terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Capitulo 6 - Revolução: Pasine

A casa de William e Tomás não era longe da praça onde eu estava, então, em questão de segundos, eu adentrei o local e encontrei William. O meu irmão estava deitado em uma mesa, a qual estava rodeada de pessoas. Eu imediatamente notei o motivo do pânico na voz da pessoa que e alertou sobre William, afinal ele estava bastante pálido, o que indicava grande perda de sangue, e havia uma enorme atadura em volta do seu estômago, a qual estava ensanguentada, portanto, provavelmente, ocultava um grande corte nessa região. Assim que cheguei perto de William, eu disse:

- O que aconteceu William?
- Oi irmão... que bom te ver de novo! Bem, isso é um efeito colateral da nossa conquista...
- Como assim?
- Bem... nós chegamos em um vilarejo a oeste daqui. A princípio, nós achamos que era um vilarejo pacífico e indagamos sobre a lealdade deles a Conde Rafael. Porém, infelizmente, aquele era mais uma base do seu tio, de modo que eles nos atacaram e surpresa ao tomarem conhecimento das nossas intenções. Para resumir, houve uma batalha e eu acabei sendo ferido por uma espada... Mas, para compensar, nós ganhamos a batalha, aprisionamos os derrotados e o guerreiro que empunhava a espada já não está nesse mundo.
- Mas você vai ficar bem William?!
- Vou sim irmãozinho! Eu só preciso de alguns dias para me recuperar! De qualquer modo, eu fico feliz de ver que você se preocupa comigo!
- É claro! Você não pode chegar, me dizer que é meu irmão e então me deixar!

Eu e William riamos do meu comentário quando Tomás chegou no local, extremamente alterado. Porém, depois que o próprio William explicou que estava tudo bem, ele ficou mais calmo.

- Não faça mais isso! Eu não posso chegar de uma missão e descobrir que o meu marido está ferido! Assim eu vou ter um ataque do coração qualquer dia!
- Fique tranquilo! Eu ainda estou aqui! Além disso, você prometeu me amar na saúde e na doença, lembra?
- Sim, eu lembro perfeitamente Sr. William!

Depois desse breve susto, Tomás e o resto do último grupo que havia partido para o sul, infelizmente, relataram que o vilarejo no qual eles haviam estado não era aliado de Conde Rafael, porém eles não queriam participar de nenhum tipo de aliança com o nosso vilarejo. Assim, apesar de algumas pessoas terem sido feridas nas missões, o nosso saldo foi bastante positivo, pois agora tínhamos dois novos vilarejos aliados e um outro dominado pelos nossos guerreiros.
Depois dessas missões exploratórias, William levou algum tempo para se recuperar, porém, assim que possível, ele voltara a treinar os nossos novos e antigos guerreiros. Ele, Raul e Tomás realizaram um excelente trabalho e militarizar o nosso vilarejo, além disso, novas missões exploratórias e de aliança foram realizadas com a ajuda de todos o que agora se identificavam como finnelianos ou aliados do nosso povo. Bernardo também continuou na sua função de construtor, já que o constante fluxo de pessoas pelo nosso vilarejo exigia constante modificação da infraestrutura e, principalmente, construção de novas casas.
Desse modo, aproximadamente três meses se passaram, nos quais Finnel prosperou e se expandiu bastante. Muitos dos vilarejos concordaram em se fundir a Finnel, embora alguns tenham preferido se manter autônomos e apenas estabelecer alianças comerciais ou mesmo na luta contra Conde Rafael. Casas e campos de treinamento floresceram por toda a extensão do original vilarejo de Finnel e também dos vilarejos que se fundiram a ele. Nossas alianças comerciais também prosperaram bastante e as nossas conquistam estavam nos fazendo cada vez mais fortes. Algumas pessoas até passaram a se referir a Finnel como um novo reino, mas nós tínhamos consciência de que nós ainda precisávamos nos fortalecer muito para sermos considerados um verdadeiro reino. Porém, em certo momento, eu e o resto do grupo de planejamento sentimos que Finnel, aparentemente, estava preparado para um outro grande passo em nossa jornada:

- Então vocês concordam que nós estamos preparados para um ataque direto ao reino do meu tio?
- Definitivamente, Felipe! Pasine é um reino extremamente militarizado, mas eu acho que nós conseguimos evoluir bastante nesse sentido durante esses últimos meses!
- Isso é verdade Felipe! Eu acho que nós estamos preparados! Além disso, nós precisamos aproveitar que o seu tio, aparentemente, não sabe da nossa expansão para realizar um ataque surpresa! Se nós esperarmos mais para fazer isso, talvez possamos perder o elemento surpresa!
- O Raul tem razão! Nós nos expandimos bastante durante esses meses e é impossível que isso não seja notado em breve por alguém que seja aliado do seu tio!
- Isso faz sentido! Bem, nós precisamos comunicar às pessoas do nosso vilarejo que isso vai acontecer em breve então! Precisamos enviar mensageiros às outras partes do vilarejo também!
- Posso solicitar a algumas pessoas do meu grupo para se encarregarem dessa parte!
- Perfeito Tomás, então você fica responsável por isso! Eu fico responsável por comunicar isso oficialmente para os moradores daqui! Quanto aos demais, organizem os grupos de vocês para solicitarem aos moradores o comparecimento à praça central ao meio dia.

Ao meio dia, eu comuniquei aos moradores do nosso vilarejo que dali a sete dias nós partiríamos em direção a Pasine, o reino do meu tio, para realizar um ataque direto. Todas as pessoas, apesar de surpresas e um pouco apreensivas, demonstraram apoio à nossa decisão. Além disso, vários homens se deslocaram em direção aos outros vilarejos componentes de Finnel, os quais, possivelmente, também concordariam com a ofensiva. Depois do pronunciamento, eu me reuni com o grupo de preparação de comida, o qual estava sendo liderado por Hugo:

- Bem, nós estamos com problemas com alguns suprimentos, os quais deveriam ser repostos urgente, ou então teremos que racionar a comida! Aqui está a lista!
- Obrigado Hugo, eu vou enviar um grupo para conseguir estes suprimentos com os nossos aliados assim que possível! Agora, mudando de assunto, como você está? Eu ando tão ocupado, que nunca mais nos falamos!
- Ah, eu estou bem Felipe! Obrigado por se preocupar! Obrigado também por ter me deixado continuar no vilarejo e ser meu amigo, mesmo depois de... você sabe, depois do que eu fiz...
- Que isso Hugo! Eu não tenho qualquer poder para te expulsar do vilarejo, já que você contribui com a nossa sociedade! Além disso, eu não guardo mágoas e espero, de verdade, que você encontre alguém que te faça feliz!
- Muito obrigado Felipe! Você é uma ótima pessoa!

