, meu nome é Rafael Carlos Francisco Miguel Xavier Leopoldo Gonzaga Almeida, Visconde de Pasine. Eu sou casado... fui casado com um plebeu do vilarejo de Gorgi de nome Pierre. Sim, caso estejam se perguntando, eu sou homossexual e me casei com um homem... o homem dos meus sonhos... alguém que eu amava... Desde quando eu era criança, sempre gostei de andar disfarçado pelas ruas de Pasine, pois fazia de tudo para passar o mínimo possível de tempo com o meu pai dentro do castelo. Eu mantive este hábito quando estava mais velho e, em uma dessas ocasiões, quando estava andando pelo mercado de trocas, esbarrei em Pierre, o qual estava vendendo produtos que trouxera de Gorgi. Infelizmente para ele, eu me apaixonei no momento em que ele pediu desculpas por ter esbarrado em mim. Eu nunca tinha estado com outro homem até então e sempre fiz de tudo para esconder os meus desejos, mas Pierre, simplesmente, parecia enxergar através de todos os meus esforços, de modo que, de alguma forma, ele me convenceu a acompanhá-lo até a saída da cidade, para que pudéssemos nos conhecer melhor. Quando eu percebi, já estávamos nos beijando em uma floresta ao redor de Pasine e eu percebi que já estava perdidamente apaixonado por ele. Pierre partiria no dia seguinte e, para minha surpresa, ele disse que gostaria que eu lhe acompanhasse. Eu solicitei ao meu pai que pudesse viajar sob o falso pretexto de conhecer outras partes do nosso reino e, no dia seguinte partira em direção a Gorgi na companhia de Pierre. Diferentemente do meu pai, a família de Pierre não via nada de anormal em dois homens se amarem e me acolheram muito bem. Eu costumava ir até Gorgi para visitar Pierre e vice-versa, de modo que a nossa relação floresceu e, finalmente, decidimos que queríamos nos casar. A família dele adorou a ideia e fui convidado a morar com eles em Gorgi, onde eu seria aceito e amado. Nunca tive coragem de contar a Pierre quem eu realmente era... Mal sabiam eles do que estava por vir... Como muitos sabem, Gorgi era conhecido por realizar casamentos entre homossexuais há muitos anos e, há algum tempo atrás, foi devastado pelo exército de meu pai. O que não deve ser de seu conhecimento é que meu pai só descobriu este vilarejo e o devastou porque eu decidi me casar com Pierre e vir morar com ele. A família de Pierre, a qual me acolheu, foi sumariamente executada bem diante dos meus olhos e, pouco tempo depois, o meu pai fez a seguinte proposta para o meu marido: Pierre teria uma hora para decidir entre ficar comigo - neste caso nós morreríamos juntos - ou fugir para bem longe na direção oposta de Pasine ou qualquer outro reino aliado - neste caso nós nunca mais teríamos contato e minha vida seria poupada para que eu pudesse viver com a culpa e a vergonha. Adivinhem qual foi a opção que o meu marido escolheu... Ele nem hesitou...
- Então Gorgi... Foi por sua causa... Mas... por que você odeia os homossexuais e compactua com as ações do seu pai, sendo que você mesmo já amou um homem?
- Veja bem, depois que Pierre fugiu eu caí em desespero profundo. Como prometido, eu vivi para sentir a dor, a culpa, o ódio e a vergonha... Porém, no fundo, eu não sentia nada... No início, o meu pai me mantinha trancado no meu quarto para definhar. Porém, na maior parte do tempo, eu estava desligado daquilo que acontecia ao meu redor. Eu acordava quando algum servo deixava uma porção minúscula de comida e água, ou então quando estava sendo examinado pelos homens de confiança do meu pai, o qual queria me manter minimamente vivo para que eu pudesse sofrer ainda mais. Fora essas duas ocasiões, eu passava os dias dormindo, tentando permanecer nos dias em que eu fora feliz... ainda que eu soubesse que não eram reais, era melhor do que aquilo que eu estava passando. Um dia, o meu pai adentrou o meu quarto e me submeteu a um tratamento que vocês conhecem muito bem... a inestimável "cura". O meu pai acha que há uma "cura" porque, aparentemente, ela funcionou comigo... Mas a grande verdade é que eu não sentia nada por ninguém... Ninguém me interessava... Nenhum amigo ou amor... Eu não precisava fingir...
- Foi aí que você começou a torturar os seus iguais...?
- Não exatamente... Ouça, mesmo sem querer, o fato de estar "curado" melhorou o modo como o meu pai me tratava e, pouquíssimo tempo depois, ele me apresentou à sua mais nova atividade favorita: as caçadas. Segundo o meu pai, ele nunca pretendeu deixar Pierre viver. O que ele realmente queria era me mostrar o quão fraco era o amor dele por mim. Bem... funcionou. Meu pai me contou que, de fato, ele deu uma vantagem de uma hora para que Pierre pudesse fugir, mas logo em seguida ele e seus homens partiram em seu encalço. Ele foi encurralado e violentamente torturado dois dias depois em uma floresta ao sul de Gorgi. Este processo deu tanto prazer ao meu pai que ele teve a ideia de fazer isso com todos os homossexuais nas áreas próximas a Pasine e, principalmente, com as pessoas em Gorgi que ainda tivessem a ousadia de se declararem homossexuais. Isso deu origem ao reino de terror que meu pai vem expandindo nos últimos tempos e eu sempre estive ao seu lado, tanto em caçadas como em invasões a outros vilarejos. Eu assisti a tudo. Porém, por mais surpreendente que isso possa parecer, eu nunca matei ou torturei uma única pobre alma. Eu confesso que assisti e nunca me mobilizei pelo sofrimento das pessoas durante tais eventos e disso eu sou culpado, mas eu jamais feri diretamente uma pessoa. Bem, exceto Felipe, o qual eu realmente torturei e feri deliberadamente, mas isso é porque eu... eu... eu o invejo... Inveja foi a única coisa que realmente eu consegui sentir em muito tempo e isso foi tão avassalador que me fez agir do modo como eu agi...
- Inveja?
- Ah, vamos lá! É só olhar para ele e Bernardo! A relação deles é tão perfeita que chega a ser irritante! O Felipe conseguiu, de uma só vez, despertar inveja, raiva e nojo! Sério, ele me irrita muito e eu tenho vontade de socar a cara dele! Mas este é um caso isolado! Quanto aos demais, em minha defesa, eu fui apenas um cúmplice nas ações doentias do meu pai! Como eu disse, eu sou culpado de omissão e eu sei que nunca poderei ser perdoado por isso, mas eu nunca feri alguém.  Pelo menos não fisicamente...
- Algo mais que você gostaria de dizer?
- Acho que isso foi suficiente...
- Muito bem... Hugo, é a sua vez.
- Eu serei breve. Eu pedi ao Felipe que me deixasse falar por dois motivos: o primeiro é porque eu tive ou tenho... na verdade eu não sei direito ainda... uma relação com o acusado. Portanto, conheço o Rafael em um nível mais pessoal e já ouvi estas mesmas histórias que ele acaba de lhes contar. Durante o tempo que passamos juntos em Pasine, eu pude perceber que ele já sofreu bastante e, por mais que ele insista em manter uma postura autoritária e esnobe, eu sei que ele só está procurando paz e algo que o faça sentir algo significativo de novo. Ressalto que o Rafael sabe por experiência própria que a cura não funciona, portanto sabia que eu e Bernardo nunca tínhamos sido "curados", mas ele nunca nos delatou ou armou para que nós fôssemos apanhados enquanto planejávamos a nossa fuga de Pasine. O segundo motivo de estar aqui é porque eu mesmo já cometi muitos erros no passado e posso, com toda propriedade, dizer que estou arrependido e regenerado atualmente. Dito isso, gostaria de pedir aos senhores que considerem olhar para esta pessoa e tentar enxergar os motivos que o levaram a fazer o que ele fez. Assim como o Felipe, eu também acredito em segundas chances, pois eu mesmo já fui beneficiado por isso e consegui melhorar quem eu sou, portanto acredito que o Rafael também merece esse benefício. Isto era tudo o que eu tinha a dizer, eu agradeço a sua atenção!
- Bem, eu acho que já ouvimos todos e agora podemos prosseguir com a votação para decidir o futuro do acusado. Eu peço ao conselheiro Felipe, o qual abdicou do seu direito de voto, que se retire da sala e leve o companheiro Hugo consigo. Procederemos à votação e, assim que finalizarmos, vocês serão informados do veredito.

