sábado, 16 de julho de 2016

Capítulo 8 - Aqueles que Amam (Cont.)

- E ninguém conseguiu anotar a placa do carro? - perguntou o responsável pela Delegacia Seccional de Polícia de Lagoa Boa, onde os presentes no jantar ocorrido na casa de Enzo estavam registrando um boletim de ocorrência.

- Não - respondeu Roberto - quando eu corri para ver o que havia acontecido, o carro não estava mais lá! Os meus vizinhos alegam que era um carro preto... um Corsa talvez... mas estava com a placa coberta. Infelizmente, tudo o que sabemos é a cor e, talvez, a marca do carro.
- Isso não é nada bom! - disse o delegado - Sem muitas informações, não há muito que possamos fazer para ajudar... mas eu prometo que faremos o melhor para tentar solucionar esse caso o mais breve possível!
- Bem, muito obrigado... - disse Pedro, visivelmente desapontado - Eu acho melhor nós irmos embora, pois eu tenho certeza que todos estão cansados e, como o delegado disse, não há muito que possa ser feito.
- Eu realmente estou muito cansada - disse Maria - E imagino que todos também estejam famintos, já que não tivemos nem chance de tocar no jantar!
- Quanto a isso, não se preocupem, pois eu faço questão de levá-los até um bom restaurante - disse Pedro - Não vamos deixar que esse vândalo, seja lá quem for, estrague a noite! Afinal, não vamos esquecer que estamos celebrando algo muito importante - Pedro se interpôs entre Enzo e Daniel, abraçando-os - A união deste casal, que já passou por muita coisa junto e que, com certeza, merecem um jantar de noivado descente!
- Obrigado pai! - disse Daniel - O que vocês acham? Ainda estão com disposição para isso?

Apesar do visível cansaço, todos concordaram em sair para tentar completar a celebração do noivado de Enzo e Daniel. Como esperado, Daniel escolheu o "Ristorante Giovanna", visto que o local tinha a melhor lasanha da cidade, na opinião do rapaz. O restaurante estava localizado na zona norte, o que ficava a 50 minutos de carro da casa de Enzo, por isso eles se dividiram em dois grupos: os pais de Enzo seguiram com Pedro, enquanto Pietro e Guilherme acompanharam os noivos.

- Eu tenho certeza que vocês vão adorar o restaurante - disse Daniel, animado - Prometo que vai valer a pena nós sairmos de Lagoa Boa até a zona norte.
- Eu já estive na zona norte, mas nunca ouvi falar desse restaurante - disse Guilherme - Mas eu também não sou particularmente aficionado por comida italiana.
- Isso é porque você nunca provou a comida do Ristorante Giovanna - respondeu Daniel - Eles têm a melhor comida italiana e, especificamente, a melhor lasanha da cidade!
- Se o Daniel está dizendo, é porque deve ser verdade Gui - intrometeu-se Enzo - Acredite em mim, ele gosta muuuito de comida italiana! Principalmente de lasanha! Estou até cogitando apelidar ele de "Garfield"!
- Gostei do apelido! - disse Pietro rindo.
- Nem pensem nisso! - retrucou Daniel.

O jantar de noivado finalmente foi concretizado no restaurante italiano preferido de Daniel e como ele previra, todos adoraram a comida. Depois disso, Pedro e Daniel fizeram questão de deixar todos os outros em suas respectivas casas. Enzo acompanhou o noivo enquanto este levava Guilherme e Pietro até a zona sul de São Patrício, onde ambos moravam. Na volta para Lagoa Boa, que ficava na zona leste, Enzo comentou:

- Amor, você acha foi o Lucas quem fez aquilo?
- Eu não sei... - disse Daniel, pensativo - depois do que você me disse, isso faria muito sentido, mas também não podemos tirar conclusões precipitadas!
- Eu sei, mas... Eu tenho medo do que essa pessoa, seja o Lucas ou não, possa fazer daqui pra frente! - disse Enzo, em tom bastante sério - Amor, eu duvido que alguém que tenha se disposto a ir até a Lagoa Boa para jogar uma pedra na janela da minha casa vá parar por aí! Nós precisamos tomar muito cuidado, principalmente porque essa pessoa não pode ser um completo estranho, já que ela sabe onde eu moro, o que quer dizer que ela pode nos abordar em outros locais que frequentamos! Toma cuidado na volta para casa, tudo bem?

- Tudo bem amor, eu prometo que vou ficar atento!

Quando Daniel, finalmente, deixou Enzo em casa, já passava de duas horas e as ruas estavam relativamente desertas, principalmente na zona leste da cidade. O rapaz se despediu brevemente do noivo e rumou para casa. Porém, no caminho notou que há alguns quarteirões um carro estava seguindo a mesma rota que ele. Levando em consideração o alerta de Enzo, ele parou no meio-fio, na esperança de que ele estivesse apenas paranoico e de que o outro carro fosse seguir em frente. Felizmente, aconteceu o que ele esperava e, sentindo-se bobo por ter pensado que estava sendo seguido, ele continuou o caminho para casa.
No dia seguinte, Guilherme acompanhou Enzo até a consulta na Clínica de Reabilitação da UFTU. Enzo não viu Lucas durante a consulta e, quando indagou sobre ele para os outros estagiários, estes não souberam informar o motivo da ausência do rapaz. Depois da sessão, Enzo seguiu com Guilherme para a Snacks.


- Por que você estava perguntando sobre o Lucas hoje? - perguntou Guilherme.
- Eu preciso esclarecer ainda mais as coisas com o Lucas Gui! - respondeu Enzo - Eu estou em dúvida se ele é uma ameaça ou apenas alguém muito confuso!
- Bem, eu acho que você tem razão... Mas só uma pessoa muito boa como você para esperar que alguém que quase te matou seja apenas "alguém muito confuso"!
- Eu sei, eu preciso ser rancoroso e agressivo que nem você, certo?!
- Exatamente! Eu te garanto, toda essa demonstração de "masculinidade" deixa as pessoas excitadas! - respondeu Guilherme, com a sua caricata expressão sedutora.
- Gui, será que você consegue falar de algo que não seja você e as suas técnicas para seduzir outras pessoas?! - disse Enzo, rindo - Olha, eu vou fingir que você nem disse isso, para o bem do seu relacionamento!
- Eu estou brincando! Eu admiro muito que você seja assim! Eu sou incapaz de perdoar até a pessoa que não sai da minha frente na rua, quando eu estou com pressa!
- Ai Gui, você não existe!- É sério! Você é uma pessoa muito generosa! Isso é uma qualidade muito importante! Eu só fico preocupado, nessa situação, porque ele meio que já tentou te matar... mas eu espero, de coração, estar errado e que ele seja uma pessoa confusa, como você disse. Assim, quem sabe um amigo tão bom quanto você possa o fazer ser mais centrado e menos estanho...ou, você sabe... homicida!
- Obrigado Gui! Mas para de me elogiar, porque eu não quero ficar convencido igual a você!- Acho difícil! Mas eu vou continuar tentando te corromper!


Enquanto isso, Daniel estava saindo de uma aula na UFTU e estava a ponto de mandar uma mensagem para Enzo, a fim de encontrá-lo na Snacks. Porém, foi surpreendido por Lucas, o qual o abordou em um dos corredores da universidade.

- Daniel... Eu li a sua mensagem e... bem, eu queria muito poder me explicar...
- Eu não sei se eu estou com paciência para te ouvir agora Lucas... me desculpe, mas eu estou furioso com você e eu acho que não é a melhor hora para isso!
- Eu só preciso de 5 minutos... por favor!- Eu acho melhor você ter uma boa explicação Lucas! Você tem 5 minutos, que é o tempo que eu chego até a Snacks.
- Tudo bem... - disse Lucas, enquanto andava ao lado de Daniel pelos corredores da UFTU - Olha Daniel, eu... cara, eu nem sei o que dizer...
- Começou mal! - Interrompeu Daniel.
- Desculpe, você tem razão - respondeu Lucas - Eu vou direto ao ponto! Eu...por alguma razão estranha, estava com ciúmes da sua relação com o Enzo...
- Escuta - disse Daniel, parando - Isso ainda não é uma boa razão para o que você fez, então, se você realmente não tem nada melhor do que isso para dizer, eu acho melhor encerrarmos essa conversa!
- Por que você está me tratando assim Daniel? - disse Lucas, visivelmente surpreso - Eu achei que fôssemos amigos novamente!
- Lucas, você nÃO PODE - Daniel parou um instante, respirou fundo e continuou - Desculpe, eu não queria me exaltar... você não pode tentar matar o meu namorado e esperar que eu continue sendo seu amigo! Melhor dizendo, você não pode agir dessa forma com qualquer pessoa e realmente esperar que eu aja normalmente! Isso é algo muito, muito sério! Você tem muita sorte pelo fato de que o Enzo não vai prestar queixa!