Depois disso, eu tive outras reuniões com outros grupos do vilarejo, o qual é composto por vários grupos operacionais, os quais são interdependentes. O grupo de preparação de comida, por exemplo, realiza essa tarefa para apoiar e nutrir as pessoas que trabalham em outras tarefas no vilarejo. Além disso, este grupo também distribui diversos suprimentos para os moradores que prepararam suas próprias refeições. Os nossos suprimentos, atualmente, provêm tanto da nossa própria produção como de outros vilarejos que nos fornecem produtos ou serviços em troca de outros produtos/serviços.
No fim do dia, eu estava cansado, como usualmente acontecia. Porém, eu jamais deixaria isso influenciar o meu tempo com Bernardo. Naquele dia, nós havíamos resolvido ir até uma cachoeira perto do vilarejo, assim, quando eu cheguei em casa, eu indaguei:

- Os cavalos estão selados?
- Não meu amor! Eu... você se importa se nós não formos hoje à cachoeira?
- O que? Claro que não! Eu também não estava tão afim! Eu estou tão cansado hoje!
- Eu também! Nossa, veja só o que nós nos tornamos! Parece que estamos casados há décadas e nós ainda nem nos casamos propriamente!
- Bem, eu acho que nós estamos tendo uma experiência de uma vida inteira, então nós temos o direito de nos sentirmos cansados!
- Bem, amanhã nós completaremos cinco meses de "casados", então o que acha de nós diminuirmos a nossa carga de trabalho e fazer um piquenique próximo da cachoeira?
- Soa perfeito! Você sempre tem boas ideias!

Nós realizamos o nosso piquenique no dia seguinte e tudo pareceu perfeito. Nós passamos a tarde conversando à beira da cachoeira, comemos deliciosos aperitivos generosamente doados por Hugo, nos refrescamos na água, nos beijamos e tivemos momentos intensos. Eu desejava que aquela tarde nunca tivesse fim, pois, de certa forma, eu sabia que dali a seis dias tudo em nossas vidas iria mudar.
Nos dias que se seguiram, nós recebemos respostas positivas dos outros vilarejos em relação à ofensiva contra Pasine e, na manhã do sétimo dia depois do meu pronunciamento, nós partirmos em direção ao reino do meu tio. Apesar de nós dizermos que o ataque era direto, na verdade a nossa estratégia consistia em infiltração discreta nos domínios de Pasine, para podermos, idealmente, surpreender e dominar o exército de Conde Rafael.
Pasine ficava a norte de Finnel e a viagem duraria, em média, quatro dias. Nós usamos cavalos para realizar a viagem e, no primeiro dia, nós seguimos as trilhas que passavam pelos nossos vilarejos aliados ao norte, de modo que não precisaríamos nos preocupar em passar por um vilarejo aliado de Conde Rafael e arriscar perder nosso elemento surpresa. Ao fim do primeiro dia, nós descansamos em um desses vilarejos. Houve uma breve ceia, porém todos foram dormir cedo, pois seguiríamos viagem ao amanhecer do próximo dia. Durante o segundo dia de jornada, Raul aproximou o seu cavalo ao meu e disse:

- Oi Felipe! Eu não tive a oportunidade de agradecer pelo conselho que você me deus há alguns meses atrás, mas fico feliz em dizer que ele me ajudou a encontrar outra pessoa, com a qual eu consigo ser eu mesmo e que me ama!
- Nossa! Isso é muito bom Raul! Quem é?
- Paulo, do grupo de construção de casas!
- Ah, que bom! Aquele rapaz enorme que trabalha com o Bernardo?
- Exatamente! Inclusive foi o Bernardo quem nos apresentou formalmente! Você sabe que eu não conheço mais todas as pessoas que vivem no nosso vilarejo, mas eu não pude deixar e notá-lo!
- Nem que você quisesse! O rapaz é bem maior que você, e olha que você já é bem grande comparado a mim! Bem, enfim, fico feliz que você esteja amando novamente! Que dessa vez dê tudo certo!
- Que assim seja! Bom, era isso o que eu tinha para dizer! Eu quero que você saiba que eu sou muito agradecido pelo seu conselho! Às vezes, tudo o que uma pessoa precisa é receber um conselho sincero.
- Que bom que isso te ajudou! Fico muito feliz por você!

Ao fim do segundo dia, nós tínhamos alcançado, tecnicamente, a fronteira de Finnel, já que nós estávamos no último vilarejo que fazia parte da nossa recém-criada sociedade. Nos dias seguintes, nós estaríamos viajando em terras totalmente desconhecidas. Assim como no outro dia, houve uma breve ceia e eu realizei um breve discurso encorajando as pessoas que estavam na missão. Depois disso, a maioria das pessoas foi dormir, mas eu ainda queria conversar com Bernardo:

- Amanhã nós teremos que ser muito cautelosos durante a nossa jornada!
- Eu sei, mas eu tenho certeza que tudo vai dar certo e nós vamos conseguir chegar a Pasine!
- É... O problema, na verdade, é o que vai acontecer lá! Bernardo, se algo acontecer, eu quero que você saiba...

Ele não deixou que eu completasse a frase. Sem hesitar, Bernardo me beijou e tocou o meu corpo do modo como só ele faz. A despeito de seu porte, Bernardo sempre é preciso em seu toque, pois ele não é bruto e nem delicado demais. A suavidade do seu toque me faz esquecer do que eu queria dizer e eu simplesmente me deixo envolver em seus braços. Depois de longos e maravilhosos momentos em seus braços, entre beijos e carícias, Bernardo me disse:

- Nós não precisamos pensar no que vai acontecer daqui a dois dias! Apenas saiba que eu te amo e que nada vai nos separar! Nem mesmo se o pior acontecer, por que você tem um lugar permanente aqui.

Bernardo guiou a minha mão direita em direção ao lado esquerdo do seu peito. Sentindo o seu coração pulsar, eu adormeci em seus braços. No terceiro dia, um dos homens que fazia parte do vilarejo no qual nós havíamos pernoitado nos guiou. Este homem estava acostumado a viajar em direção ao norte, devido aos anos em que ele partiu do seu vilarejo em direção a Pasine, para realizar trocas comerciais. Nesse sentido, ele era a pessoa mais indicada para guiar o nosso grupo. Durante a jornada, eu aproveitei que a liderança estava parcialmente nas mãos de outra pessoa, para confirmar os detalhes do plano de invasão com Tomás e William:

- Então nós vamos nos dividir na fronteira de Pasine, de modo que pequenos grupos vão adentrar o reino nestas carruagens carregando baús contendo as nossas armas, as quais, entretanto, estarão misturadas com suprimentos, supostamente, destinados a serem trocados no mercado do reino.
- Certo! O resto das pessoas entrará no reino como meros comerciantes que desejam realizar algum tipo e troca no mercado. Os grupos com as armas devem encontrar um local adequado para nós nos encontrarmos. Essa é a parte mais crítica do plano, já que nenhum de nós jamais esteve em Pasine, porém, assim que eles encontrarem tal local, devem enviar mensageiros para os demais, os quais estarão de fato aguardando no mercado de trocas do reino.
- Isso! Então, assim que todos os nossos guerreiros estiverem armados e preparados, nós invadiremos o castelo de Conde Rafael e, com a ajuda dos céus, dominaremos o seu exército!
- Bem, pelo menos nós temos um plano! De qualquer forma, a nossa causa está evoluindo e, aconteça o que acontecer, nós faremos a diferença daqui a um dia.