Eu e Hugo nos retiramos da sala e, assim que saímos, encontramos William, o qual estava na companhia do meu outro primo. Estranhamente, Hugo saiu correndo, sem dar explicações.

- Primo! Eles disseram que o meu irmão está preso! É verdade?
- Sim Davi... É verdade...
- Mas eles disseram que eu poderia ver o meu irmão! Eu vou poder ver ele?
- Eles disseram isso? Que interessante!
- Em nossa defesa, ele é tão voluntarioso quanto o primo! Não havia alternativa!
- Tudo bem irmão, eu acho que você fez a coisa certa! Mas neste momento não vai ser possível, pois eles estão votando...
- William é seu irmão?
- Sim Davi! Bem, meio-irmão na verdade, mas isso não faz muita diferença pra mim!
- Então ele é meu primo também?!
- Eu acho que sim! Na verdade você é meu primo por laços maternos e William não compartilha a mesma mãe comigo, mas, de novo, essas questões não fazem muita diferença já que vocês estão se dando tão bem! Portanto, você pode considerá-lo seu primo!
- Eu não tinha atentado para isso! É verdade Davi, nós somos primos! Viu só? Você não precisa mais duvidar da minha palavra! Afinal, um primo mentiria para você?
- Eu acho que não!
- Eu também penso que não! Quanto ao seu irmão Davi, você só vai poder ver ele depois que as pessoas decidirem se ele é culpado ou não.
- Mas, o que o meu irmão fez?
- Bem... eu...
- Nós combinamos que ele mesmo iria lhe contar, não foi Davi?
- Ah! Essa é uma ótima ideia! Obrigado William!
- Sem problemas! Felipe, você se importa de ficar com o Davi por enquanto? Eu gostaria de ir ficar com o Tomás, afinal ele ficou só enquanto eu vim trazer o Davi para falar com o irmão.
- É claro William! Eu agradeço muito você ter ficado com ele todo esse tempo! Há tanta coisa que eu preciso resolver! Bernardo acordou, mas eu nem pude ficar muito tempo ao lado dele!
- Ele acordou? Então eu vou fazer uma visita e ver como ele está antes de ir encontrar o Tomás!
- Ele vai ficar muito feliz de ver você!

Assim que William saiu, percebi que outras pessoas estavam silenciosamente se aproximando de nós. Finalmente, uma delas indagou:

- Qual foi o veredito?
- Ainda não temos um veredito. Eu abdiquei do meu voto, pois assim não haveria dúvidas de que essa será uma decisão imparcial. Estou esperando para saber o que foi decidido, assim como vocês.
- E quanto a essa criança? Também não é filho de Conde Rafael?
- Sim... este também é meu primo...
- O que vai acontecer com ele? Ele não deveria estar sendo julgado também? Afinal, ele é filho daquele homem vil! Deveríamos infligir dor a Conde Rafael por meio do filho dele! Isso seria uma boa retribuição por tudo que ele já nos fez!
- Primo! Eles querem me ferir!
- Vejam! Ele é só uma criança e está extremamente assustado! Não vamos esquecer de que somos as vítimas e não os vilões aqui! Eu imagino toda a revolta e dor que vocês estão sentindo, mas ferir esta pobre criança não vai deixar nada melhor!
- Ele tem razão! Não vamos nos comportar como selvagens e esquecer de que lutamos contra a violência de Conde Rafael! O próprio fato de pensar em ferir esta criança já enfraquece a nossa causa, pois isso nos faria semelhantes a ele! Seriamos pessoas doentias!
- Sábias palavras Raul!

Depois do que Raul disse, ninguém mais se pronunciou. Mas várias pessoas continuaram esperando do lado de fora da sala de reuniões do conselho para saber o que havia sido decidido. Aparentemente, Hugo e Raul tinham se encontrado e rumado para o local. Ou será que Hugo tinha ido, imediatamente, atrás de Raul quando saíamos da sala de reuniões?

- Está tudo bem entre vocês?
- Sim. O Hugo é meu amigo acima de tudo! Se ele ama outra pessoa, eu deveria pelo menos ser capaz de aceitar isso... Embora eu não goste...
- Obrigado Raul! Eu sinto muito...
- Podemos deixar isso para trás? Eu realmente quero seguir em frente Hugo...
- Claro...
- Você foi atrás dele? Foi por isso que saiu correndo tão de repente?
- Sim! Eu estava tentando ajudar o Rafael, mas não queria magoar o Raul! Eu fui atrás dele e nós tivemos uma breve conversa, então eu o convenci a estar presente quando derem o veredito, pois ele é parte do conselho e tem o direito de estar aqui. 
- Eu expliquei a ele que não estou magoado dessa vez! Na verdade ele foi sincero comigo e eu aprecio muito o modo como ele vem lidando com essa situação. Eu apenas estou triste e um pouco frustrado... Mas isso vai passar! Ainda continuamos amigos!
- Com certeza Raul! Todos vocês são muito importantes para mim! Eu nem sei se estaria vivo sem a ajuda de vocês!
- Ei, você é amigo do meu irmão, certo?
- Eu sou sim Davi! Você se lembra de mim?
- Claro! Eu vi você beijando meu irmão e...
- Atenção! A quem interessar, nós já temos o veredito sobre o acusado Rafael II!

A decisão, finalmente, tinha sido tomada. Eu tinha me eximido da responsabilidade de decidir o futuro do meu primo e ainda não estava totalmente certo do quão bom isso tinha sido. Caso ele fosse condenado à morte, eu não seria culpado por omissão? Afinal, eu era a única família que poderia intervir por ele no meio de tantas pessoas que ele magoou! Agora nada disso tinha importância, pois, em alguns instantes, os conselheiros iriam revelar o futuro de Rafael e já não havia mais nada que eu pudesse fazer por ele. 

domingo, 2 de outubro de 2016

Capítulo 3 - Gelo e Fogo (Cont.)