- Lá vai você, novamente, fugindo de uma situação que você mesmo criou! - Lucas estava visivelmente irritado - Eu já devia esperar isso de você! Você vai se arrepender de entrar na minha vida de novo, só para poder me humilhar e me deixar sozinho, mais uma vez! - Dito isso, o rapaz virou as costas para Daniel e saiu andando, sem esperar resposta.


Daniel continuou o seu caminho em direção à Snacks, mas não conseguia tirar da cabeça o que Lucas havia dito e o modo como ele parecia, genuinamente, ferido pelo modo como havia sido tratado. Ao chegar à lanchonete, ele avistou Enzo e Guilherme conversando, o que o fez perceber que havia se esquecido de mandar a mensagem para o noivo.

- Oi amor! - disse ele, aproximando-se da mesa onde Enzo estava - Eu ia te chamar para almoçar aqui comigo, mas acabei esquecendo! Ainda bem que você está aqui!
- Gui, o que você acha? - respondeu Enzo, dirigindo-se a Guilherme - Devo perdoar o meu noivo por me esquecer dessa forma?
- Olha, tudo o que eu posso dizer é que eu jamais esqueceria de você assim! - respondeu Guilherme com um sorriso malicioso no rosto - Mas hoje em dia já não produzem namorados como antigamente!
- Em primeiro lugar, cala a boca Guilherme! - disse Daniel rindo - Em segundo lugar, você não é tão mais velho do que eu! Em terceiro lugar, eu tenho uma razão muito boa!

- Bem, nesse caso, vamos ouvir o que você tem a dizer e depois eu darei um veredito, com a ajuda do Gui! - disse Enzo.

Dessa forma, Daniel se juntou aos dois rapazes e, brevemente, contou sobre o que tinha acontecido mais cedo com Lucas.

- Meu veredito é absolvido! - disse Guilherme - Eu também ficaria fortemente perturbado pelo fato de alguém que tentou matar o meu namorado utilizar a palavra "arrepender" uma conversa.
- Sim! Totalmente absolvido! - acrescentou Enzo - O Lucas me surpreende mais a cada dia! Eu acho que ele precisa de ajuda profissional séria!
- Eu concordo! Eu sei que realmente o tratei de forma ríspida, mas ele agiu como se o que ele fez não tivesse qualquer relevância na conversa!
- Eu tenho uma sugestão - intrometeu-se Guilherme - Acho que vocês deveriam conversar com os colegas de classe dele! Talvez isso ajude a descobrir como ele age com outras pessoas! Aí poderemos dizer se ele é estranho só com vocês dois ou com todo mundo!
- Essa é uma ótima ideia Guilherme! - disse Daniel - Eu posso ir até o bloco dele no intervalo de alguma aula.
- Cuidado para ele não te ver e descobrir todo o nosso plano! - disse Enzo.
- Que plano amor?! - perguntou Daniel, confuso.
- Aquele que vamos bolar, já que agora vamos espionar o Lucas! Estou muito animado!
- Amor, você precisa para de ver filmes de espionagem! - acrescentou Daniel, rindo - Mas, mudando um pouco de assunto, o meu pai pediu para te dizer que vai contratar um detetive particular para investigar o que aconteceu na sua casa, pois ele não confia muito no trabalho da polícia nesse caso. Segundo ele, eles só iriam investigar o caso a fundo se alguém tivesse sido seriamente ferido ou se nós oferecêssemos pistas mais concretas que levassem ao autor do crime! Como esse não é o caso, eles provavelmente nem vão investigar nada.
- O seu pai está sendo tão generoso amor! - respondeu Enzo - Eu já agradeço muito o fato dele ter contratado um advogado para lidar com o processo contra o cara que nos atropelou e agora ele também vai lidar com isso!
- Sim! Isso é porque ele gosta muito de você amor! Quem diria né?!
- Eu acho muito legal que o seu pai tenha aceitado o, Enzo tão bem! - disse Guilherme - E, por falar no atropelamento, como anda esse processo?
- Eu acho que no próximo mês haverá uma audiência para decidir a pena - respondeu Daniel - O cara está sendo cooperativo e até tentou entrar em contato com o Enzo, mas o advogado nos aconselhou a evitar qualquer contato até o julgamento.


Os três permaneceram na Snacks, conversando sobre diversos assuntos, incluindo o "plano" de Enzo. Porém, Daniel precisou sair, pois teria outra aula no turno da tarde.


- Foi muito bom almoçar com vocês, mas eu preciso muito assistir essa aula! - disse ele, levantando-se.
- Por incrível que pareça, eu também apreciei a sua companhia Daniel! - disse Guilherme.
- Que bom, mas eu ainda não confio em você perto do meu namorado! - respondeu Daniel - Então não esqueça que eu estou sempre de olho em você! - Dito isso, ele inclinou-se em direção a Enzo e o beijou - Amor, depois da aula eu vou até a casa do Fábio, pois vai ter uma pequena celebração do aniversário dele. Você quer vir?
- Não amor, eu estou um pouco sem disposição para eventos sociais... Mas espero que você se divirta! Onde vai ser?
- Vai ser em Pirapora, então eu vou dormir por lá! Eu também estou sem disposição para eventos sociais, mas preciso me enturmar! - disse Daniel - Então eu te vejo amanhã, tudo bem?
- Tudo bem, cuidado na estrada! - alertou Enzo.
- Eu vou tomar sim! Afinal, eu acabei de noivar e não quero te deixar tão cedo! - respondeu Daniel - Bem, eu preciso correr ou vou chegar atrasado! Até mais!
- Não conta para ele, mas eu estou começando a simpatizar com o Daniel - disse Guilherme, depois que o rapaz tinha ido embora - Eu acho que ele te faz bem!
- Eu também acho que ele me faz bem - respondeu Enzo - Sabe, eu não achei que voltaria para ele, depois de, você sabe... todo aquele lance que rolou entre nós... Mas eu senti que deveria dar uma segunda chance a ele e, até agora, ainda me arrependi disso!
- Eu entendo - disse Guilherme - Essa deve ter sido uma decisão muito difícil, pois eu sei que você não perdoaria o que ele fez, a menos que você achasse que isso não é um padrão.
- Você me conhece muito bem Gui! De fato, eu não acho que isso seja um padrão que nos levará a uma relação abusiva, por isso voltei com ele! O Daniel é um ótimo namorado e uma boa pessoa, então eu acho que ele merece uma segunda chance! Porém, se eu estiver completamente enganado e ele se tornar abusivo dentro da nossa relação, eu o deixo para sempre e sigo com a minha vida! Sei que tenho bons amigos com quem posso contar para me apoiar!
- Espero que você não esteja enganado! Eu jamais quero te ver sofrer daquela forma novamente!
- Obrigado Gui! E por falar em relacionamentos, como andam as coisas entre você e o Pietro?
- Elas estão, surpreendentemente melhor! - respondeu Guilherme, animado - Eu já gostava muito dele antes de descobrir que tenho o HIV, mas agora eu nem sei expressar o quanto eu...
- O ama?! - disse Enzo, surpreso.
- Sim! Eu acho que o amo! - respondeu Guilherme, também surpreso - Meu Deus, eu o amo! Isso é... é tão estranho, eu acabei de perceber isso agora!
- Nossa! Quem diria Gui?! Você está apaixonado, de verdade, por alguém!
- Eu sei! Isso é tão estranho! - disse Guilherme, ainda processando o fato - Quero dizer, eu sei que eu gosto muito dele, já que escolhi namorar com ele, o que já é um grande passo! Mas eu não diria que amava todas as pessoas com quem me envolvi! Sempre foram casos muito mais físicos do que emocionais! E com o Pietro é justamente o contrário! O sexo é incrível, mas o que realmente me atrai nele é o modo como ele enxerga o mundo e como ele lida com as pessoas! Eu acho ele uma pessoa incrível e o modo como ele me aceitou só confirmou isso! Eu acho que estou ficando velho e quero uma relação diferente das que eu já tive até agora! Eu quero um companheiro de vida e acho que o Pietro pode ser essa pessoa!
- Você não sabe o quanto me alegra saber disso! Vocês dois são meus melhores amigos e eu fico muito feliz que as coisas estejam dando certo entre vocês!
- Eu também! - disse Guilherme, sorrindo - Eu confesso que não achei que a nossa relação fosse durar no começo! Eu gosto de passar o tempo ao lado dele, mas não imaginava que ia acabar me apaixonando!
- Eu tenho certeza que ele é a pessoa certa para te ajudar nesse momento tão difícil Gui! O Pietro é uma das pessoas mais sensíveis e companheiras que eu já conheci! Eu aposto, que apesar do choque inicial, o fato de você ter HIV não fez ele gostar menos de você!
- Eu concordo, ele vem me tratando como se nada tivesse mudado! - pontuou Guilherme - E quanto a você? Já pegou os resultados do exame?
- Ainda não - respondeu Enzo - Eu tinha até esquecido disso, depois de tudo o que vem acontecendo. Mas eu vou ligar para a clínica hoje ou amanhã.