A paisagem, progressivamente, começou a mudar durante aquele dia. Nos domínios de Finnel e um pouco mais ao norte, a paisagem consistia, predominantemente, em planícies e florestas pouco densas, Porém, conforme nós avançávamos em direção ao norte, o relevo mudou para planaltos, montanhas e florestas que pareciam não ter fim. Na noite do terceiro dia, nós acampamos em uma clareira, sendo que a nossa ceia foi mais breve e escassa em relação à realizada no dia anterior. A paisagem parecia anunciar que as coisas seriam bem diferentes dali para frente.
No amanhecer do quarto dia, todos pareciam sentir a importância do que estava para acontecer. Assim, eu fiz um breve discurso motivacional e então nós partimos em direção a Pasine. Após algumas horas de caminhada, nós enfim chegamos ao nosso destino e, diferente do que eu imaginava, Pasine era um lugar muito bonito. A paisagem tornava o reino do meu tio muito sedutor e aparentemente acolhedor, o que destoava bastante do seu governante.
Assim que nós nos aproximamos da entrada do reino, nós nos dividimos em grupos. Desse modo, cada grupo, com um intervalo de alguns minutos entre eles, adentrou a cidade carregando vários baús em carruagens, conforme nós havíamos planejado. Alguns guardas estavam na entrada do reino e, superficialmente, inspecionaram as nossas carruagens. Porém, a despeito dos nossos temores, todos os grupos foram bem-sucedidos em adentrar o reino. Posteriormente, o resto dos nossos homens adentrou a cidade em grupos ainda menores de, no máximo, quatro pessoas, até que, finalmente, todos nós tínhamos adentrado Pasine, o reino de Conde Rafael.
Eu e o resto das pessoas que adentraram a cidade como meros comerciantes nos dispersamos pelo mercado de trocas de Pasine, a fim de esperar pelo sinal dos grupos que carregavam o nosso armamento. Nós estávamos visivelmente separados, porque não queríamos chamar a atenção, mas nunca deixávamos de notar os movimentos uns dos outros, a espera de visualizar quando uma das pessoas do outro grupo fizesse contato com alguém que estava no mercado. Além disso, eu e algumas das pessoas que estavam presentes no dia da conquista de Finnel estávamos utilizando disfarces, para evitar sermos reconhecidos. Porém, o meu disfarce me pareceu insuficiente quando, em um momento de distração, eu esbarrei com o meu tio:

- Olhe por onde anda, seu imbecil!

O meu disfarce, assim como a minha voz, pareceu sumir diante da ameaça de ser reconhecido por Conde Rafael. Porém, rapidamente, eu me obriguei a recuperar a minha habilidade de falar e, a invés de gritar que nós estávamos ali para acabar com ele, eu disse ao meu tio:

- Eu peço o seu perdão meu rei!
- Hum... tudo bem! Suma daqui! E jamais diga que eu não sou uma pessoa generosa!

Eu me afastei o mais rápido possível do local e, logo em seguida, encontrei Bernardo, que estava em um dos grupos de armamento, o qual me disse:

- Meu amor, aconteceu alguma coisa? Você está pálido!
- Agora está tudo bem! Mas eu acabei de encontrar o meu tio! Nós precisamos sair daqui! Vocês já encontraram um bom local para nós nos prepararmos para a invasão?
- Já meu amor! Vamos, rápido!

Os grupos se reuniram em uma parte do reino no qual não havia muita circulação de pessoas naquele momento. Assim, nós rapidamente nos munimos com diversas armas e planejamos adequadamente a próxima parte do nosso plano, o qual segundo Raul, era:

- Bem, nós vamos nos dividir em quatro grupos: dois irão adentrar o castelo e atacar as alas leste e oeste; dois irão atacar os guardas localizados na entrada do reino; o outro grupo irá especificamente procurar Conde Rafael, entendido?

Todos assentiram sobre a compreensão do nosso próximo passo. Então, depois que todos os grupos estávamos prontos, nós começamos a nos dirigir para os nossos locais de ataque. Porém, antes que isso acontecesse, eu incentivei os nossos guerreiros bradando:

- VIVA A HOMOREVOLTA! SALVE FINNEL!

Assim, com o mesmo espírito de justiça que nos levou a atacar o vilarejo de Finnel, enquanto este ainda era uma base de Conde Rafael, nós corremos em direção ao nosso novo desafio: conquistar a principal base do meu tio e, dessa forma, acabar de uma vez por todas com a brutalidade com a qual ele combatia a homossexualidade.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Capítulo 2 - A Lenda do Homem de Fogo (Cont.)

A avó de Saulo compartilhou com os elementais a seguinte história:

- Este mapa vai guiar vocês ao longo de uma caverna situada a alguns quilômetros dessa cidade. Durante muito tempo as pessoas desse local tiveram medo de chegar perto desse local, por causa das histórias sobre uma criatura de fogo que devoraria qualquer pessoa que se aproximasse da caverna. Besteira! Eu estive lá quando era uma pequena garotinha e explorei o local. Nada aconteceu! Além disso, alguns cientistas também exploraram a caverna recentemente e nada lhes aconteceu. Porém, de fato, o meu neto me disse que algo aconteceu quando ele e algumas das aberrações que ele chamava de amigos entraram lá. Segundo ele, o local aparentemente reage somente a aberrações como vocês, e pode de fato ser muito perigoso! O meu neto chegou aqui com feridas, escoriações e queimaduras que só são vistas em guerras. É claro que ele se recuperou, como sempre, mas isso levou mais tempo do que o normal e alguns dos amigos dele não retornaram de lá.
- Mas o que aconteceu?
- Não me aborreça com as suas perguntas. Isso é tudo que eu sei! - disse a senhora impacientemente - Aqui está o mapa! Agora saiam da minha casa!

Os elementais saíram da casa da avó de Saulo confusos, porém decididos a encontrar o local referido no mapa como "Monte Castillo". Todos pareciam um pouco desconfortáveis depois do que a senhora havia dito, porém Ethan tentou animar os amigos sobre a missão:

- Vamos lá pessoal, nós estamos tão perto de desvendar o mistério dessa tal lenda sobre o homem de fogo!
- O Ethan tem razão! Nós podemos fazer isso e enfrentar quaisquer que sejam os possíveis perigos que nos aguardam dentro da caverna!