- Flamus, eu tenho tantas perguntas! - disse Ethan
- Eu juro que responderei todas, mas, primeiro responda: Quanto tempo eu dormi? - disse Flamus - Eu me lembro de você ainda garoto e agora eu só consigo te reconhecer porque sinto o poder elemental emanando de você!
- Você dormiu quase seis anos Flamus! - respondeu Ethan - E, até pouco tempo atrás, eu achei que você estivesse morto!
- Você entende que não nos chamam de "imortais" à toa, certo? - disse Flamus, rindo.
- Bem... - respondeu Ethan, corando - Eu...
- Eu só estou brincando! Eu sei que toda essa história de "dormir" é bem confusa! Mas tudo vai ficar bem! Eu agradeço por vocês terem enfrentado todos os perigos deste lugar para conseguir me despertar!
- Flamus, não me leve a mal, mas... por que este lugar precisa ser tão perigoso? - perguntou Cho.
- Eu sinto muito, mas somente os dignos de tamanho desafio deveriam ter acesso a este santuário!
- Mas nós perdemos algumas pessoas... pessoas corajosas e que se sacrificaram para que...
- Desculpe-me por interrompê-la, mas eu preciso dizer que os seus amigos não estão mortos!
- Mas eles foram... "consumidos"...
- Bem, na verdade, eles apenas perderam as suas essências elementais - esclareceu Flamus.
- Mas, então eles não poderão mais ser elementais?
- Não necessariamente - respondeu Flamus - Ser um elemental é muito mais do que um presente, também é uma responsabilidade! Por exemplo, você não poderia deixar de ser um elemental a menos que Géon concordasse com isso. Somente os Imortais podem retirar completamente os poderes de um elemental. Porém, outros Imortais além do seu patrono podem interferir com a sua essência elemental e até, momentaneamente, extingui-la.
- Mas então, onde estão os nossos amigos? - perguntou Ethan.
- Eles voltaram à forma humana, portanto não podem entrar neste santuário - respondeu Flamus.
- Mas, então por que nós podemos estar aqui se também estamos em nossa forma humana? - perguntou Oliver.
- Há muitos anos, eu encantei este santuário para fazer os humanos nunca o enxergarem - explicou Flamus - Quando algum humano chega à entrada do santuário, este a enxerga como uma parte qualquer da parede da caverna. Porém, elementais não são completamente humanos, então conseguem ver a entrada, mas, de acordo com o encantamento, são despidos de sua essência humana assim que adentram o santuário. Até aí tudo bem, pois humanos, de fato, jamais entraram aqui. Porém, como estou vendo agora, o encantamento despe os elementais de suas essências humanas apenas na entrada! Caso, de alguma forma, algum elemental consiga recuperar essa essência, o encantamento não funciona mais.
- Nós conseguimos utilizar nossos poderes em conjunto, como você e Gélim!
- Estou vendo! - disse Flamus - Preciso parabenizá-los por isso! Nenhuma dupla de elementais do fogo e do gelo jamais conseguiu executar esta técnica! Muitos nem quiseram tentar!
- Mudando de assunto, e quanto a mim? Por que eu não fui "consumida" como os outros elementais?
- Eu também estou muito impressionado com os seus poderes Cho - disse Flamus - Meus escudeiros não conseguiram extinguir a sua essência elemental! Eles apenas a enfraqueceram por algumas horas. Você também desenvolveu, involuntariamente, uma técnica muito rara para um elemental da eletricidade. Um escudo proveniente dos seus próprios poderes enfraquecidos a protegeram do alcance do meus escudeiros. Você ficou "sem poderes", pois utilizou, inconscientemente, o que lhe restava de energia para se proteger. Electris ficaria orgulhosa!
- Obrigada - disse Cho, corada - Eu nem sabia o que tinha ocorrido...
- E quanto aos outros Imortais?
- O que sobre eles? - perguntou Flamus, ligeiramente confuso.
- Você não sabe? - respondeu Sophie, incerta - Eles também estão dormindo!
- O que?! Todos eles?
- Sim! Aparentemente, o grupo anterior de elementais enlouqueceu e botou todos vocês para dormir!
- Isso é impossível! Os elementais não possuem o poder para colocar Imortais em estado de sono! - exclamou Flamus.
- Como assim?! E quanto a você?
- Eu cometi um erro...
- Que tipo de erro?
- Bem, eu revelei este segredo a um dos meu elementais e... eu não deveria ter confiado este tipo de segredo a ele... - confessou Flamus - Mas isso não se aplica aos outros Imortais! Eu estou fadado a correr o risco de ser colocado para dormir por qualquer pessoa que tenha ouvido de um elemental as palavras do encantamento, mas os outros Imortais não revelaram os seus segredos a nenhum elemental! Portanto, não deveriam estar à mercê de serem colocados para dormir como eu!
- Mas eu vi a elemental do gelo colocar o Gélim para dormir!
- Não estou dizendo que isso não seja verdade! - disse Flamus - Mas eu não entendo como isso pode ter acontecido! Além disso, eu estou muito preocupado, pois o mundo deve estar um caos! Nunca houve um tempo em que todos os Imortais estivessem ausentes!
- O mundo tem estado, realmente, muito estranho desde que os Imortais se "foram"!
- Precisamente! O mundo está totalmente desregulado! E, pior ainda, considerando-se que todos os Imortais estejam dormindo, presumo que vocês não tiveram treinamento algum, certo?
- Certíssimo! Os únicos que tiveram o prazer de conhecer algum Imortal foram o Oliver e o Ethan! - disse Sophie, indignada - Eu nem ao menos sei quem é a Hídrina!
- Eu sinto muito por isso - respondeu Flamus - Ela é uma Imortal muito linda e extremamente poderosa! Mas agora tudo vai ficar bem!
- Sim! Agora poderemos encontrar os nossos patronos com a sua ajuda!
- Eu receio que não seja tão simples! - disse Flamus - Veja bem, nós Imortais temos um acordo entre nós: o local de descanso de um Imortal é um segredo absoluto para os outros! Quando Imortais estão fora dos seus santuários, podem sentir a presença uns dos outros, mas jamais quando estes adentram os seus locais de descanso.
- Quer dizer que chegamos a um beco sem saída? - perguntou Gabriela, a qual tinha se mantido apenas ouvindo até então.
- Não necessariamente! - assegurou Flamus - Imortais não conseguem localizar os santuários principais uns dos outros, por conta do nosso acordo, mas elementais não fazem parte desse acordo, portanto são imunes ao encanto.
- Por que você disse principais? você tem outros santuários?
- Definitivamente! Tenho um palácio em casa vulcão!
- Mas e sobre a localização dos Imortais? - disse Ethan - Creio que nenhum de nós saiba como fazer isso!
- É verdade! Eu não faço a mínima ideia - Gabriela parou de falar por um instante e fechou os olhos. Quando os abriu, disse: - Nada! Eu não sinto a minha patrona!
- Essa é uma técnica básica - disse Flamus - Eu posso ensiná-la a vocês, mas depois terei que me ausentar!
- Como assim? Você acabou de voltar! - disse Ethan - E quanto ao meu treinamento?
- Não se preocupe Ethan! Você está muito bem para alguém sem treinamento! - disse Flamus, calmamente - Eu preciso investigar o que ocorreu durante esses últimos anos e como isso se iniciou! De qualquer forma, eu não vou ser muito útil na procura pelos demais Imortais! Por ora, tudo o que posso lhes ensinar é a técnica de conexão, mas eu prometo que, quando eu voltar, você terá um treinamento adequado Ethan!
- Flamus, eu não quero parecer impertinente, mas podemos aprender a técnica fora daqui?
- É claro! - disse Flamus rindo - Eu havia esquecido que alguns de vocês estão no pior lugar para os seus poderes! Venham, eu vou lhes levar até a saída!

Assim, os elementais acompanharam Flamus até a entrada onde haviam sido despidos de suas essências humanas e, assim que a cruzaram, todos voltaram às suas formas originais. Além disso, para a surpresa e felicidade do grupo, avistaram Alba e Marco desacordados próximo ao local. Evidentemente, todos correram em direção aos dois elementais que eles pensavam estar mortos até poucos minutos atrás.