Às três da tarde Guilherme deixou Enzo em casa. Enquanto isso, Daniel estava saindo da UFTU, em direção à sua casa e teve a impressão de ver o mesmo carro da noite passada bem atrás dele. Porém, novamente, o carro seguiu um caminho diferente do dele. Quando chegou em casa, o rapaz se arrumou de forma rápida e saiu em direção a Pirapora, que ficava a duas horas de carro de São Patrício.
Daniel não conhecia muitas pessoas na festa, já que Fábio era uma das poucas pessoas com quem ele falava na sua atual turma da faculdade. Às onze horas, apesar do que ele tinha dito a Enzo, ele decidiu que voltaria naquele mesmo dia para São Patrício, pois não estava se sentindo à vontade na casa de Fábio, que apesar de o ter recebido muito bem, não tinha lhe dado muita atenção durante a festa. Assim, ele rumou de volta para a sua casa, sem se importar com o horário, já que no outro dia, excepcionalmente, ele não precisaria acordar cedo, pois não teria aula.
A rodovia estava pouquíssimo movimentada naquele horário e, exceto por alguns caminhões que eventualmente cruzavam o seu caminho, Daniel estava sozinho na estrada. Porém, a partir de certo trecho Daniel notou um carro preto atrás dele e, novamente, o alerta de Enzo ecoou em sua cabeça. Desse modo, ele parou o carro no meio-fio, como havia feito na noite anterior. Entretanto, para a sua preocupação, o outro carro também parou e ele pôde notar que se tratava de um Corsa preto, cuja placa estava coberta. Assim, com o coração fortemente acelerado, ele ligou o carro novamente e voltou à sua jornada para casa. O outro carro, prontamente, começou a se mover de novo, o que confirmava as suas suspeitas de estar sendo seguido. Assim, Daniel pisou no acelerador e, enquanto isso, pegou o celular e discou para a polícia. Ele explicou o que estava ocorrendo e a provável rota que seguiria até a sua casa, que ficava na zona oeste de São Patrício. O rapaz tentou ligar para Enzo enquanto o Corsa preto continuava a segui-lo em alta velocidade, porém a ligação estava sendo encaminhada diretamente para a caixa postal. Em seguida, ligou para o pai, o qual atendeu apenas na segunda tentativa:

- Alô...
- Pai! Graças a Deus! Eu acho que tem alguém me seguindo! É um corsa preto e... pai?
- Daniel, a...ação...ruim...
- PAI! CONSEGUE ME OUVIR?!
- Agora sim. O que aconteceu meu filho?!
- Pai, eu acho que a pessoa que jogou a pedra na casa do Enzo está me seguindo! Parece ser o mesmo carro que os vizinhos descreveram!
- Meu Deus! Onde você está meu filho? Já ligou para a polícia
- Eu estou na Br pai! Eu já liguei, mas estou com medo de que ele faça alguma coisa antes de alguma viatura chegar aqui!

- Mas o que...

A ligação caiu e quando Pedro tentou retornar não obteve resposta. Depois de vinte minutos tentando ligar para o celular do filho, Pedro conseguiu falar com alguém, mas não era Daniel. Um policial estava falando do outro lado da linha e ele tinha péssimas notícias. Aparentemente, o carro de Daniel havia derrapado na estrada e ele havia desmaiado, por isso estava sendo levado para o pronto-socorro municipal. Mesmo extremamente abalado, Pedro orientou o policial a mandar a ambulância para o Hospital Ibero-Brasileiro, para onde ele se dirigira logo que desligou.
Quando estava a caminho do hospital, ele recebeu uma ligação de Enzo, o qual estava preocupado porque não conseguira falar com Daniel. Pedro informou ao rapaz o que havia acontecido e para onde o filho tinha sido levado. No hospital, ele teve outra surpresa ao encontrar Frida na recepção.

- Frida?! - disse Pedro, visivelmente surpreso - O que você está fazendo aqui?
- Seu Pedro - disse ela enquanto o abraçava - Eu estava dirigindo pela Br vi o carro da polícia. Eu estava em dúvida e não queria acreditar que pudesse ser ele, mas então vi o Daniel sendo retirado do carro!
- Você o viu? - disse Pedro alarmado - Como ele está?

- Eu o vi muito rapidamente, pois eles o colocaram na ambulância! Eu os segui até aqui e eles me disseram que não foi nada grave, eles só precisam fazer alguns exames para se assegurarem de que tudo está realmente bem como ele!


Pedro e Frida ficaram esperando, sem qualquer outra notícia, por meia hora, até que Enzo e os pais adentraram a sala de espera. Quando avistou quem estava ao lado do sogro, o rapaz ficou bastante surpreso.

- Frida?!

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Capítulo 7 - A Nova Finnel (Cont.)

Uma grande confusão sucedeu a chegada do grupo de exploração. Depois disso, Hugo e Bernardo, o qual ainda estava inconsciente, foram levados para o alojamento do curandeiro do vilarejo, pois o primeiro apresentava alguns ferimentos que precisavam ser tratados e meu marido precisava ser colocado em algum lugar onde o seu estado de saúde pudesse ser avaliado. O pequeno Davi, o qual estava muito assustado, foi levado para o nosso alojamento. Quanto a Rafael II, este foi mantido prisioneiro no local onde realizávamos as nossas reuniões do conselho.
Na casa do curandeiro, unções e misturas foram utilizadas para tratar os ferimentos de Bernardo e Hugo, o qual desmaiou assim que chegou ao local, provavelmente de cansaço. Dessa forma, ambos estavam inconscientes e, segundo o curandeiro, não conseguiríamos obter nenhuma informação deles pelas próximas horas. Além disso, ele me tranquilizou dizendo que o estado de Bernardo não era grave, de modo que ele apenas precisaria de várias horas de repouso para recuperar a saúde e energia.
Depois de sair da casa do curandeiro, onde deixei o meu marido e um dos meus companheiros de jornada, eu me dirigi até o meu alojamento, a fim de conversar com o meu primo. Quando cheguei ao local, encontrei-o gritando com Raul e William, os quais pareciam não saber o que fazer. Assim que me viu, o pequeno Davi veio correndo em minha direção e me abraçou.

- Primo! Eles querem me fazer mal! Eu não quero ficar aqui!
- Calma Davi! Eu estou aqui agora! Você deve estar muito confuso, certo?
- Sim... por que aqueles homens me amarraram? Onde está o meu irmão?
- Davi... o seu irmão está bem! Algumas coisas complicadas estão acontecendo e nós precisávamos trazer vocês para cá...
- Onde está o meu pai?
- Eu não sei...
- Primo, eu estou com medo! Você promete que cuida de mim?
- É claro Davi! Eu vou cuidar de você! Mas você precisa confiar em mim, tudo bem?
- Sim...
- Ouça, estes rapazes são meus amigos e eles não farão mal a você! Eu prometo e eles também prometem! Certo rapazes?
- É claro...
- Certo...
- Viu?! Eles são bonzinhos!
- Eu acho que sim...
- Muito bem, então já que agora você sabe disso, eu posso te deixar aqui com eles enquanto eu vou fazer uma coisa? Você vai se comportar, certo?
- Eu vou tentar...
- Parece bom o bastante! Eu prometo não demorar Davi! Quando eu voltar, nós podemos conversar mais!
- Tudo bem!