Ainda que receosos, os elementais concordaram em seguir a jornada para o Monte Castilho. Desse modo, eles voltaram para a mini van e seguiram o caminho indicado no GPS para chegar até a tão aguardada caverna. Porém, depois de 10 minutos de viagem, o carro foi inesperadamente atingido, então capotou e, finalmente, permaneceu imóvel na beira da estrada. Quando Ethan abriu os olhos, ele escutou uma voz conhecida:

- Eles chegaram muito longe! Nós precisamos eliminá-los agora!

O rapaz tentou, discretamente olhar ao redor, pretendendo encontrar os seus amigos. Porém, o rapaz viu que o carro estava a alguns metros de distância de onde ele estava e Oliver estava inconsciente ao seu lado, além disso, a cabeça e o corpo de Ethan doíam muito, então ele não conseguiu realizar muito movimentos para encontrar o outros elementais, de modo que ele apenas permaneceu de olhos fechados e pensou no seu próximo movimento. Nádia, a quem pertencia a voz que ele conhecia tão bem, estava pretendendo matar ele e seus amigos! Ele não poderia deixar aquilo acontecer, então ele tomou uma medida desesperada:

- Se alguém vai morrer hoje, será você Nádia! - disse o rapaz enquanto rapidamente se levantava e, com corpo totalmente em chamas, corria em direção à elemental do gelo, a qual foi surpreendida quando Ethan a agarrou firmemente.
- O que você está fazendo?! Você é louco? O seu poder está consumindo o seu corpo! Você vai morrer desse jeito idiota! - disse Nádia, tentando contrapor as chamas de Ethan com neve, mas sem sucesso.
- Eu sei... mas você vai morrer comigo! Eu sei que, por ser a elemental do gelo, o seu corpo é sensível aos meus poderes! Principalmente quando eu estou usando todo o poder com o qual Flamus me abençoou!
- Ethan! - gritou Oliver, ensanguentado, cheio de escoriações e com o braço direito em um ângulo estranho, o que indicava uma possível fratura ou deslocamento - O que você está fazendo?
- Oli! Você... está vivo! - exclamou Ethan, com um grande sorriso no rosto - Desculpa, eu preciso fazer isso! Nós estamos fracos demais e eu preciso garantir que essa louca nos deixe em paz!
- Não Ethan! A gente precisa de você!... Eu preciso de você!
- Escuta o garoto! - disse Nádia, já bastante debilitada devido à intensidade das chamas emanando de Ethan.
- Mas eu preciso! - disse Ethan, olhando para Oliver, com lágrimas escorrendo em sua face - Oli, eu te amo!
- Eu também te amo Ethan! - disse Oliver, o qual também estava chorando - Escuta, você não precisa fazer isso sozinho! Deixe-me lhe ajudar!
- Como?!
- Apenas confie em mim! Diminua a intensidade dos seus poderes e se cure das queimaduras! Eu posso lidar com ela!
- Tudo bem! - respondeu Ethan, diminuindo as chamas em seu corpo, ao mesmo tempo em que Oliver prendeu Nádia em um sólido bloco de gelo, no qual ela permaneceu imóvel, como uma estátua.
- Eu não sei quanto tempo posso aguentar, mas acho que será suficiente para que você descanse! Então nós poderemos resolver isso juntos! Tudo bem?
- Sim! Obrigado Oli! - disse Ethan, com um meio sorriso no rosto. O belo sorriso do rapaz contrastava com as enormes queimaduras em seu corpo, as quais ele estava tentando, com muito esforço, curar.
- Não adianta tentar! - disse Oliver, olhando para Nádia, que tentava se movimentar dentro do bloco de gelo - Eu posso estar fraco, mas você está mais fraca do que eu!
- Solta ela! - disse o elemental da eletricidade, o qual lançou um raio em Oliver, que foi jogado alguns metros para trás.
- Deixe ele em paz! - gritou Oliver, lançando uma rajada de fogo em direção ao adversário.
- Deixa ele comigo Ethan! - disse Themba, envolvendo o elemental da eletricidade em uma caixa de pedra - Você já fez o bastante! - O rapaz tocou no ombro do amigo e sorriu. Apesar de fraco e com vários arranhões pelo corpo, Themba parecia bem melhor do que os dois rapazes - Oliver, você consegue segurar essa mulher um pouco mais? Os outros estão vindo em breve!
- Eu acho que sim - respondeu Oliver, levantando-se e reforçando o bloco de gelo, o qual já estava se decompondo e libertando Nádia - Ela não vai a lugar algum! Mas onde estão os outros?
- Eu não sei o porquê, mas apenas você e o Ethan foram trazidos para cá - respondeu Themba - Os outros estão próximos do carro, lutando contra uma outra mulher. Esse lunático estava com ela, porém ele viu o que estava acontecendo aqui e correu para ajudar! Bem, vocês também têm amigos, então eu vim dar reforço! Embora vocês já tivessem tudo sob controle aqui!

Aproximadamente, meia hora se passou desde a intervenção de Themba na luta de Ethan e Oliver contra Nádia. A elemental do gelo ainda tentava lutar contra Oliver, porém ela estava muito debilitada devido ao ataque de Ethan. No entanto, Oliver também estava debilitado e queimaduras começaram a aparecer em seus braços, ao que ele reagiu:

- Themba! Eu acho que não consigo mais segurá-la!
- Você não precisa mais Oli! - disse Ethan, o qual estava curando as suas lesões enquanto os outros elementais usavam seus poderes para imobilizar Nádia e o elemental da eletricidade - Deixa comigo!
- Obrigado Ethan! - respondeu Oliver ao cessar o reforço ao bloco de gelo que prendia Nádia, ao mesmo tempo em que Ethan conjurava chamas ao redor da elemental do gelo.
- Eu provavelmente não posso segurá-la por muito mais tempo também, mas eu acho que sei o que eu preciso fazer! Dessa vez sem tentar me matar ao longo do caminho! - O rapaz restringiu as suas chamas para a face de Nádia, as quais a envolveram como um capacete. Além disso, ele conjurou chamas para ambas as mãos dela. Desse modo, Nádia não conseguia respirar ou conjurar qualquer poder por meio de gestos ou fala - Eu sei que isso é horrível, mas eu não posso deixar você machucar a minha família!
- Ethan, cuidado! Ela está sem ar! Ela pode morrer! - Gritou Oliver.
- Eu só quero enfraquecê-la!
- Ethan, eu acho que ela já está bastante fraca! Vamos apenas amarrá-la e...