- Alba! - disse Oliver, ajoelhando próximo ao corpo da elemental do ar e tocando, gentilmente, a testa dela - Alba! Acorda! Acabou!
-O qu... - disse Alba, ainda desorientada - Onde?
- Alba, nós conseguimos! - Oliver abraçou a amiga.
- O que aconteceu? - disse ela, mais orientada - Como nós chegamos aqui?
- Você se sacrificou pelo Oliver e, indiretamente, nos fez conseguir chegar até o Flamus, pois os poderes dele foram essenciais na nossa jornada! - disse Ethan, o qual também tinha se ajoelhado perto da elemental do ar.
- Eu nunca vou esquecer disso Alba! - disse Oliver - Você é uma grande amiga!
- Bem... - respondeu Alba, corando - Eu fico feliz de ter ajudado!
- Nós temos muito a agradecer ao Marco também, afinal ele se sacrificou para que nós pudéssemos ajudar vocês! - disse Sophie, a qual estava ajudando o elemental dos animais a se mover para a posição sentado.
- Eu só fiz a minha obrigação pessoal! - disse Marco - Somos um time!
- Vocês foram muito corajosos - disse Flamus, o qual se mantivera a certa distância dos elementais - Esse é o tipo de atitude que esperamos de todos aqueles que recebem a nossa benção! Parabéns! Bem... eu sei que todos devem estar muito cansados, mas nós não podemos perder mais nenhum minuto! Vocês precisam aprender a técnica de conexão e ir atrás dos seus patronos, enquanto eu irei resolver alguns assuntos de extrema urgência!
- Técnica de conexão... - disse Alba, confusa.
- Sim Alba - respondeu Oliver - Há uma longa história a ser contada, mas, aparentemente, nós podemos nos conectar aos nossos patronos e... espera, como faremos para acordá-los? - disse ele, ao perceber que esta parte da tarefa ainda não estava clara.
- Como eu disse - respondeu Flamus - Eu não tenho conhecimento sobre os rituais dos outros Imortais. Mas, quando vocês estiverem mais conectados com os seus patronos, eu tenho certeza que vocês saberão o que fazer.
- Tudo bem - disse Sophie - Agora que estamos todos juntos, você pode nos ensinar a técnica Flamus!
- Bem, neste ambiente, o único que conseguirá executar a técnica será o Ethan - respondeu Flamus - Portanto, os outros deverão apenas assistir!
- Por que somente eu? - indagou Ethan.
- Porque você está no seu nicho elemental - disse Flamus - Abaixo de nós há uma intensa energia de fogo e isso amplifica os seus poderes! Bem, o que você deve fazer para executar a técnica de execução é amplificar o seu lado elemental, sem perder o controle do lado humano. Quando chamas começarem a emanar do seu corpo, elas vão te ligar a mim. Vocês verão o processo acontecer e ele será bem rápido, porque eu estou, literalmente, bem aqui. Mas, dependendo da distância que os seus patronos estão de vocês, isto pode levar várias horas e vocês precisam controlar os seus equilíbrios internos durante todo o processo. Portanto, apesar de simples, a técnica de conexão pode ser relativamente perigosa, pois vocês devem saber o que acontece quando o equilíbrio entre a energia elemental e as suas essências humanas é quebrado.
- Nós somos consumidos pelas nossas energias elementais... - disse Gabriela, apreensiva.
- Exatamente! - respondeu Flamus - Eu sei que é pedir muito para um grupo de elementais, cuja maioria nunca teve um treino adequado, que se exponham a esse risco, mas é essencial que vocês encontrem os seus patronos! O planeta tem aguentado até agora, mas eu posso sentir que ele está morrendo! Vocês não tem ideia de como era isso aqui, antes de nós chegarmos!
- Chegarem? - disse Oliver, confuso - Como assim?
- Essa é uma história para outro dia! Precisamos começar o treinamento de vocês! - disse Flamus - Primeiramente, nós vamos ver o Ethan executar a técnica e depois vamos praticar um pouco de controle do equilíbrio interno. Eu sei que o Ethan pode executar a técnica, sem problemas, porque eu estou muito perto e ele já teve algum treinamento, mas vocês precisam treinar o controle das suas energias elementais antes de qualquer tentativa de conexão!
- Tudo bem, nós vamos conseguir pessoal! - disse Cho - A maioria de nós chegou até aqui sem treinamento, então podemos dominar essa técnica!
- Muito bem Cho! - ressaltou Flamus - Esse é o espírito de um verdadeiro elemental! Bem, vamos começar! Sente-se no chão da caverna, feche os olhos, depois tente focar na energia de fogo bem abaixo de nós! Entre em contato com essa energia, seja essa energia! Assim que chamas plasmarem do seu corpo, você estará pronto para me encontrar! A partir daí, você deverá invocar o meu nome na sua mente, repetidamente, até que as chamas cheguem até mim!
- Entendi! - disse Ethan, determinado - Vamos lá! - O elemental do fogo sentou-se no chão da caverna e fez como instruído por Flamus. Vários minutos se passaram, sem sucesso, então Ethan abriu os olhos e disse: - Eu não consigo me conectar com a energia de fogo! O que está havendo?
- Está tudo bem Ethan - disse Flamus, calmamente - Você estava fazendo um bom trabalho! Você só precisa se acalmar e tratar a energia de fogo como se fosse parte de você! Nesse momento, você está tratando a energia como algo externo que você está pegando emprestado. Porém, de fato, a energia que está dentro de você faz parte de toda a energia de fogo existente no mundo. Portanto, não pense em você como um humano se intrometendo na energia de fogo! Pense em você como o próprio fogo! Eu sei que você pode conseguir! Apenas se concentre!
- Certo! - respondeu Ethan, fechando os olhos novamente. Mais minutos se passaram, até que uma fagulha começou a emanar do corpo de Ethan, a qual foi progressivamente crescendo e se multiplicando. Logo, as chamas começaram a se mover em direção a Flamus e, assim que elas tocaram o corpo de Flamus, uma linha singular se formou entre Ethan e o seu patrono. Porém, apressadamente, o elemental do fogo abriu os olhos e a linha se desfez, bem como as chamas começaram a queimar o corpo de Ethan, o qual gritava de dor.
- Não! - gritou Flamus, o qual extinguiu as chamas que queimavam o elemental do fogo com um gesto de mãos.
- Ethan! - disse Oliver, chegando perto do elemental do fogo - Você está bem?
- Eu acho que sim... - disse Ethan, ainda assustado e, visivelmente, desapontado - Se o Flamus não estivesse aqui...
- Não fique triste Ethan! - respondeu o Imortal do fogo - Você foi muito bem! Conseguiu utilizar a técnica corretamente! Mas é muito importante que vocês mantenham a tranquilidade durante todo o processo!
- Tudo bem... eu acho que aprendi essa lição! - disse Ethan.
- Eu tenho certeza que sim! - respondeu Flamus - Você tem sido um ótimo discípulo!
- É verdade! Você foi muito bem! - disse Oliver animado - Apesar do susto, nós conseguimos ver como a técnica funciona! Você, literalmente, estabeleceu um laço com o seu patrono!
- Isso foi incrível! - complementou Cho.
- Foi realmente incrível e, mais importante, agora o Ethan tem o conhecimento da minha localização exata! - disse Flamus.
- É verdade! - disse Ethan, percebendo este fato naquele exato momento - Eu posso ver na minha cabeça!
- Exatamente! - disse o Imortal do fogo - Vocês só precisam sustentar a conexão até ela chegar até os seus patronos, depois podem, calmamente, desfazê-la! A técnica de conexão permite acessar a localização dos Imortais em um dado momento, mas, de qualquer forma, os seus patronos não vão se mover, pois estão dormindo! Agora, vamos praticar o equilíbrio interno!
- Mas como faremos isso? - perguntou Marco.
- É relativamente simples - respondeu Flamus - Vocês precisam utilizar o poder elemental até atingirem o limite entre o equilíbrio da energia elemental e humana. Há poucos riscos quando este treinamento é realizado com o respectivo patrono. Porém, já que vocês ainda não tiveram oportunidade de treinar esta técnica, nós precisaremos ser muito cautelosos.
- Como poderemos ser cautelosos? - perguntou a elemental das plantas.
- Bem, vocês precisam entender as suas próprias fraquezas e como vocês podem ajudar uns aos outros - respondeu Flamus - Por exemplo, os seus poderes podem ser completamente neutralizados pela combinação dos poderes de Themba e Sophie.
- Como? - perguntou Gabriela, confusa.
- Tente usar os seus poderes - instruiu o Imortal do fogo. Gabriela fez como ele havia dito e fez plantas brotarem do chão e das paredes da caverna. Enquanto isso, ele se dirigiu a Sophie e Themba: - Sophie, absorva a água existente ao nosso redor. Themba, retire os nutrientes do solo e das paredes. Conforme os elementais da água e da terra utilizavam os seus poderes, as plantas que a elemental das plantas havia plasmado das paredes e do solo estavam morrendo. Assim, Flamus concluiu: - Como podem ver, vocês controlam indiretamente a extensão dos poderes uns dos outros e podem intensificá-los ou neutralizá-los.
- Isso é incrível! - disse Themba, animado - Então quer dizer que podemos nos ajudar mutuamente a desenvolver os nossos equilíbrios internos?!
- Exatamente! - confirmou Flamus.