Finalmente, eu segui para a sede das reuniões do conselho, onde várias pessoas estavam gritando e ameaçando o meu outro primo de diversas formas. Eu precisei intervir para acalmar os ânimos e solicitei privacidade para falar com ele. Apesar de contrários a isso, as pessoas respeitaram o meu pedido e me deixaram a sós com Rafael II.

- Eu exijo que você me solte agora mesmo!
- Olha, eu acho melhor você parar de reclamar e começar a me contar o que aconteceu! Ou eu vou simplesmente deixar as pessoas fazerem as coisas terríveis que elas pretendem fazer com você! Não se esqueça de que praticamente todas perderam algum familiar por causa do seu pai!
- Você não faria isso!
- Você não me conhece! Não teste a minha paciência! Principalmente agora, quando o meu marido está desmaiado e eu não sei o que aconteceu! Neste exato momento, eu não sou a pessoa mais equilibrada, mas, incrivelmente, eu sou a aquele que quer lhe fazer menos mal! Então você pode começar a falar ou pode ir se resolver com a população enfurecida desse vilarejo! Qual a sua escolha?
- Eu não sei! O seu dito "marido" é um traidor e meu pai nunca vai perdoá-lo!
- Já que não sabe de nada, eu acho que as pessoas pode fazer o que quiserem com você! Adeus!
- Espera! Eu vou contar o que eu sei...

Aparentemente, o meu tio vinha pessoalmente procurando o grupo fugitivo nas últimas semanas. Bernardo tinha se tornado o braço direito de Conde Rafael e o acompanhava em várias das missões de busca. Devido à confiança que meu tio desenvolvera em Bernardo, há alguns dias ele o deixou no comando do reino enquanto iria em mais uma missão de busca. Porém, Rafael suspeitou da saída massiva de guardas do reino logo depois que o seu pai havia saído para a missão de busca e alertou os guardas remanescentes, os quais flagraram Hugo e Bernardo tentando fugir do reino. Os dois tiveram que lutar e Bernardo acabou ferido, de modo que eles teriam morrido se não fosse pela inesperada ajuda de dois guardas que se rebelaram contra os outros. Devido ao fato de haver poucos guardas no reino, já que a maioria tinha sido enviada para missões de busca, eles conseguiram neutralizar os guardas leais a Conde Rafael. Além disso, antes de fugirem, Hugo foi pessoalmente ao quarto de Rafael, o qual havia fora subjugado e amarrado com cordas. O mesmo foi feito com Davi, de modo que ambos foram nocauteados e trazidos como prisioneiros durante a fuga. Rafael não revelou muitos detalhes sobre os fatos antes ou depois do momento da fuga de Pasine, mas fez questão de deixar a sua indignação explícita.

- Fomos tratados da pior forma possível! O pobre Davi passou dias amarrado!
- Quem te ouve dizer isso pode até pensar que você se importa com alguém além de si mesmo! Mas eu sei a verdade Rafael, então pode parar.
- Como você ous...
- CALADO! Eu acho que você ainda não percebeu, mas não está mais em Pasine e não tem qualquer tipo de autoridade aqui! Muito pelo contrário, você corre um sério risco de vida aqui! Portanto, se não quiser que eu precise explicar ao Davi como o irmão dele morreu, eu acho bom você melhorar a sua atitude! Principalmente, porque você vai querer convencer aquelas pessoas de que você merece viver!
- Mas você vai me proteger, certo?
- Olha, eu não poderia te proteger, nem se eu quisesse! Eu não mando neste vilarejo e você não merece que eu entre em qualquer tipo de conflito com os moradores para poder salvar a sua pele! Portanto, a responsabilidade de te salvar é inteiramente sua! Mostre àquelas pessoas que você não é tão mal quanto o seu pai! O máximo que eu posso fazer, e eu só farei por consideração ao Davi, é solicitar uma reunião do conselho para decidir a sua situação. Até lá, supostamente, ninguém deverá te fazer mal... mas, como eu disse, eu não mando neste vilarejo...

A minha proposta, como esperado, fora mal recebida pelas pessoas que aguardavam do lado de fora da sede do conselho. Muitos queriam retribuir ao filho de Conde Rafael todo o sofrimento que meu tio havia causado para as famílias do vilarejo e eu, sinceramente, não discordava deles. Porém, agi do modo como havia prometido a Rafael e obtive resposta positiva das pessoas que faziam parte do conselho para que realizássemos uma reunião no dia seguinte. A população fora instruída para que não atentassem contra a integridade física de Rafael mas, bem no fundo, eu sabia e até mesmo esperava, que alguém fosse desacatar aquela ordem. Assim, meu trabalho tinha terminado ali, de modo que retornei ao meu alojamento para ver como Davi estava lidando com os meus companheiros. Para minha surpresa, todos estavam conversando animadamente ao redor da cama de Tomás, o qual aparentava estar se sentindo bem. Assim que me viu, Davi disse:

- Primo! Você voltou!
- Sim! E eu vejo que você está bem mais calmo! Além disso, parece estar bem mais confortável quanto aos meus amigos!
- Eles são bonzinhos como você disse! Tomás estava me contando sobre o dia do casamento!
- Ah, que bom! Eu adoro essa história!

Novamente, Davi havia me impressionado pela naturalidade com que ele falava sobre uma relação entre dois homens. Considerando-se que ele era filho de Conde Rafael, eu esperaria que ele tivesse sido ensinado a detestar este tipo de comportamento, mas eu estava enganado. Nós conversamos por horas sobre as aventuras de William e Tomás em suas missões como guardas reais. No fim da tarde, eu fui chamado à casa do curandeiro, pois Hugo havia acordado. Quando cheguei ao local, notei que Bernardo ainda estava inconsciente, mas tentei ignorar a preocupação e me concentrei em Hugo, o qual estava acordado e aparentava estar bem melhor. Assim, abracei-o e disse:

- Bem-vindo de volta! Fico tão feliz que vocês tenham conseguido!
- Como é bom te ver Felipe! Eu achei que... eu também estou muito feliz de ter conseguido! Onde estão os outros? E o Raul?
- Calma! Todo mundo está bem! Nós é que estávamos preocupados com vocês!
- Você deve estar querendo saber o que aconteceu, certo?
- Bem, eu não vou negar que estou muito curioso para saber o que aconteceu em Pasine desde que fugimos! Mas você pode nos contar quando estiver se sentindo melhor! Eu só estou um pouco preocupado com o que aconteceu com Bernardo...
- Eu vou te contar tudo agora Felipe! Eu só precisava descansar! Além disso, é o mínimo que eu posso fazer, já que Bernardo foi ferido ao salvar a minha vida! Muito bem, vamos começar do dia em que vocês fugiram...

De acordo com Hugo, a ascensão de Bernardo não foi tão simples quanto Rafael insinuou. Hugo e Bernardo foram trancafiados e interrogados durante quase uma semana, até que pudessem voltar aos seus postos de trabalho. Depois disso, Bernardo passou a sair nas missões de busca ao nosso grupo, visto que Conde Rafael acreditava que ele saberia os possíveis locais para os quais nós poderíamos ter ido. De fato, Bernardo era a pessoa mais indicada para nos encontrar, mas ele confessou a Hugo que sempre levava o meu tio a lugares nos quais ele sabia que não estaríamos. Meu tio não desconfiou da estratégia de Bernardo porque, no início, este os levava a vilarejos onde nós, de fato, tínhamos estado no passado, mas que estavam desabitados porque a maioria da população havia sido enviada a Pasine e morrera no massacre. Posteriormente, ele os levou a outros lugares onde nós nunca tínhamos estado, mas nos quais ele implantava falsas pistas da nossa passagem por lá. Felizmente, como Rafael mencionara, Conde Rafael deixara Bernardo no comando do reino, o que era muito bom, considerando-se que ele já estava ficando sem ideias de lugares para levar o meu tio, sem que este começasse a duvidar da sua lealdade.
Hugo mencionou que ele ficara o tempo todo trabalhando no castelo, já que não era um oficial do meu tio, então todas as informações sobre as missões de busca ele havia recebido de Bernardo, com o qual ele sempre se reunia para organizar uma maneira de nos avisar sobre o que estava acontecendo em Pasine, porém eles nunca encontraram um momento apropriado para fazê-lo, até o dia em que fugiram do reino. No momento em que Bernardo fora nomeado para liderar o reino na ausência de Conde Rafael, Hugo e ele sabiam que esta era a chance que eles vinham esperando para poder fugir de Pasine. Assim, Bernardo começou a enviar vários guardas reais em falsas missões para lugares bem distantes, de modo que não restariam muitos guardas no reino, caso eles fossem apanhados durante a fuga, o que de fato ocorreu. No momento da luta anteriormente relatada por Rafael, Hugo era o alvo de uma flecha que acabou acertando Bernardo na parte posterior da perna, de modo que ele não podia andar adequadamente e, portanto, não poderia fugir. Graças aos guardas que se rebelaram, segundo Hugo, porque também eram homossexuais, eles conseguiram sobrepujar os guardas de Conde Rafael, raptar os meus primos e fugir de Pasine. Porém, Bernardo perdera muito sangue e desmaiara pouco antes de chegarem a um vilarejo ao norte de Arlyston, onde encontraram Raul e o resto da equipe de exploração, os quais, prontamente, ofereceram suporte para que os fugitivos de Pasine encontrassem o nosso refúgio.