Themba não pôde terminar a frase, já que Nádia caiu no chão. Ela estava desmaiada. Ethan não tinha planejado aquilo dessa forma:

- Eu não acredito! Será que... - disse o rapaz, abaixando-se em direção à elemental.
- кровь замораживания - disse Nádia, a qual aparentemente havia fingido o desmaio - Eu posso estar fraca, mas ainda tenho truques! - A elemental ria, enquanto Ethan agonizava no chão e cuja pele estava ficando progressivamente azulada, como se ele estivesse sufocando -  O seu sangue congelando nesse exato momento e não há nada que você possa fazer para impedir isso!
- Mas eu posso! - bradou Themba, porém Nádia também lançou o mesmo poder em sua direção e, em questão de segundos, Themba também estava agonizando.
- Isso é muito fácil! - disse Nádia em meio a uma risada - Agora só falta mais um!
- Nem tente Nádia! - disse Oliver com um sorriso no rosto - Eu sou um elemental do gelo e você vai precisar de muito mais do que esse truque para me vencer!
- Coragem é diferente de habilidade moleque! Você deveria saber disso!
- Ah, mas eu tenho habilidade Nádia! - Oliver movimentou as mãos e neve se formou no ar - Além disso, eu consegui descansar e você não! Você pode até ser melhor do que eu realmente, mas eu não vou deixar isso me fazer não tentar! - Ele lançou a neve dispersa em direção a Nádia.
- O que você está fazendo? - disse Nádia, rindo - Isso é insignificante e você sabe disso!
- Bem, a neve sozinha é insignificante, mas se ela vier em grande quantidade, ela pode ser extremamente potente! - Nesse momento a neve se concentrou nas mãos e cabeça de Nádia e, progressivamente, a neve começou a se solidificar em sólidos blocos de gelo. Assim como Ethan havia feito, ele prendeu Nádia apenas nesses locais.

Assim que Nádia teve as mãos e cabeça presos pelos blocos de gelo lançados por Oliver, Ethan e Themba pararam de agonizar e as suas peles progressivamente adquiriram a tonalidade normal. Assim, Themba retomou a sua posição, prendendo o elemental da eletricidade, que estava quase quebrando a caixa de pedra na qual Themba o havia prendido, a qual estava enfraquecida, já que Nádia o havia atacado. Enquanto isso, Ethan estava bastante furioso com Nádia, devido ao ataque surpresa, então bradou:

- Você merece isso! - Ele lançou labaredas de fogo em direção à elemental, porém, além de atingi-la, isso também derreteu os blocos de gelo feito por Oliver.
- Obrigado! - Nádia, inesperadamente, lançou uma estalactite de gelo, a qual atingiu Themba no peito - Eu ainda tenho truques! - Completou a elemental do gelo, rindo.

Nesse momento, Ethan e Oliver se mobilizaram para oferecer ajuda a Themba, enquanto Nádia tentava aproveitar a situação para escapar. Porém, mobilizados pela visão de Themba agonizando, Ethan e Oliver, ainda que não-premeditadamente, atacaram Nádia ao mesmo tempo. Ethan lançou novamente labaredas de fogo em direção à elemental, as quais pareciam mais intensas dessa vez e cobriram todo o corpo de Nádia. Enquanto isso, Oliver lançou uma forte tempestade de neve, as qual também envolveu o corpo de Nádia. Os poderes dos elementais do fogo e do gelo deveriam se anular mutuamente, porém, surpreendentemente, a tempestade de Oliver se materializou em uma cúpula, com aparência cristalina, a qual envolveu as labaredas de fogo de Ethan e as potencializou. Os dois elementais permaneceram, momentaneamente, sem reação devido ao resultado dos seus ataques e, antes que os dois pudessem desfazer a cúpula cristalina de gelo e fogo, Nádia caiu novamente no chão. Dessa vez, ela estava, de fato, morta.
Imediatamente, Ethan e Oliver correram para junto do corpo de Nádia e desfizeram a cúpula que a envolvia. O corpo da elemental do gelo estava totalmente queimado. Ethan não podia acreditar no que havia acontecido. O rapaz sentou no chão e adotou uma postura defensiva, na qual ele aproximou as pernas em direção ao peito e as abraçou com os dois braços, então disse:

 - Eu matei alguém! - disse o rapaz. Um silêncio profundo momentaneamente se estabeleceu no local, já que Ethan continuava sentado, em choque, e Oliver estava tentando curar o buraco no peito de Themba, causado por Nádia. Segundos depois, Ethan quebrou o silêncio: - Mas eu não quis matá-la!
- Calma Ethan... - disse Oliver, enquanto ainda estava concentrado em ajudar Themba - Nós apenas estávamos tentando evitar que ela nos atacasse novamente no futuro, o que ela provavelmente faria! Eu não sei o que aconteceu, pois, de qualquer modo os nossos poderes deveriam ter se neutralizado - completou Oliver - Mas não temos tempo para pensar nisso agora! Themba, vai ficar tudo bem, eu prometo! - Nesse momento, Themba estava, aparentemente, tentando dizer algo, porém ele apenas agonizava e respirava com dificuldade.
- Aquele negócio deve ter atingido um dos pulmões! - disse Themba, levantando-se e se juntando a Oliver ao lado de Themba - Se nós não conseguirmos curá-lo, ele pode...
- Não Ethan! Ele não vai! - Interrompeu Oliver - Eu só preciso me concentrar! Já que esse dano foi causado pelos poderes de um elemental do gelo, eu acho que posso curar isso! Mas eu preciso da sua ajuda Themba! Use os seus poderes para se curar, tudo bem? - Themba assentiu com a cabeça - Eu vou progressivamente diminuir esse objeto no seu peito, enquanto você tenta se curar! Ethan, eu preciso que você cuide do elemental da eletricidade, pois ele está novamente tentando fugir da caixa de pedra na qual Themba o prendeu! Nós não precisamos de mais nenhuma distração!
- Pode deixar comigo Oli!

Vinte minutos se passaram, nos quais Themba progressivamente recuperou as funções respiratórias e Oliver diminuiu a estalactite no peito do elemental da terra. Ao mesmo tempo, Ethan continuava mantendo um círculo de fogo ao redor da já bastante enfraquecida caixa de pedra feita pode Themba para prender o elemental da eletricidade. Assim que pôde, o elemental da terra disse:

- Oliver! Muito obrigado! Eu não conseguiria me curar se não fosse por você!
- Eu é que agradeço por você ter vindo nos ajudar Themba! - respondeu Oliver - Ethan, eu acho que nós já podemos libertar o sujeito na caixa, mas com muito cuidado!
- Eu também acho Oli! - disse Ethan extinguindo as labaredas, enquanto Themba desmontava a caixa de pedra.
- O que vocês fizeram? - disse o elemental da eletricidade ao olhar para o corpo carbonizado de Nádia - Assassinos!
- Isso foi um acidente! - disse Ethan, com firmeza - Mas se vocês voltarem a nos importunar, eu juro que isso vai acontecer novamente, mas de forma mais intencional!
- Isso não vai ficar assim! - disse o elemental da eletricidade, o qual correu até o corpo de Nádia, segurou-o em seus braços e então desapareceu em meio a uma série de descargas elétricas.