Os elementais passaram uma semana treinando o equilíbrio interno em duplas e trios. Ao final deste período, Flamus decidiu que eles já estavam prontos para se conectarem aos seus patronos.

- Vocês são, efetivamente, um grupo excepcional de elementais! - disse o Imortal do fogo - Conseguiram dominar uma técnica muito importante para qualquer elemental e agora eu tenho certeza que estão prontos para dominarem a técnica de conexão. Muitos de vocês vão, finalmente, conhecer os seus patronos! Infelizmente, eu não serei de muita ajuda nesta nova fase da história de vocês, então aproveitarei para resolver alguns assuntos pessoais de extrema urgência. Não se esqueçam de procurar por locais que lhes forneçam uma quantidade massiva de energia do tipo elemental de cada um, pois isso vai ajudar vocês a se ligarem mais rapidamente com os seus patronos!
- Muito obrigado Flamus! Agora nós temos esperança de, finalmente, encontrarmos os nossos patronos e nos tornarmos elementais completos!
- Sou eu quem precisa agradecer! - disse Flamus - Vocês me salvaram e, consequentemente, estão salvando o mundo de se perder em um completo caos!
- Um completo caos? - perguntou Marco, curioso.
- Sim... - respondeu Flamus, preocupado - Eu não queria ter que jogar esse peso nas costas de vocês, mas, infelizmente, o nosso mundo está morrendo! Desde que acordei eu sinto que algo está estranho com a Terra, mas não tinha certeza do quão grave era a situação. Nesta última semana eu pude ter uma noção melhor e a situação é bem pior do que eu imaginava! Pode não parecer à primeira vista, mas a Terra está entrando em colapso e, caso vocês não encontrem os seus patronos o mais rápido possível, o mundo que nós conhecemos vai se extinguir!
- Mas por que tudo parece estar, relativamente, igual? - perguntou Gabriela - Quero dizer, nós sempre ouvimos falar de coisas como "aquecimento global" e "efeito estufa", que supostamente irão levar a Terra ao colapso, mas isso foi antes mesmo de os nossos patronos desaparecerem!
- Bem, essas coisas, de fato, estão ocorrendo! - respondeu Flamus - Mas os Imortais nunca permitiriam que a Terra entrasse, efetivamente, em colapso total! Veja bem, os humanos estão tratando muito mal este mundo e nós precisamos deixar que eles sofram as consequências de suas ações! Nós sempre esperamos o melhor das pessoas e acreditamos que isso pode ser bom para fazer as pessoas enxergarem o mal que estão fazendo! Porém, agora a situação é diferente! Nós estivemos ausentes por muito tempo e isso criou um desequilíbrio que, com a ajuda dos maus hábitos humanos, está matando este planeta!
- Mas você não pode fazer nada para parar este processo? - Indagou Oliver.
- Eu receio que não! - respondeu o Imortal do fogo - Os danos estão muito além dos meus poderes! Eu preciso dos demais Imortais para poder consertar o dano! Além disso, preciso ir atrás de algumas respostas que podem ser decisivas para o problema que estamos enfrentando! Por isso, peço que vocês deem o máximo de si para encontrar os seus patronos! Eu sei que vocês são competentes e estão à altura desta tarefa que lhes foi imposta!
- Pode deixar conosco Flamus! - disse Ethan, decidido.
- Esse é o espírito Ethan! - disse o Imortal do fogo - Estou muito orgulhoso se você e lhe confio a liderança deste grupo! Bem, agora preciso ir! Boa sorte elementais! - dito isso, Flamus olhou para todos os elementais, acenou com a cabeça e, em seguida, combustou.
- Muito bem, o que faremos agora? - disse Alba.
- Proponho focarmos em quatro pessoas e nos dividirmos para ajudarmos uns aos outros a encontrar os nossos patronos! - disse Oliver.
- Mas, como tomaremos a decisão sobre quem vai ser enfocado? - perguntou Cho.
- Bem, o Ethan já sabe onde está o patrono, então proponho que façamos um sorteio com os nomes das outras sete pessoas! - disse Themba.
- Boa ideia Themba! - disse Alba - Gabriela, você pode nos dar sete folhas de aspecto igual com os nomes das pessoas neles?
- É pra já! - disse Gabriela, materializando as folhas, conforme Alba havia pedido.
- Elas estão perfeitas! - disse a elemental do ar - Agora eu irei misturá-las - Assim, um pequeno redemoinho se formou na frente dos elementais, em cujo centro estavas as folhas - Ethan, queime três das folhas! Os nomes constantes nas quatro folhas remanescentes serão os escolhidos!
- Certo! - Ethan fez como pedido. Depois que ele queimou as folhas, Alba cessou o redemoinho e as folhas restantes caíram no chão. Ethan as ajuntou e leu os nomes em voz alta - Bem, os sortudos foram Alba, Marco, Cho e Gabriela.
- Eu posso ajudar a Cho a controlar os poderes - ofereceu Themba.
- Eu serei o parceiro da Alba - disse Ethan.
- Eu posso ir com a Gabriela! - disse a elemental da água.
- Bem, eu ficarei com você Marco, mas não sei muito bem como funcionam os seus poderes - disse ele, dirigindo-se ao elemental dos animais.
- Eu acho que, na verdade, você é perfeito para a tarefa Oliver - respondeu Marco - Os meu poderes funcionam com base na alteração do tipo de células no meu corpo, então, caso eu acidentalmente comece a virar algum animal, você pode parar o processo através do congelamento, até que eu consiga assumir novamente o controle dos meus poderes.
- Sendo assim, eu acho que já temos os nosso grupos! - disse Oliver, dirigindo-se ao grupo - Agora, precisamos nos separar e achar fontes de poder elemental para amplificar os poderes dos que foram escolhidos.
- Oliver, nós podemos conversas? - disse Ethan, convidando o elemental do gelo para um canto da caverna. Quando estavam um pouco distantes dos outros elementais, Ethan disse: - Eu queria poder ir com você! Sabe, depois de tudo que aconteceu lá no santuário do Flamus... - o elemental do fogo estava corando - Eu não queria me separar de você!
- Ethan - o elemental do gelo tocou, levemente, o rosto de Ethan - Eu também queria poder ir com você, mas precisamos priorizar esta tarefa! Você ouviu o que o Flamus disse!
- Eu sei, mas... - Ethan foi surpreendido por um beijo e se deixou envolver. Depois, ambos ficaram abraçados, sem dizer qualquer palavra por alguns minutos.
- Eu te amo! - disse Oliver, ainda abraçando o elemental do fogo - Eu preciso ajudar o Marco agora, mas eu prometo que, em breve, nós poderemos ficar juntos! Nada vai mudar!
- Tem certeza? - perguntou Ethan, incerto - Você poderia estar comovido pela situação dentro do santuário!
- Eu não... - respondeu Oliver - Bem, pensando bem... sim, eu estava comovido pela situação e isso pode ter me feito ousar mais... Porém, eu me sinto assim em relação a você há algum tempo! Eu só não queria aceitar... pois eu sou estúpido!
- Você não é estúpido Oliver! Nunca diga isso!- exclamou Ethan - Você pode ser cabeça-dura, mas estúpido não! - finalizou ele, rindo.
- O que?! - disse ele, rindo e empurrando Ethan para longe - Eu até admito que possa ser um pouco cabeça-dura, mas você não pode falar nada sobre isso!
- Tudo bem, nós dois somos cabeças-duras! - respondeu o elemental do fogo - Bem, eu precisava falar sobre isso com você antes de nós partirmos! Agora eu estou mais tranquilo, apesar de ainda querer ficar com você! Mas vamos logo terminar esta tarefa e salvar esse planeta de ir pelos ares!
- Assim que eu gosto de te ver! Determinado! - respondeu Oliver - Vamos lá!