- Mas... por que trazer os meus primos?
- Sinceramente, eu estou com vergonha do motivo...
- Como assim?
- Eu cedi... ele foi bastante insistente...
- Quem foi... espera, você quer dizer que... você e o Rafael...
- Eu sei! É horrível! Mas eu acho que isso não devia te surpreender... Afinal, eu nunca fui uma pessoa boa! Veja o problema que eu quase criei entre você e o Bernardo! Mas é que eu preciso tanto de atenção e... eu não sei... acho que tenho algum tipo de problema...
- Escuta Hugo, aquilo é passado! Mas eu não posso negar que ceder aos encantos do Rafael, sejam eles quais forem, não foi a sua melhor ideia! Ele sim tem problemas sérios! Quero dizer, eu até entendo que ele esteja amargurado pelo que o pai fez a ele, mas ele já ultrapassou alguns limites! Você sabe que tipo de coisas ele já fez, certo?
- Eu sei Felipe! Não entenda mal o que eu te contei! Eu sei o que fez, mas ele parece ser alguém perdido, assim como eu... e talvez essa identificação tenha me atraído nele...
- Bem, eu não posso te dizer o que fazer, mas ainda acho uma má ideia! Só mais uma coisa, como fica o Raul nessa história? Você não sente nada por ele? Vocês passaram muito tempo juntos quando estavam presos em Pasine, pelo que ele me contou.
- Eu acho que já fiz muito mal ao Raul... ele merece alguém melhor...
- Mas a pergunta foi: você não sente nada por ele?
- Às vezes eu acho que sim... mas eu tenho medo de magoá-lo novamente! Ele não merece isso! Acho que perder o Paulo já deve ter sido suficiente para ele e essa minha inconstância não vai ser muito boa para ele agora!
- Olha Hugo, eu concordo que o Raul tenha passado por muita coisa nesses últimos tempos e que, realmente, você tem sido bastante inconstante quanto aos seus sentimentos desde que eu te conheço. Mas, se você quer ficar com o Rafael apenas porque você sente que não é uma pessoa boa, saiba que você está completamente enganado! Você está nessa família que formamos há algum tempo e eu sei que você tem inúmeras qualidades, você só precisa as fazer serem mais evidentes do que a sua inconstância! Pense nisso!
- Obrigado Felipe! Você é um bom amigo!
- Eu que agradeço! Por ter trazido o meu marido de volta para mim!
- Ele fez a maior parte de tudo! O seu marido é um homem extraordinário, assim como você! Não é a toa que eu senti algo pelos dois!
- Err... isso ficou para trás, certo?
- Claro! Não me entenda mal, tudo o que sinto por vocês dois agora é uma profunda admiração! Bem, e um pouco de inveja, já que vocês conseguem sustentar o amor de vocês no meio de tanta coisa ruim que vem nos acontecendo! Espero poder fazer o mesmo, seja lá quem eu escolher para ficar ao meu lado!
- Eu sei que você vai conseguir! Quanto ao "quem", eu só tenho uma dica: escolha a pessoa que te faz sentir único, independente da aparência!
- Obrigado! Eu vou levar isso em consideração!
- Eu espero que sim! Agora eu preciso ir, pois o meu adorável priminho está me esperando e eu ainda tenho que pensar em um jeito de alocá-lo no meu alojamento, pois eu tenho a impressão de que ele não vai sair de lá tão cedo!
- Ele é realmente uma criança adorável! Pode dizer a ele que eu sinto muito por tê-lo amarrado, mas eu precisava que ele colaborasse durante a fuga! E desculpe por mais este incômodo que eu lhe causei!
- Eu vou dizer a ele! Quanto a ele ser um incômodo, eu discordo! Talvez ele tenha sido a segunda melhor coisa que você me trouxe de Pasine, depois de ter trazido o meu marido vivo! Bem, espero que você esteja se sentindo melhor! Você vai ter que passar a noite aqui e amanhã discutiremos a reorganização dos alojamentos, agora que temos mais moradores!

O fato de Rafael ter supostamente seduzido Hugo havia me surpreendido muito, visto que eu presumira que o meu primo não fosse se envolver com ninguém depois que Conde Rafael havia destruído a vida do próprio filho. Porém, sabendo da ineficácia do suposto tratamento do meu tio, não me surpreendia o fato de Rafael ainda ter desejos por outros homens. Independente disso, a relação entre ele e Hugo me trazia certo temor, já que Raul havia revelado que talvez ainda tivesse sentimentos pelo ex-namorado. Este tipo de situação não era ideal para o momento que vivíamos no vilarejo e eu, sinceramente, esperava que aquilo não abalasse o potencial de Raul de nos liderar em uma possível nova batalha contra Conde Rafael, visto que ele era o mais capacitado no momento para isso. Quando cheguei ao meu alojamento, Davi estava dormindo em minha cama.

- Ele parecia tão cansado, então o deixamos ficar na sua cama, mas ele acabou adormecendo!
- Tudo bem, acho que essa vai ter que ser a solução! Agora, eu só preciso encontrar um lugar para dormir!
- Você pode ficar com a minha cama irmão! Eu não a uso tão frequentemente e, nos últimos dias, não consigo me afastar da cama de Tomás!
- Eu já disse que eu estou me sentindo bem! Mas eu concordo Felipe, você deveria dormir na cama dele e nós podemos dividir a minha.
- Tem certeza?
- Mas é claro! Amanhã nós decidiremos como podemos alojar o seu primo mais adequadamente!
- Bem, então eu vou aceitar, porque eu estou exausto! Mas onde está o Raul?
- Ele saiu há alguns minutos, mas não disse aonde ia!
- Espero que ele não tenha ido visitar o Hugo!
- Por quê? Achei que eles tivessem se entendido em Pasine!
- Eles tiveram muito tempo para ressignificar o que aconteceu em Finnel!
- Tudo bem, eu vou contar algo muito importante, mas que não deve chegar ao conhecimento do Raul até que seja extremamente necessário!

Contei aos dois sobre a relação entre Hugo e Rafael, o que lhes surpreendeu tanto quanto a mim. Também lhes contei o que havia descoberto sobre a fuga de Finnel, o que levou bastante tempo. Quando terminei de atualizá-los sobre o que Hugo e Rafael haviam me contado, Raul ainda não tinha chegado e meu primo parecia estar em um sono profundo. Assim, considerando-se que eu estava exausto e tivera um dia cheio de tantas surpresas, dormir foi extremamente fácil.
Porém, no outro dia, fora novamente acordado por gritos. Quando saí para verificar a fonte da confusão, encontrei Raul agredindo Rafael no meio de outras pessoas que também faziam o mesmo. Assim, corri em direção à multidão e gritei:

- Parem! Achei que tinha ficado acordado que faríamos uma reunião antes de decidirmos o que fazer com o nosso prisioneiro! Estou certo?
- Felipe, não precisamos de uma reunião para decidir que o pai e ele já nos fizeram muito mal e merecem que a ira das famílias daqueles que morreram caia sobre eles!
- Escutem, eu tenho o direito de lhes dizer o que fazer, eu já deixei isso muito claro! Mas, em nome do bom senso, eu lhes peço que façamos a reunião do conselho antes de continuarmos com... isso...
- O que a reunião vai mudar em nossa decisão de fazê-lo sofrer? Não será apenas uma perda de tempo que acabará no mesmo fim?
- Talvez sim... Mas eu prefiro que tomemos essa decisão em um local calmo e usando de toda a nossa capacidade de analisar os fatos! Eu tenho algumas informações sobre este filho de Conde Rafael, o qual, como sabem, é meu primo! Eu não estou aqui para defendê-lo, mas também não posso deixar de interceder para que ele tenha um julgamento justo, considerando-se a nossa ligação. Prometo que serei imparcial na apresentação das informações que possuo e, aqui na frente de todos, abdico do meu voto no conselho como uma prova do meu comprometimento com as pessoas deste vilarejo.