Alguns segundos depois, os outros elementais chegaram ao local. Ao ver o estado de Themba, Gabriela perguntou:

- Themba! Meu deus! O que aconteceu aqui?
- É uma história complicada! - respondeu Ethan - Mas agora está tudo bem! Mas e quanto a vocês, como estão?
- Está tudo bem agora também! - respondeu Sophie - Nós chutamos o traseiro de uma elemental do ar e estamos todos bem! A elemental já se foi, junto com aquele outro elemental que estava com ela!
- Bem, então não precisamos nos preocupar em sermos atacados nesse momento! - disse Oliver - Agora temos outra preocupação... como está o carro?
- Totalmente destruído Oliver! A elemental do ar estava usando ele de escudo e bem... ele não está funcionando... definitivamente!
- Que droga! - exclamou Ethan - E agora, como vamos chegar à caverna?
- Eu posso dar um jeito nisso! - o elemental assoviou e, em seguida, oito cavalos estavam correndo em direção aos elementais.
- Boa Marco!
- Isso mesmo! Valeu Marco! - reafirmou Oliver - Agora nós podemos seguir para a caverna!

Assim, os elementais trilharam os quilômetros restantes para chegar até o Monte Castillo. Quando chegaram ao local, eles seguiram as instruções no mapa, o qual os guiava para uma das entradas do local. Depois de percorrerem alguns metros dentro de um túnel, os elementais chegaram a um ponto em que a caverna se dividia em dois caminhos, porém, segundo as instruções no mapa, eles não deveriam seguir nenhum dos dois. Ao invés disso, um dos elementais precisava demonstrar os poderes exatamente no meio dos dois caminhos. Assim, Ethan se ofereceu, dizendo:

- Eu faço isso! - ele materializou uma chama ao redor do seu corpo. Imediatamente, uma espécie de porta se materializou no meio dos dois caminhos com a seguinte frase escrita: Seja bem-vindo elemental. Nenhum humano é permitido a partir deste ponto, pois não existe nenhuma humanidade neste local.
- O que ele quer dizer com "nenhum humano permitido"? - disse Gabriela - Nós podemos entrar ou não?
- O nosso maior problema não é esse Gabriela! - disse Sophie - Eu acho que deveríamos nos concentrar na parte que diz "sem humanidade"!
- Vocês são livres para ficar, mas eu preciso entrar nesse local, não importa o que aconteça!
- Não seja bobo Ethan! Ninguém vai te deixar entrar aí sozinho, certo pessoal?
- Claro! Eu só acho que devemos ser extremamente cuidadosos a partir deste ponto!
- É isso mesmo Ethan! Todos vamos com você!
- Sim!
- Claro!
- Sem dúvida!
- Por que estamos demorando tanto? Vamos logo! - finalizou Alba, entusiasticamente.

Dessa forma, os elementais entraram pela porta que os levava por um terceiro caminho dentro da caverna no Monte Castillo. Porém, para a surpresa deles, no momento em que eles adentraram o local, os seus corpos tomaram formas de pura energia, de acordo com os seus elementos.

- Meu deus! Então era isso que a mensagem queria dizer com "nenhum humano" - disse Ethan, que agora era um ser puramente composto de fogo. 

Dessa forma, os elementais tinham outro desafio. Como seguir pela caverna em grupo enquanto a intensidade dos poderes de um elemental poderia ser perigosa para os demais?

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Cappuccino (Cappuccino)

Cappuccino (Cappuccino), 2009


Neste curta, Jeremie (Benjamin Décosterd) é um adolescente tímido que convida seu colega de escola Damien (Anton Ciurlia) para sair. Após conversarem, os dois acabam tendo um "contato mais íntimo" na casa de Damien, embora isso tenha um significado completamente diferente para cada um deles. Gina (Manuela Biebermann) é a, muito generosa e superprotetora, mãe de Jeremie, que será essencial para dar suporte ao filho.


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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Capítulo 4 - (Re) aprendendo a Viver (Cont.)

Na mesma semana, Enzo ainda teria mais um atendimento com Lucas, porém ele ficou surpreso em saber que ele seria atendido por outro discente de Terapia Ocupacional, cujo nome era João. O rapaz lhe explicou que Lucas tinha adoecido e não poderia atendê-lo naquele dia.
No dia anterior ele tinha tido um dia bastante difícil na sessão de Fisioterapia, já que o tratamento ambulatorial seria um pouco diferente do que ele estava acostumado no hospital e hoje ele estava ainda mais cansado devido ao atendimento realizado por João. Entretanto, naquele dia o seu humor estava bem melhor do que na semana passada, visto que ele estava finalmente de volta ao seu lar e a sua relação com Daniel estava cada dia mais sólida. Nesse sentido, ele se sentia um pouco culpado por ter tratado Lucas de forma tão bruta anteriormente. Além disso, ele estava curioso para saber por que o rapaz o havia tratado tão bem. Não havia nenhum tipo de interesse afetivo ou sexual, ele apenas se sentia curioso, porque, ainda que evidentemente os discentes tenham que tratar bem os seus pacientes, ele sentiu um tipo de tratamento diferente por parte de Lucas durante a sessão da semana anterior.
Depois da sessão, Enzo encontrou Daniel na "Snacks", como eles haviam combinado no dia anterior, já que o rapaz não poderia acompanhar o namorado nas sessões de Fisioterapia e Terapia Ocupacional porque tinha aula no mesmo horário e já que ele quase perdera o semestre por faltas, ele não poderia estar ausente de nenhuma aula dali por diante. Ao percorrer os corredores da UFTU com a cadeira de rodas, Enzo se sentia desconfortável, mas o sorriso no rosto de Daniel quando ele chegou na lanchonete amenizou aquele sentimento. Quando ele se aproximou da mesa em que Daniel estava, este se levantou e disse:

- Espera - disse ele movendo uma cadeira para que Enzo pudesse se posicionar perto da mesa - Pronto, agora você tem um espacinho para a sua cadeira particular! - concluiu ele beijando Enzo.
- Sim, esse monstro que está acoplado ao meu corpo! - disse Enzo rindo - Mas vamos esquecer dele e nos concentrar em você - Enzo tocou o rosto de Daniel - Como foi a aula hoje?
- Ah, foi bem interessante para mim, mas provavelmente se eu comentar será bem entediante para você Sr. Ciências da Saúde! Na verdade, eu prefiro que nós conversemos sobre o seu atendimento de hoje! Como foi? Você maltratou o seu terapeuta de novo? - respondeu Daniel rindo.
- Cale a boca Sr. Ciências Humanas! Eu não maltratei ele, eu apenas estava um pouco estressado! Mas de qualquer forma ele não foi hoje e eu fui atendido por outra pessoa.
- Meu deus! Você assustou tanto o rapaz que ele até desistiu do curso! Nossa, você é muito malvado amor!
- Deixa de ser palhaço! Eu não sou malvado!
- Não tem problema amor! Eu amo o meu malvadinho!
- Eu também te amo palhacinho! Qualquer dia eu vou sentar você aqui no meu colo e lhe dar umas palmadinhas, para você ver como eu sou malvado, então!
- Hmm! Parece bom! Quer fazer isso agora ou depois? - os dois começaram a rir.