Desse modo, os elementais estavam se lançando em mais uma etapa na busca pelos Imortais. Dessa vez, o grupo precisaria se separar para poderem antecipar a finalização da tarefa. Infelizmente, Ethan e Oliver não poderiam seguir juntos, mas a experiência no santuário de Flamus, com certeza, havia mudado completamente a relação entre os elementais do fogo e do gelo.

sábado, 16 de julho de 2016

Capítulo 8 - Aqueles que Amam (Cont.)

- E ninguém conseguiu anotar a placa do carro? - perguntou o responsável pela Delegacia Seccional de Polícia de Lagoa Boa, onde os presentes no jantar ocorrido na casa de Enzo estavam registrando um boletim de ocorrência.

- Não - respondeu Roberto - quando eu corri para ver o que havia acontecido, o carro não estava mais lá! Os meus vizinhos alegam que era um carro preto... um Corsa talvez... mas estava com a placa coberta. Infelizmente, tudo o que sabemos é a cor e, talvez, a marca do carro.
- Isso não é nada bom! - disse o delegado - Sem muitas informações, não há muito que possamos fazer para ajudar... mas eu prometo que faremos o melhor para tentar solucionar esse caso o mais breve possível!
- Bem, muito obrigado... - disse Pedro, visivelmente desapontado - Eu acho melhor nós irmos embora, pois eu tenho certeza que todos estão cansados e, como o delegado disse, não há muito que possa ser feito.
- Eu realmente estou muito cansada - disse Maria - E imagino que todos também estejam famintos, já que não tivemos nem chance de tocar no jantar!
- Quanto a isso, não se preocupem, pois eu faço questão de levá-los até um bom restaurante - disse Pedro - Não vamos deixar que esse vândalo, seja lá quem for, estrague a noite! Afinal, não vamos esquecer que estamos celebrando algo muito importante - Pedro se interpôs entre Enzo e Daniel, abraçando-os - A união deste casal, que já passou por muita coisa junto e que, com certeza, merecem um jantar de noivado descente!
- Obrigado pai! - disse Daniel - O que vocês acham? Ainda estão com disposição para isso?

Apesar do visível cansaço, todos concordaram em sair para tentar completar a celebração do noivado de Enzo e Daniel. Como esperado, Daniel escolheu o "Ristorante Giovanna", visto que o local tinha a melhor lasanha da cidade, na opinião do rapaz. O restaurante estava localizado na zona norte, o que ficava a 50 minutos de carro da casa de Enzo, por isso eles se dividiram em dois grupos: os pais de Enzo seguiram com Pedro, enquanto Pietro e Guilherme acompanharam os noivos.

- Eu tenho certeza que vocês vão adorar o restaurante - disse Daniel, animado - Prometo que vai valer a pena nós sairmos de Lagoa Boa até a zona norte.
- Eu já estive na zona norte, mas nunca ouvi falar desse restaurante - disse Guilherme - Mas eu também não sou particularmente aficionado por comida italiana.
- Isso é porque você nunca provou a comida do Ristorante Giovanna - respondeu Daniel - Eles têm a melhor comida italiana e, especificamente, a melhor lasanha da cidade!
- Se o Daniel está dizendo, é porque deve ser verdade Gui - intrometeu-se Enzo - Acredite em mim, ele gosta muuuito de comida italiana! Principalmente de lasanha! Estou até cogitando apelidar ele de "Garfield"!
- Gostei do apelido! - disse Pietro rindo.
- Nem pensem nisso! - retrucou Daniel.

O jantar de noivado finalmente foi concretizado no restaurante italiano preferido de Daniel e como ele previra, todos adoraram a comida. Depois disso, Pedro e Daniel fizeram questão de deixar todos os outros em suas respectivas casas. Enzo acompanhou o noivo enquanto este levava Guilherme e Pietro até a zona sul de São Patrício, onde ambos moravam. Na volta para Lagoa Boa, que ficava na zona leste, Enzo comentou:

- Amor, você acha foi o Lucas quem fez aquilo?
- Eu não sei... - disse Daniel, pensativo - depois do que você me disse, isso faria muito sentido, mas também não podemos tirar conclusões precipitadas!
- Eu sei, mas... Eu tenho medo do que essa pessoa, seja o Lucas ou não, possa fazer daqui pra frente! - disse Enzo, em tom bastante sério - Amor, eu duvido que alguém que tenha se disposto a ir até a Lagoa Boa para jogar uma pedra na janela da minha casa vá parar por aí! Nós precisamos tomar muito cuidado, principalmente porque essa pessoa não pode ser um completo estranho, já que ela sabe onde eu moro, o que quer dizer que ela pode nos abordar em outros locais que frequentamos! Toma cuidado na volta para casa, tudo bem?

- Tudo bem amor, eu prometo que vou ficar atento!

Quando Daniel, finalmente, deixou Enzo em casa, já passava de duas horas e as ruas estavam relativamente desertas, principalmente na zona leste da cidade. O rapaz se despediu brevemente do noivo e rumou para casa. Porém, no caminho notou que há alguns quarteirões um carro estava seguindo a mesma rota que ele. Levando em consideração o alerta de Enzo, ele parou no meio-fio, na esperança de que ele estivesse apenas paranoico e de que o outro carro fosse seguir em frente. Felizmente, aconteceu o que ele esperava e, sentindo-se bobo por ter pensado que estava sendo seguido, ele continuou o caminho para casa.
No dia seguinte, Guilherme acompanhou Enzo até a consulta na Clínica de Reabilitação da UFTU. Enzo não viu Lucas durante a consulta e, quando indagou sobre ele para os outros estagiários, estes não souberam informar o motivo da ausência do rapaz. Depois da sessão, Enzo seguiu com Guilherme para a Snacks.


- Por que você estava perguntando sobre o Lucas hoje? - perguntou Guilherme.
- Eu preciso esclarecer ainda mais as coisas com o Lucas Gui! - respondeu Enzo - Eu estou em dúvida se ele é uma ameaça ou apenas alguém muito confuso!
- Bem, eu acho que você tem razão... Mas só uma pessoa muito boa como você para esperar que alguém que quase te matou seja apenas "alguém muito confuso"!
- Eu sei, eu preciso ser rancoroso e agressivo que nem você, certo?!
- Exatamente! Eu te garanto, toda essa demonstração de "masculinidade" deixa as pessoas excitadas! - respondeu Guilherme, com a sua caricata expressão sedutora.
- Gui, será que você consegue falar de algo que não seja você e as suas técnicas para seduzir outras pessoas?! - disse Enzo, rindo - Olha, eu vou fingir que você nem disse isso, para o bem do seu relacionamento!
- Eu estou brincando! Eu admiro muito que você seja assim! Eu sou incapaz de perdoar até a pessoa que não sai da minha frente na rua, quando eu estou com pressa!
- Ai Gui, você não existe!- É sério! Você é uma pessoa muito generosa! Isso é uma qualidade muito importante! Eu só fico preocupado, nessa situação, porque ele meio que já tentou te matar... mas eu espero, de coração, estar errado e que ele seja uma pessoa confusa, como você disse. Assim, quem sabe um amigo tão bom quanto você possa o fazer ser mais centrado e menos estanho...ou, você sabe... homicida!
- Obrigado Gui! Mas para de me elogiar, porque eu não quero ficar convencido igual a você!- Acho difícil! Mas eu vou continuar tentando te corromper!