As pessoas acataram o meu pedido e, assim, a decisão sobre o futuro de Rafael fora momentaneamente adiada para dali a uma hora, quando aconteceria a reunião do conselho. Algumas pessoas levaram Rafael de volta para o local de onde o haviam tirado e o resto se dispersou. Raul também estava indo embora, mas eu o interceptei.

- Raul! Por que você fez aquilo?! Eu achei que você tinha concordado com a minha decisão!
- Eu tinha... até conversar com o Hugo...
- O que ele te disse?
- Você sabe... ele me disse o que aconteceu entre eles nesse período...
- Eu sinto muito Raul! Eu...
- Não importa! Eu te disse que estava conformado com a minha sina! Desculpe pela confusão, eu perdi a cabeça!
- Está tudo bem, esquece isso! Mas, você vai ficar bem?
- Vou... eu sempre fico... Mas eu preciso espairecer! Nos vemos na reunião do conselho, tudo bem?
- Claro...

Raul estava, visivelmente, devastado e eu não podia suportar vê-lo daquela forma. Eu me sentia inútil, pois não sabia o que fazer para fazer aquilo menos devastador para o meu amigo. Como eu previra, o envolvimento de Hugo com Rafael havia trazido problemas para Raul. Aquilo, de certa forma, causara um pouco de frustração e raiva, pois eu estava planejando contar o que havia acontecido de forma menos drástica para Raul, mas Hugo se antecipara. Assim, fui ao local onde ele estava para tirar satisfações. 

- Hugo, eu não acredito que você...
- Como sempre, fazendo questão de ser notado onde quer que você entre!

Lá estava ele. Sentado na cama, sorrindo, com olhos alertas e, o melhor de tudo, vivo! Eu nem me importei de não terminar a frase que havia começado. Eu, simplesmente, corri para os seus braços, encostei-me em seu largo peitoral e lá me mantive, sem pressa e nem intenção de me afastar dele por incontáveis minutos. As lágrimas corriam de forma incontrolável e eu soluçava diante da reciprocidade do abraço do meu marido. Ele estava de volta e, naquele momento, era como se nunca tivéssemos nos separado.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Capítulo 3 - Gelo e Fogo (Cont.)

- Alguma pista Ethan?
- Ainda não Cho! Não tem muita coisa nessa sala sobre os próximos passos! - disse Ethan, o qual estava inspecionando as inscrições nas paredes há muitos minutos  - Basicamente, fala sobre a relação de Gélim e Flamus!
- Continua tentando, por favor Ethan! - disse Oliver - Agora, mudando de assunto, como você veio parar aqui Cho?a
- Eu não sei Oliver, eu estava correndo junto com os outros, mas então fomos emboscados novamente por uma criatura! - explicou Cho - A Sophie interveio e conseguiu conter a criatura, para que nós pudéssemos fugir, então eu corri, achando que os outros estavam atrás de mim! Mas eu acabei sozinha em um túnel e, quando tentei voltar para encontrar os outros eu acabei sendo atacada por uma criatura, a qual me mordeu e eu senti todo o meu poder deixar o meu corpo. Depois disso, eu não me lembro de mais nada a não ser acordar aqui.
- Espera... então você não tem mais poderes?!
- Bem... - Cho gesticulou, tentando invocar seus poderes, porém nada aconteceu - Aparentemente, sim! - ela tinha uma expressão muito triste no rosto - Eu não acredito! Como isso pode acontecer?!
- Cho - disse Gabriela, abraçando a elemental da eletricidade - Olhe pelo lado positivo, você ainda está viva!
- Eu sei Gabriela, mas ser uma elemental tem sido parte da minha vida há tanto tempo... Eu nem sei mais o que é ser uma garota normal!
- Eu sei o que você quer dizer! Mas pelo menos você não vai mais que ter que se preocupar com o bem-estar daqueles que você ama... - Pontuou Ethan. Então voltou a ler as frases na parede.

- Eu não entendo Marco - disse Themba, o qual estava materializado em um boneco de pedra e auxiliava Marco em sua forma de chimpanzé a andar. Sophie, a qual consistia em um aglomerado de água ambulante, os acompanhava - Por que você não pode se transformar em outros animais que possam andar normalmente?
- É difícil de explicar, eu não consigo mais mudar dessa forma física desde que fui ferido! - explicou o elemental dos animais - Eu geralmente posso usar as minhas células para criar novos animais e posso, inclusive, me transformar por completo em algum animal específico, como eu fiz quando estávamos fugindo. Eu não tenho mais forma humana, então essa forma foi a mais similar que eu consegui pensar na hora.
- Mas, por que nós conseguimos entender o que você fala? Chimpanzés não falam! - disse Sophie.
- Bem, basicamente, eu alterei a morfologia do cérebro e das estruturas responsáveis pela fala no meu eu-chimpanzé - explicou Marco, mas vendo as expressões confusas de Sophie e Themba, ele complementou - Olha, sabe quando você cria redemoinhos de água no ar ou quando o Themba faz a terra virar monólitos? Basicamente, o que vocês estão fazendo é alterar a estrutura dos seus elementos para que eles façam coisas que não fariam sem o seu controle. A diferença é que eu altero as estruturas de animais para fazerem coisas que eles não fazem normalmente.
- Eu nunca parei para pensar nisso dessa forma! - disse Themba - Você é muito inteligente Marco!
- É verdade! Você deveria se tornar um cientista, professor ou algo do tipo! - complementou Sophie - Você já pensou em ir para a universidade?
- Sinceramente, eu não sei...
- Você definitivamente deveria pensar a respeito e, para a sua sorte, o Reino Unido tem excelentes universidades e você pode... - Sophie foi interrompida por um grunhido vindo de alguma porção do túnel a frente deles - Espero que isso não seja o que eu estou pensando!

- Mas, por que eu ainda tenho os meus poderes? - Indagou Gabriela.
- Como nós pensamos, o processo que nos trouxe de volta à forma humana não é o mesmo que transformou a Cho - respondeu Oliver - Afinal, eu e o Ethan não sugamos os seus poderes do seu corpo!
- Eu agradeço por isso!  - disse Gabriela rindo.
- Gente! - exclamou Ethan, ainda olhando para as paredes da câmara onde estavam - Acho que encontrei algo: "os quatro escudeiros de Flamus que habitam esta câmara guardam a entrada do santuário onde descansa o Imortal do fogo".
- Então nós só precisamos encontrar a porta para o tal santuário! As setas nos trouxeram ao lugar certo!
- Eu estou preocupada com a matemática implicada neste trecho que o Ethan acabou de ler - disse Gabriela - Se vocês destruíram duas criaturas, ainda restam outras duas! Nós precisamos achar essa porta antes que as outras duas criaturas achem o caminho de volta para o "quarto"!
- Ela tem razão! Além disso, vocês voltaram à forma humana e não podem usar os seus poderes com tanta intensidade!
- Eu concordo Cho! Mas pelo menos agora nós podemos ficar na mesa sala sem termos que nos preocupar em ferir os outros! O nosso grupo reuniu os poderes mais contrastantes!
- Por falar em grupo, a Alba não tinha ficado com vocês?
- Tudo bem, nós precisamos conversar Cho...

- Fiquem atrás de mim! - gritou Themba - Barreira dupla de pedra!
- Themba, eu tive uma ideia! - disse Sophie, a qual estava afastada alguns metros do elemental da terra na companhia de Marco. Enquanto isso, Themba continha o avanço da criatura que os tinha atacado - Você consegue construir uma piscina de pedra? Talvez nós pudéssemos afogar essa criatura!
- Ótima ideia Sophie! - respondeu Themba, o qual prontamente começou a transformar parte do solo em uma grande estrutura de pedra em formato retangular - Eu estou pronto Sophie!
- Tudo bem, agora é a minha vez - a elemental plasmou uma enorme quantidade de água do seu corpo até que a estrutura retangular que Themba havia construído estivesse cheia - Pronto! Agora preste muita atenção, nós vamos nos posicionar atrás da piscina e você vai desfazer a barreira. Então, eu vou controlar o avanço da criatura até que ela caia na piscina.  Assim que isso acontecer, você sela a piscina e deixa a criatura se "apagar"!
- Entendido! Você está pronta?