Os dois permaneceram conversando na lanchonete até uma hora da tarde, quando Daniel disse:

- Amor, eu acho melhor eu te levar logo para casa, já que eu tenho que estar de volta às duas da tarde para a minha próxima aula!
- Tudo bem amor, mas se você quiser eu posso pedir para o meu pai vir me buscar ou mesmo pegar um ônibus! - respondeu Enzo.
- De jeito nenhum! Eu não estou fazendo nada mesmo! Outro dia você faz uma dessas alternativas, mas hoje eu quero lhe levar até a sua casa!
- Entendido senhor! - disse Enzo batendo continência.
- Ah, então eu não o único palhaço aqui né?
- Bem, na verdade não, mas você com certeza me ganha nesse quesito!

Desse modo, Daniel levou Enzo até a cada do rapaz e depois voltou para a UFTU. Quando chegou em casa, Enzo prontamente deitou para descansar do esforço realizado no atendimento. Quase no fim daquela tarde, Pietro apareceu para conversar com o rapaz:

- Oi Enzo, como você está?
- Oi Pietro - respondeu Enzo - Eu estou bem, mas e quanto a você? Pareces um pouco tenso hoje!
- E eu estou mesmo amigo... eu preciso te contar uma coisa... mas eu não sei como...
- Nossa Pietro, não me deixa nervoso! Conta logo! Eu não vou te julgar ou rir se for algo sério!
- Na verdade isso não é bem sobre mim... por isso eu não sei se deveria te contar, mas eu realmente não sei como reagir a isso!
- Como assim? É algo sobre o Gui? O que é Pietro, e conta! - disse Enzo aflito.
- Sim... Bem, eu preciso te contar isso, porque a minha cabeça está a mil!
- Tudo bem, mas se acalma primeiro e me conta todos os detalhes do que está acontecendo.
- Ok - respondeu Pietro, e depois de um profundo suspiro ele continuou - Bem, eu e o Guilherme estamos em uma relação, como você sabe, então há alguns dias nós combinamos de fazer um teste de HIV para ter certeza de que nós estaríamos livres de preocupações em relação a isso. Bem... o problema é que o teste do Guilherme deu positivo...
- Meu deus! - exclamou Enzo - Mas por que ele não está aqui com você me contando isso?
- Ele meio que ficou transtornado com a notícia e disse que queria ficar sozinho e... bem, eu também preciso de um tempo para pensar nisso na verdade.
- Mas o que está se passando pela sua cabeça Pietro?
- Muita coisa Enzo! - respondeu o rapaz - Eu não tenho muita experiência sexual, então estava praticamente tranquilo quanto a isso. Nós usamos camisinha, mas, eu não sei, eu sinto como se eu pudesse mesmo assim ter contraído o vírus. Eu gosto dele Enzo, por isso não queria deixar isso atrapalhar o que nós estamos começando, mas isso parece ter me afetado tanto quanto a ele.
- Calma Pietro! Olha, se vocês usaram camisinha, então as chances de teres contraído é muito pequena ou quase nula. Além disso, hoje em dia existem muitas alternativas para tornar a vida do Gui o mais fácil possível e talvez ele nem desenvolva AIDS, que é o que realmente precisa ser evitado a todo custo.
- Eu sei Enzo, mas eu vou ter que me proteger a todo custo e estar sempre alerta dentro desse relacionamento!
- Ah Pietro, é claro que você vai precisar se proteger para não contrair o vírus, mas não pense que você vai ter que ficar paranoico em relação a isso! Com os cuidados necessários, vocês dois vão poder seguir com a relação normalmente! - assegurou Enzo.
- Bem, eu acho que você tem razão! Desculpa, eu acho que eu reagi exageradamente a isso! Mas é que eu realmente não esperava isso!
- Que nada Pietro, isso é compreensível! Eu acho que a ideia de vocês foi ótima e, em um certo ponto de vista, isso foi bom, pois revelou algo sério que precisa ser tratado e que vai afetar um pouco a relação de vocês - respondeu Enzo - Por isso, eu acho que vocês dois precisam conversar sobre isso e realizar os procedimentos necessários daqui para frente.
- Sim, eu vou fazer isso! Obrigado por me ouvir Enzo, eu acho que era somente disso que eu precisava! Alguém que me passasse segurança! - disse Pietro abraçando Enzo.
- De nada amigo! Eu espero que dê tudo certo! - respondeu Enzo - Eu vou esperar o Gui vir conversar comigo e, se você quiser, eu posso fingir que não sei de nada! - ele finalizou rindo.
- Obrigado - disse Pietro, também rindo - Isso seria ótimo! Afinal eu não tinha o direito de revelar isso sem o consentimento dele.
- Então assim será! - assegurou Enzo - Olha, essa iniciativa de vocês até me motivou sabia?! Eu acho que todos os casais e, na verdade, todas as pessoas que têm uma vida sexual ativa precisam fazer periodicamente um teste para verificar HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis! Eu acho até que farei isso!
- Bem, na verdade essa foi uma iniciativa do próprio Guilherme - disse Pietro - Eu fiquei um pouco resistente no começo, já que, como eu disse, eu não tenho uma vasta vida sexual, mas depois eu pensei ' por que não né?' e, bem, graças a deus que eu topei!

Nesse momento, a campainha tocou e Pietro foi até a porta, onde ele encontrou Daniel do lado de fora:

- Oi Daniel, pode entrar!
- Oi Pietro! Como estás? - disse Daniel um pouco surpreso - O que aconteceu, o Enzo te contratou para atender à porta?
- Não amor, isso é trabalho escravo mesmo! Esqueceu que eu sou malvado? - respondeu Enzo rindo.
- O que? - disse Pietro sem entender.
- Nada Pietro, eu estou apenas brincando! - respondeu Enzo - É que o meu namorado acha que eu sou malvado com as pessoas!
- Você não soube Pietro, que o seu amigo maltratou o terapeuta ocupacional dele no primeiro atendimento?
- Não estava sabendo disse Enzo! Como assim?
- O Daniel faz tudo parecer horrível! Ele é muito exagerado! - protestou Enzo - Eu não "maltratei" ninguém! Eu apenas estava um pouco mal-humorado naquele dia e talvez eu possa ter sido um pouco ríspido com o meu terapeuta.
- Ah, então é isso! Bem, então não faça mais isso Enzo, ou então eu também vou acreditar que você é malvado - disse Pietro rindo.
- Ai, o que eu fiz para merecer vocês dois!
- Boa coisa não foi! - disse Daniel enquanto abraçava e beijava o namorado.
- Bem gente, eu não vou atrapalhar o momento de vocês, então eu já estou de saída! - disse Pietro.
- Já?! - exclamou Enzo.
- Que isso Pietro, pode ficar aí! Você não está atrapalhando nada! - respondeu Daniel.
- Obrigado Daniel, mas eu realmente preciso ir! Além disso, eu já conversei bastante com o Enzo hoje e ele me deus ótimos conselhos, que eu preciso colocar em prática.
- Tudo bem então, até mais! E boa sorte com o que precisas resolver!
- Obrigado Daniel! - disse Pietro enquanto se dirigia a Enzo, e enquanto o abraçava disse: - Muito obrigado amigo!
- De nada! Eu quero saber de tudo depois viu!
- Pode deixar!