Enquanto isso, Daniel estava saindo de uma aula na UFTU e estava a ponto de mandar uma mensagem para Enzo, a fim de encontrá-lo na Snacks. Porém, foi surpreendido por Lucas, o qual o abordou em um dos corredores da universidade.

- Daniel... Eu li a sua mensagem e... bem, eu queria muito poder me explicar...
- Eu não sei se eu estou com paciência para te ouvir agora Lucas... me desculpe, mas eu estou furioso com você e eu acho que não é a melhor hora para isso!
- Eu só preciso de 5 minutos... por favor!- Eu acho melhor você ter uma boa explicação Lucas! Você tem 5 minutos, que é o tempo que eu chego até a Snacks.
- Tudo bem... - disse Lucas, enquanto andava ao lado de Daniel pelos corredores da UFTU - Olha Daniel, eu... cara, eu nem sei o que dizer...
- Começou mal! - Interrompeu Daniel.
- Desculpe, você tem razão - respondeu Lucas - Eu vou direto ao ponto! Eu...por alguma razão estranha, estava com ciúmes da sua relação com o Enzo...
- Escuta - disse Daniel, parando - Isso ainda não é uma boa razão para o que você fez, então, se você realmente não tem nada melhor do que isso para dizer, eu acho melhor encerrarmos essa conversa!
- Por que você está me tratando assim Daniel? - disse Lucas, visivelmente surpreso - Eu achei que fôssemos amigos novamente!
- Lucas, você nÃO PODE - Daniel parou um instante, respirou fundo e continuou - Desculpe, eu não queria me exaltar... você não pode tentar matar o meu namorado e esperar que eu continue sendo seu amigo! Melhor dizendo, você não pode agir dessa forma com qualquer pessoa e realmente esperar que eu aja normalmente! Isso é algo muito, muito sério! Você tem muita sorte pelo fato de que o Enzo não vai prestar queixa!

- Lá vai você, novamente, fugindo de uma situação que você mesmo criou! - Lucas estava visivelmente irritado - Eu já devia esperar isso de você! Você vai se arrepender de entrar na minha vida de novo, só para poder me humilhar e me deixar sozinho, mais uma vez! - Dito isso, o rapaz virou as costas para Daniel e saiu andando, sem esperar resposta.


Daniel continuou o seu caminho em direção à Snacks, mas não conseguia tirar da cabeça o que Lucas havia dito e o modo como ele parecia, genuinamente, ferido pelo modo como havia sido tratado. Ao chegar à lanchonete, ele avistou Enzo e Guilherme conversando, o que o fez perceber que havia se esquecido de mandar a mensagem para o noivo.

- Oi amor! - disse ele, aproximando-se da mesa onde Enzo estava - Eu ia te chamar para almoçar aqui comigo, mas acabei esquecendo! Ainda bem que você está aqui!
- Gui, o que você acha? - respondeu Enzo, dirigindo-se a Guilherme - Devo perdoar o meu noivo por me esquecer dessa forma?
- Olha, tudo o que eu posso dizer é que eu jamais esqueceria de você assim! - respondeu Guilherme com um sorriso malicioso no rosto - Mas hoje em dia já não produzem namorados como antigamente!
- Em primeiro lugar, cala a boca Guilherme! - disse Daniel rindo - Em segundo lugar, você não é tão mais velho do que eu! Em terceiro lugar, eu tenho uma razão muito boa!

- Bem, nesse caso, vamos ouvir o que você tem a dizer e depois eu darei um veredito, com a ajuda do Gui! - disse Enzo.

Dessa forma, Daniel se juntou aos dois rapazes e, brevemente, contou sobre o que tinha acontecido mais cedo com Lucas.

- Meu veredito é absolvido! - disse Guilherme - Eu também ficaria fortemente perturbado pelo fato de alguém que tentou matar o meu namorado utilizar a palavra "arrepender" uma conversa.
- Sim! Totalmente absolvido! - acrescentou Enzo - O Lucas me surpreende mais a cada dia! Eu acho que ele precisa de ajuda profissional séria!
- Eu concordo! Eu sei que realmente o tratei de forma ríspida, mas ele agiu como se o que ele fez não tivesse qualquer relevância na conversa!
- Eu tenho uma sugestão - intrometeu-se Guilherme - Acho que vocês deveriam conversar com os colegas de classe dele! Talvez isso ajude a descobrir como ele age com outras pessoas! Aí poderemos dizer se ele é estranho só com vocês dois ou com todo mundo!
- Essa é uma ótima ideia Guilherme! - disse Daniel - Eu posso ir até o bloco dele no intervalo de alguma aula.
- Cuidado para ele não te ver e descobrir todo o nosso plano! - disse Enzo.
- Que plano amor?! - perguntou Daniel, confuso.
- Aquele que vamos bolar, já que agora vamos espionar o Lucas! Estou muito animado!
- Amor, você precisa para de ver filmes de espionagem! - acrescentou Daniel, rindo - Mas, mudando um pouco de assunto, o meu pai pediu para te dizer que vai contratar um detetive particular para investigar o que aconteceu na sua casa, pois ele não confia muito no trabalho da polícia nesse caso. Segundo ele, eles só iriam investigar o caso a fundo se alguém tivesse sido seriamente ferido ou se nós oferecêssemos pistas mais concretas que levassem ao autor do crime! Como esse não é o caso, eles provavelmente nem vão investigar nada.
- O seu pai está sendo tão generoso amor! - respondeu Enzo - Eu já agradeço muito o fato dele ter contratado um advogado para lidar com o processo contra o cara que nos atropelou e agora ele também vai lidar com isso!
- Sim! Isso é porque ele gosta muito de você amor! Quem diria né?!
- Eu acho muito legal que o seu pai tenha aceitado o, Enzo tão bem! - disse Guilherme - E, por falar no atropelamento, como anda esse processo?
- Eu acho que no próximo mês haverá uma audiência para decidir a pena - respondeu Daniel - O cara está sendo cooperativo e até tentou entrar em contato com o Enzo, mas o advogado nos aconselhou a evitar qualquer contato até o julgamento.


Os três permaneceram na Snacks, conversando sobre diversos assuntos, incluindo o "plano" de Enzo. Porém, Daniel precisou sair, pois teria outra aula no turno da tarde.