- Talvez você devesse usar os seus poderes na câmara Ethan! - pontuou Oliver - Assim como os meus poderes revelaram coisas ocultas, os seus também pode revelar algo que não estamos vendo! Afinal, você é um filho de Flamus!
- Você tem razão Oli! Saiam da câmara, eu vou ter que incendiar tudo!
- É assim que se fala Ethan! - incentivou Gabriela - Estaremos lá fora.

- Pronto! - disse Themba, selando a piscina na qual ele e Sophie tinham feito a criatura cair - Espero que o seu plano dê certo! Mas eu acho melhor não ficarmos aqui para descobrir! Vamos tirar o Marco daqui! - ele pegou o elemental dos animais nos braços e o colocou em seu ombro.
- Eu concordo! Além disso, precisamos achar a Gabriela, pois ela deve saber algum tipo de planta que ajude o ferimento do Marco a cicatrizar mais rápido - disse Sophie, enquanto começavam a caminhar pelo túnel a frente deles.
- Muito obrigado gente! Eu... - Marco foi interrompido pelo barulho causado pela criatura ao sair da piscina que Themba havia construído - Bem, aparentemente, o plano não deu certo... - disse ele consternado - Essa criatura parece bem mais forte do que a outra, então vocês precisam fugir!
- Marco, nós não vamos te deixar aqui! Vamos continuar lutando! - respondeu Themba, veementemente - Eu vou ficar do seu lado, mesmo que precise repetidamente selar essa criatura em caixas de pedra!
- Pode contar comigo também!
- Isso seria uma perda de tempo! Vocês deveriam fugir e tentar encontrar os outros!
- Eu já disse que não vou te deixar Marco! Nós somos amigos!
- Eu sei! É por isso que eu não tenho escolha... - disse Marco, pulando dos ombros de Themba e invocando dois elefantes, os quais se interpuseram entre ele e os outros dos elementais - Vocês precisam ir! Eu vou ficar!
- Marco, isso é ridículo! Deixe-nos passar - Sophie tentava passar pelos dois elefantes, os quais eram anormalmente grandes, de modo a bloquear completamente a passagem - Você não precisa fazer isso!
- Eu só estou atrasando vocês! Eu fico honrado de poder me sacrificar para que vocês possam sair daqui! - Marco andava até a criatura - O meu amigo vai ajudar vocês a encontrar os outros, ele já conhece o cheiro deles - Nesse momento, um pastor alemão apareceu perto de Themba e Sophie - Os meus amigos grandões farão o possível para bloquear a passagem o maior tempo possível! Eles são muito fortes e corajosos (nesse momento os dois elefantes bramiram como sinal de concordância), além disso, eu fiz a pele deles ser mais resistente do que o normal! Adeus amigos! - Assim, Marco se entregou à criatura, que o envolveu em suas chamas.
- Não! - Sophie tinha acabado de utilizar a fluidez do seu corpo liquido para ultrapassar a barreira imposta pelos elefantes - Marco! Por toque? - A elemental, prontamente, começou a atingir a criatura com jatos de água - Você vai pagar por isso!
- Sophie, o que aconteceu?! - perguntou Themba, o qual não conseguia ver o que estava acontecendo.
- A criatura... - ela continuava a atingir a fera de fogo com jatos de água - consumiu o Marco... ele... ele se foi - Sophie não conseguia conter as lágrimas.
- O que?! Mas... - Themba ficou calado por vários segundos, até que, finalmente, disse: - Sophie... talvez nós devêssemos fazer o que o Marco disse... - ele também não conseguia conter as lágrimas, mas estava tentando ser racional - Ele queria que fosse assim! Precisamos achar os outros!
- Mas Themba... nós precisamos vingar o Marco! - disse Sophie, veementemente.
- Olha, ele sabia que nós não conseguiríamos vencer essa criatura, então nos deu alguns minutos de vantagem! Por alguma razão, nossos poderes, mesmo combinados, não são suficientes!
- Mas... - Apesar da vontade de continuar lutando para vingar o amigo, Sophie, bem no fundo, sabia que Themba tinha razão - Tudo bem... - ela atacou a criatura pela última vez, então correu, passou pelos elefantes e se juntou a Themba, o qual também estava pronto para fugirem daquele local - Vamos! Guie-nos garoto! - Assim, o eles começaram a seguir o pastor alemão que Marco havia deixado para eles, o qual já começara a farejar o caminho. Quando já haviam percorrido alguns metros, ouviram os elefantes bramindo mais intensamente.

- Não está dando certo! - gritou Ethan, enquanto invocava uma imensa tempestade de fogo que consumia toda a câmara na qual ele estava - Nada mudou na sala.
- Continue tentando! - gritou Oliver, o qual estava do lado de fora da câmara com as outras duas elementais - Mas tome cuidado, não esqueça que agora você está na sua forma humana!
- Ethan, talvez o que você procura seja um sinal pequeno - complementou Cho - Fique de olho em todos os cantos da sala!
- Tudo bem, vou continuar tentando! - disse o elemental do fogo, intensificando a tempestade criada por ele.

- Garoto, eu não quero apressar o seu trabalho, mas nós estamos com um pouco de pressa! - disse Themba. O pastor alemão respondeu com um latido, então continuou a farejar o caminho - Já sei o que posso fazer! - ele criou uma barreira de pedra atrás deles - Já que o nosso amigo sabe o caminho, nós não precisaremos voltar, então não há problemas em selar as partes do túnel atrás de nós! Isso vai nos ganhar algum tempo, caso... ou melhor, quando aquela criatura passar pelos mega elefantes!
- Ótima ideia! - disse Sophie - Você acha que já estamos perto dos outros?
- Talvez! Veja só essas marcas na parede! - disse ele, apontando - Parecem setas e estão levando exatamente para onde estávamos indo! Talvez os outros estejam no lugar para onde essas setas levam! - Nesse momento, o cachorro começou a latir de forma cada vez mais aguda, então caiu no chão, imóvel. Pouco tempo depois, o animal desapareceu - Isso não é nada bom!
- O que aconteceu?! - perguntou Sophie, com expressão muito assustada.
- Eu não sei! Mas eu acho que... os animais não existem sem o Marco e... eu acho que ele se foi de vez...
- Então, todo esse tempo, ele ainda estava sendo... consumido? - Os olhos de Sophie estavam arregalados e as lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto novamente.
- Sophie, não havia nada que pudéssemos fazer! Se houvesse, eu teria feito!
- Mas ele sofreu... ele passou vários minutos sofrendo...
- Eu sei, mas eu prefiro não pensar sobre isso, ou eu não conseguirei seguir em frente! Mas nós precisamos, pelo Marco! e pelos outros! - disse Themba - Vamos seguir essas setas e ver para onde elas levam!

- Eu achei! - disse Ethan, o qual sorria enquanto olhava para um pequeno triângulo incandescente na parte inferior de uma das paredes da câmara. O mesmo símbolo que ele vira seis anos atrás, quando foi levado até Flamus. Ele cessou a tempestade de fogo e direcionou uma rajada de fogo para o triângulo - Aperi! - Imediatamente, uma porta se formou no lugar onde antes estava o símbolo de Flamus - Gente, vocês precisam ver isso!
- O que foi? - Oliver e os outros correram ao encontro de Ethan. Quando o elemental do gelo viu o que Ethan havia mencionado, disse: - Esse é o...
- Flamus! - disse Gabriela, animada - Nós o encontramos!
- Sim! Finalmente!
- Então esse é o Flamus! Ele é lindo! - comentou Cho.
- Sim! Muito lindo! - disse Oliver.
- O que?! - reclamou Ethan.
- Ethan, cala a boca a acorda logo ele, antes que alguma daquelas criaturas apare... - A fala de Oliver foi interrompida pelo ataque de uma fera e fogo, a qual derrubou Ethan no chão - Ethan! Não acredito! - ele, rapidamente, invocou uma nevasca - Larga ele!
- Eu estou perdendo os meus poderes! Me ajudem! - disse Ethan, com tom de voz bastante fraco. Ele estava preso sob o corpo da criatura, a qual estava lentamente absorvendo a essência elemental de Ethan.
- Os meus poderes são inúteis Oli! Desculpa! - disse Gabriela, em tom triste. Ela e Cho haviam se posicionado atrás de Oliver quando a criatura atacara.
- Eu nem possuo mais poderes!
- Tudo bem garotas! Eu vou ter que dar conta disso! Afinal, se o Ethan perder os poderes, nós nunca conseguiremos acordar Flamus e, consequentemente, nunca sairemos desse lugar!