- Foi muito bom almoçar com vocês, mas eu preciso muito assistir essa aula! - disse ele, levantando-se.
- Por incrível que pareça, eu também apreciei a sua companhia Daniel! - disse Guilherme.
- Que bom, mas eu ainda não confio em você perto do meu namorado! - respondeu Daniel - Então não esqueça que eu estou sempre de olho em você! - Dito isso, ele inclinou-se em direção a Enzo e o beijou - Amor, depois da aula eu vou até a casa do Fábio, pois vai ter uma pequena celebração do aniversário dele. Você quer vir?
- Não amor, eu estou um pouco sem disposição para eventos sociais... Mas espero que você se divirta! Onde vai ser?
- Vai ser em Pirapora, então eu vou dormir por lá! Eu também estou sem disposição para eventos sociais, mas preciso me enturmar! - disse Daniel - Então eu te vejo amanhã, tudo bem?
- Tudo bem, cuidado na estrada! - alertou Enzo.
- Eu vou tomar sim! Afinal, eu acabei de noivar e não quero te deixar tão cedo! - respondeu Daniel - Bem, eu preciso correr ou vou chegar atrasado! Até mais!
- Não conta para ele, mas eu estou começando a simpatizar com o Daniel - disse Guilherme, depois que o rapaz tinha ido embora - Eu acho que ele te faz bem!
- Eu também acho que ele me faz bem - respondeu Enzo - Sabe, eu não achei que voltaria para ele, depois de, você sabe... todo aquele lance que rolou entre nós... Mas eu senti que deveria dar uma segunda chance a ele e, até agora, ainda me arrependi disso!
- Eu entendo - disse Guilherme - Essa deve ter sido uma decisão muito difícil, pois eu sei que você não perdoaria o que ele fez, a menos que você achasse que isso não é um padrão.
- Você me conhece muito bem Gui! De fato, eu não acho que isso seja um padrão que nos levará a uma relação abusiva, por isso voltei com ele! O Daniel é um ótimo namorado e uma boa pessoa, então eu acho que ele merece uma segunda chance! Porém, se eu estiver completamente enganado e ele se tornar abusivo dentro da nossa relação, eu o deixo para sempre e sigo com a minha vida! Sei que tenho bons amigos com quem posso contar para me apoiar!
- Espero que você não esteja enganado! Eu jamais quero te ver sofrer daquela forma novamente!
- Obrigado Gui! E por falar em relacionamentos, como andam as coisas entre você e o Pietro?
- Elas estão, surpreendentemente melhor! - respondeu Guilherme, animado - Eu já gostava muito dele antes de descobrir que tenho o HIV, mas agora eu nem sei expressar o quanto eu...
- O ama?! - disse Enzo, surpreso.
- Sim! Eu acho que o amo! - respondeu Guilherme, também surpreso - Meu Deus, eu o amo! Isso é... é tão estranho, eu acabei de perceber isso agora!
- Nossa! Quem diria Gui?! Você está apaixonado, de verdade, por alguém!
- Eu sei! Isso é tão estranho! - disse Guilherme, ainda processando o fato - Quero dizer, eu sei que eu gosto muito dele, já que escolhi namorar com ele, o que já é um grande passo! Mas eu não diria que amava todas as pessoas com quem me envolvi! Sempre foram casos muito mais físicos do que emocionais! E com o Pietro é justamente o contrário! O sexo é incrível, mas o que realmente me atrai nele é o modo como ele enxerga o mundo e como ele lida com as pessoas! Eu acho ele uma pessoa incrível e o modo como ele me aceitou só confirmou isso! Eu acho que estou ficando velho e quero uma relação diferente das que eu já tive até agora! Eu quero um companheiro de vida e acho que o Pietro pode ser essa pessoa!
- Você não sabe o quanto me alegra saber disso! Vocês dois são meus melhores amigos e eu fico muito feliz que as coisas estejam dando certo entre vocês!
- Eu também! - disse Guilherme, sorrindo - Eu confesso que não achei que a nossa relação fosse durar no começo! Eu gosto de passar o tempo ao lado dele, mas não imaginava que ia acabar me apaixonando!
- Eu tenho certeza que ele é a pessoa certa para te ajudar nesse momento tão difícil Gui! O Pietro é uma das pessoas mais sensíveis e companheiras que eu já conheci! Eu aposto, que apesar do choque inicial, o fato de você ter HIV não fez ele gostar menos de você!
- Eu concordo, ele vem me tratando como se nada tivesse mudado! - pontuou Guilherme - E quanto a você? Já pegou os resultados do exame?
- Ainda não - respondeu Enzo - Eu tinha até esquecido disso, depois de tudo o que vem acontecendo. Mas eu vou ligar para a clínica hoje ou amanhã.

Às três da tarde Guilherme deixou Enzo em casa. Enquanto isso, Daniel estava saindo da UFTU, em direção à sua casa e teve a impressão de ver o mesmo carro da noite passada bem atrás dele. Porém, novamente, o carro seguiu um caminho diferente do dele. Quando chegou em casa, o rapaz se arrumou de forma rápida e saiu em direção a Pirapora, que ficava a duas horas de carro de São Patrício.
Daniel não conhecia muitas pessoas na festa, já que Fábio era uma das poucas pessoas com quem ele falava na sua atual turma da faculdade. Às onze horas, apesar do que ele tinha dito a Enzo, ele decidiu que voltaria naquele mesmo dia para São Patrício, pois não estava se sentindo à vontade na casa de Fábio, que apesar de o ter recebido muito bem, não tinha lhe dado muita atenção durante a festa. Assim, ele rumou de volta para a sua casa, sem se importar com o horário, já que no outro dia, excepcionalmente, ele não precisaria acordar cedo, pois não teria aula.
A rodovia estava pouquíssimo movimentada naquele horário e, exceto por alguns caminhões que eventualmente cruzavam o seu caminho, Daniel estava sozinho na estrada. Porém, a partir de certo trecho Daniel notou um carro preto atrás dele e, novamente, o alerta de Enzo ecoou em sua cabeça. Desse modo, ele parou o carro no meio-fio, como havia feito na noite anterior. Entretanto, para a sua preocupação, o outro carro também parou e ele pôde notar que se tratava de um Corsa preto, cuja placa estava coberta. Assim, com o coração fortemente acelerado, ele ligou o carro novamente e voltou à sua jornada para casa. O outro carro, prontamente, começou a se mover de novo, o que confirmava as suas suspeitas de estar sendo seguido. Assim, Daniel pisou no acelerador e, enquanto isso, pegou o celular e discou para a polícia. Ele explicou o que estava ocorrendo e a provável rota que seguiria até a sua casa, que ficava na zona oeste de São Patrício. O rapaz tentou ligar para Enzo enquanto o Corsa preto continuava a segui-lo em alta velocidade, porém a ligação estava sendo encaminhada diretamente para a caixa postal. Em seguida, ligou para o pai, o qual atendeu apenas na segunda tentativa:

- Alô...
- Pai! Graças a Deus! Eu acho que tem alguém me seguindo! É um corsa preto e... pai?
- Daniel, a...ação...ruim...
- PAI! CONSEGUE ME OUVIR?!
- Agora sim. O que aconteceu meu filho?!
- Pai, eu acho que a pessoa que jogou a pedra na casa do Enzo está me seguindo! Parece ser o mesmo carro que os vizinhos descreveram!
- Meu Deus! Onde você está meu filho? Já ligou para a polícia
- Eu estou na Br pai! Eu já liguei, mas estou com medo de que ele faça alguma coisa antes de alguma viatura chegar aqui!

- Mas o que...

A ligação caiu e quando Pedro tentou retornar não obteve resposta. Depois de vinte minutos tentando ligar para o celular do filho, Pedro conseguiu falar com alguém, mas não era Daniel. Um policial estava falando do outro lado da linha e ele tinha péssimas notícias. Aparentemente, o carro de Daniel havia derrapado na estrada e ele havia desmaiado, por isso estava sendo levado para o pronto-socorro municipal. Mesmo extremamente abalado, Pedro orientou o policial a mandar a ambulância para o Hospital Ibero-Brasileiro, para onde ele se dirigira logo que desligou.
Quando estava a caminho do hospital, ele recebeu uma ligação de Enzo, o qual estava preocupado porque não conseguira falar com Daniel. Pedro informou ao rapaz o que havia acontecido e para onde o filho tinha sido levado. No hospital, ele teve outra surpresa ao encontrar Frida na recepção.

- Frida?! - disse Pedro, visivelmente surpreso - O que você está fazendo aqui?
- Seu Pedro - disse ela enquanto o abraçava - Eu estava dirigindo pela Br vi o carro da polícia. Eu estava em dúvida e não queria acreditar que pudesse ser ele, mas então vi o Daniel sendo retirado do carro!
- Você o viu? - disse Pedro alarmado - Como ele está?

- Eu o vi muito rapidamente, pois eles o colocaram na ambulância! Eu os segui até aqui e eles me disseram que não foi nada grave, eles só precisam fazer alguns exames para se assegurarem de que tudo está realmente bem como ele!


Pedro e Frida ficaram esperando, sem qualquer outra notícia, por meia hora, até que Enzo e os pais adentraram a sala de espera. Quando avistou quem estava ao lado do sogro, o rapaz ficou bastante surpreso.

- Frida?!