- Mas e agora? - disse Sophie, olhando para o rio de lava - As setas terminam aqui!
- Espere aqui! - Themba construiu uma ponte de pedra até o outro lado do rio, onde o túnel continuava e caminhou até o local - Não há mais setas aqui! Então esse não é o caminho certo! - Ele voltou para o lado onde havia deixado Sophie, então disse: - Eu tive outra ideia! Mas isso vai requerer muito poder! Fique de olho no rio Sophie! - O elemental da terra construiu uma barreira no leito do rio de lava, a qual durou apenas cinco segundos, frente ao grande fluxo, mas foi o suficiente para confirmar a teoria do rapaz - Você viu?
- Sim! Eu vi uma seta no chão! Acho que devemos seguir o curso do rio naquela direção! - disse Sophie, apontando para o curso do rio.
- Tudo bem, eu sei o que fazer! - Themba fez pilares surgirem por toda a extensão visível do rio, então conectou os pilares e formou uma enorme ponte de pedra - Sorte nossa que eu estou na minha forma elemental, porque a essa altura eu já estaria petrificado ou teria virado poeira se estivesse na minha forma humana! Vamos logo Sophie, eu não sei quanto tempo esses pilares irão aguentar a força do rio!

- A criatura não está soltando o Ethan! - disse Oliver, em desespero - Eu estou usando o máximo de poder que posso, sem perder o controle! Mas a criatura está apenas derretendo o gelo! Que estupidez da nossa parte voltarmos à nossa forma humana!
- Calma Oli - disse Gabriela - Você está dando o melhor de si!
- É verdade Oliver! - complementou Cho.
- Oliver... - Ethan estava, visivelmente, no limite.
- Você não vai levar outro dos meus amigos! - disse Sophie, lançando um jato de água sobre a criatura, o qual, associado aos poderes de Oliver, fez a criatura congelar no lugar onde estava. Ethan conseguiu se libertar e correr para onde os outros elementais estavam.
- Amigos! Você conseguiram!
- Muito obrigado Sophie! Agora nós podemos, definitivamente, acabar com essa criatura!
- Definitivamente!
- Não se esqueçam de mim! Mas, por que vocês voltaram à forma humana?! - perguntou Themba - Como isso aconteceu?
- É uma longa história! Mas, antes de te contar, temos outras coisas para resolver! - respondeu Oliver, apontando para a criatura, a qual estava livre novamente - Ethan, Gabriela e Cho, fiquem atrás de nós! Estão prontos para acabar com essa criatura!
- Claro!
- Só se for agora! - Themba invocou uma caixa de pedra, a qual encurralou a criatura em um espaço fechado. Enquanto isso, Sophie e Oliver combinaram seus poderes para preencher a caixa com água e, posteriormente, gelo. Desse modo, a criatura ficou presa em um bloco gigante de gelo, o qual estava sendo constantemente mantido sólido pelos elementais do gelo e da água.
- Essa foi por pouco! - disse Ethan, ainda debilitado.
- Vai ficar tudo bem! O Oliver sabe o que está fazendo!
- Eu não tenho dúvidas - o elemental do fogo mantinha os olhos fixos em Oliver, admirando a forma como o elemental do gelo estava conduzindo as coisas. Há algum tempo, os dois haviam conversado sobre a possibilidade de Oliver liderar o grupo de elementais, mas ele nunca aceitara a ideia porque achava que não tinha espírito de liderança. Ethan nunca estivera tão feliz de ver que Oliver estava errado sobre alguma coisa.
- Gabi! Você consegue produzir algum tipo de remédio para acelerar a recuperação do Ethan, utilizando os seus poderes?
- Talvez ginseng possa melhorar a fadiga! - a elemental das plantas produziu alguns exemplares - Eu vou preparar um tônico!
- Ótimo! Mas, por favor, faça isso o mais rápido possível! - disse Oliver, decidido - Eu acho que podemos derrotar a criatura, mas vou precisar da ajuda do Ethan!
- Eu posso ajudar! - disse o elemental do fogo, tentando se levantar.
- De jeito nenhum - disse Cho, impedindo Ethan - Se você tentar usar os seus poderes nesse estado, provavelmente vai se consumido pelas chamas!
- Ela tem razão amigo! Acho melhor você esperar o tônico que a Gabriela está preparando fazer efeito! Assim você pode nos ajudar mais! -pontuou Themba.
- Vocês estão certos! É só que... vocês salvaram a minha vida... eu queria poder retribuir o favor!
- É claro que nós te salvamos bobo! Você é nosso amigo! - disse Sophie - Não se preocupe conosco! Nós somos fortes! Além disso eu e o Themba ainda estamos em nossa forma elemental, o que significa que temos poder praticamente ilimitado! Agora, Oliver... você, definitivamente, deveria descansar e tomar um pouco do tônico que a Gabriela está fazendo! Se vocês dois vão utilizar os poderes para derrotar a criatura, você precisa estar descansado!
- Eu concordo! Vem aqui Oli!
- Vocês têm razão! - respondeu Oliver - Mas, se eu parar, a criatura vai se libertar!
- Deixa com a gente! Certo Sophie?
- Com certeza! - respondeu a elemental da água, confiante.

Vários minutos se passaram, nos quais Themba e Sophie utilizaram os seus poderes para manter a criatura imersa em água dentro de uma caixa de pedra. Porém, logo chegara o momento em que os elementais do gelo e do fogo poderiam combinar os seus elementos novamente.

- Você está pronto? - perguntou Oliver, segurando a mão direita de Ethan.
- Sempre, com você ao meu lado! - os dois caminharam de mãos dadas e se posicionaram ao lado de Themba e Sophie, os quais pareciam surpresos com a evidente relação entre Oliver e Ethan, mas não mencionaram nada - Vocês dois foram sensacionais! Mas agora é a nossa vez! Muito obrigado por enfraquecer a criatura para nós!
- Pode apostar amigo! Mas qual o plano?
- Nós, acidentalmente, derrotamos duas dessas criaturas utilizando uma combinação dos nossos poderes!
- Sério?! - perguntou Themba, confuso - Isso parece impossível!
- Foi o que nós pensamos! - respondeu Ethan - Mas, aparentemente, gelo e fogo podem se combinar de uma forma inimaginável! Olhem só! Vamos lá Oli! 3...2...1...agora! - uma rajada mista de gelo e fogo percorreu a distância entre eles e a criatura, a qual foi atingida em cheio e, prontamente, se tornou um bloco inanimado de cristal de gelo.
- Mas o que foi isso?! - perguntou Sophie, extremamente surpresa - Isso foi incrível! Onde vocês aprenderam essa técnica?
- Como eu disse, foi acidental! Mas, aparentemente, essa técnica foi criada por Gélim e Flamus para ser usada pelos elementais de gelo e fogo!
- Será que todos os elementais de gelo e fogo estão destinados a se amar? - disse Sophie, rindo. Aparentemente, derrotar a criatura deixou o clima na câmara bem mais leve.
- Eu não sei! Mas isso, com certeza, é verdade para a dupla de elementais que vocês estão vendo - Ethan continuava segurando a mão de Oliver - Porque eu amo muito esse carinha!
- Mas o que está acontecendo? - disse Cho olhando para a própria mão, da qual emanava uma corrente elétrica - Eu achei que tinha perdido os meus poderes!
- Então você ainda é uma elemental!
- Sim! Eu ainda sou a elemental da eletricidade!
- Isso é muito bom Cho! Bem-vinda de volta ao mundo elemental!
- Isso é realmente muito bom! E vai ficar ainda melhor quando eu despertar Flamus! - disse Ethan, caminhando em direção ao leito no qual repousava o Imortal do fogo. Quando chegou perto, proferiu as seguintes palavras: - expergiscere igne tiger!
- Satis! - disse o Imortal do fogo, olhando para a entrada na câmara, na qual estava a última criatura guardiã do santuário.
- Flamus! Você está vivo e acordado!
- Sim! Graças a vocês! - responde o Imortal em tom calmo, olhando para cada um dos elementais presentes no local.

Assim, o objetivo dos elementais tinha, finamente, sido alcançado. Apesar de algumas perdas, agora o grupo estava reunido novamente e eles tinham conseguido acordar um dos Imortais. Agora poderiam sair da caverna onde tinham entrado com muitas dúvidas e, com sorte, eles obteriam as respostas.