Assim, Pietro deixou a casa de Enzo decidido a colocar em prática o que Enzo lhe dissera sobre a situação que ele estava vivendo com Guilherme atualmente. Depois que ele saiu, Daniel perguntou a Enzo:

- Do que ele estava falando amor? Que conselhos você eu a ele?
- Amor... - disse Enzo incerto - Eu acho que não posso revelar isso por enquanto, então você vai ter que acreditar em mim quando eu digo que é uma situação um pouco complicada.
- Bem, eu acredito em você. Mas isso é tipo um segredo?
- Não é bem um segredo, mas é algo que envolve outra pessoa que ainda não me contou esse algo e por isso e não posso falar disso, porque tecnicamente eu não sei de nada ainda... - disse Enzo - Espera, isso fez sentido?
- Não muito - disse Daniel rindo - Mas tudo bem, eu vou entender que você vai falar sobre isso comigo somente daqui a algum tempo, certo?
- Certíssimo amor! - disse Enzo - Você é o melhor namorado! Lindo e inteligente!

Daniel ficou com Enzo até dez horas da noite e depois foi para casa. Depois que o namorado saiu, Enzo deitou e, enquanto lia um livro, refletia sobre o que Pietro havia lhe contado sobre Guilherme. De repente, uma pergunta veio em sua mente 'Desde quando Guilherme estava infectado com o vírus HIV?', a qual veio seguida de outra 'Se ele já estivesse com o vírus na época em que nós namoramos, então eu poderia ter contraído, já que nós chegamos a fazer sexo sem camisinha?'. Com esses pensamentos em mente, Enzo decidiu que no dia seguinte ele faria um teste para tirar a dúvida de sua cabeça e, pensando ainda mais no assunto, ele resolveu que convidaria Daniel para fazer isso com ele.
Dessa forma, quando Daniel apareceu no dia seguinte para visitá-lo, Enzo prontamente disse:

- Amor, eu quero que a gente faça um teste de HIV!
- Como assim amor? - disse Daniel perplexo - Por que esse desejo repentino de fazer um teste desse tipo? Tem algo errado amor?
- Não amor, fica tranquilo! Está tudo bem comigo! - assegurou o rapaz - Porém, eu já tive uma vida sexual antes de você e eu quero que nós fiquemos tranquilos em relação a isso, já que nós já iniciamos nossa vida sexual juntos! Eu li em uma revista que vários casais, principalmente em relações homoafetivas, fazem isso ao iniciar um relacionamento!
- Bem, se você realmente quer fazer isso, eu não vejo problemas! Mas nós estamos um pouco atrasados né? Já que a nossa relação não está no começo e nós inclusive já fizemos sexo - disse Daniel rindo.
- Você tem razão! - respondeu Enzo também rindo - Porém - ele adotou um tom mais sério - Eu realmente quero fazer isso, mesmo assim! Eu quero ficar tranquilo quanto a isso! Bem, eu quero que você faça comigo mais por que eu quero a sua companhia, mas você praticamente não teve vida sexual ativa até agora, então é mais por mim mesmo.
- Tudo bem amor! Se você quer, nós vamos fazer isso sim! - respondeu Daniel - Inclusive vamos marcar isso agora - disse ele tirando o notebook da mochila.

Os dois marcaram a coleta de sangue para terça-feira da próxima semana, depois da sessão de Terapia Ocupacional de Enzo.
Na terça-feira, enquanto aguardava ser chamado na sala de espera, Enzo viu Lucas passar em direção à sala de Terapia Ocupacional, porém, quando este veio lhe chamar para o atendimento, ele estava na companhia de João, o qual, segundo Lucas, seria o discente responsável pelo seu caso dali para a frente pois ele não poderia mais atendê-lo. Assim, João novamente realizou o atendimento com Enzo, focando principalmente no treino do uso da cadeira de rodas.
Enzo não compreendia o porquê de Lucas ter repassado o seu caso para outra pessoa sem uma explicação plausível e resolveu que ele iria indagá-lo sobre isso na próxima oportunidade que ele tivesse de conversar a sós com o rapaz. Isto ocorreu bem antes do que ele imaginava, já que, quando ele estava na saída da Clínica de Reabilitação da UFTU, alguém tocou em seu ombro e disse:

- Desculpa Enzo, mas você esqueceu o seu celular na mesa - disse Lucas.
- É mesmo! Obrigado Lucas!
- De nada! Bem, tenha um bom dia! - disse o rapaz virando-se em direção ao interior da clínica novamente.
- Espera Lucas! - disse Enzo.
- Sim...
- Eu posso te perguntar uma coisa?
- Ah, eu acho que sim... o que é?
- Por que você simplesmente repassou o meu caso para outra pessoa?
- Err... Eu tive alguns problemas na quinta-feira passada e não pude atendê-lo, então, como o João disse que o primeiro atendimento de vocês foi ótimo, eu preferi repassar você para ele... afinal, eu acho que você se sentiu mais à vontade com ele de qualquer modo, certo?
- Ah... Olha, sobre isso, eu queria me desculpar se eu fui um pouco grosseiro com você semana passada, mas eu realmente não estava me sentindo muito bem! Se isso lhe deu uma impressão errada sobre mim e por isso você me repassou, eu acho que isso deveria ser revertido.
- Olha, na verdade, esse não foi o real motivo Enzo e eu não tenho tempo suficiente para explicá-lo agora, mas eu não posso mesmo voltar a te atender, tudo bem?
- Mas qual o problema então?
- Faz o seguinte, pergunta para o seu namorado, se o meu nome o lembra de alguma coisa e na quinta-feira a gente conversa sobre isso, pode ser?
- Bem, eu acho que sim... mas eu não entendo o que o Daniel tem a ver com isso!
- Você vai descobrir! - assegurou Lucas - Agora eu realmente preciso ir! Te vejo na quinta-feira!

Enzo ficara ainda mais curioso em relação àquele rapaz e agora estava muito mais interessado em descobrir o porquê da troca de discentes para o seu atendimento, principalmente porque, de alguma forma, Daniel estava envolvido nisso.

sábado, 8 de novembro de 2014

Basket et Maths (Basket et Maths)

Basket et Maths (Basket et Maths), 2009


O curta fala sobre Jérôme (Jean-Denis Marcoccio) e Cédric (Aurélien Baty) são dois jovens que jogam no mesmo time de basquete. Um dia, durante uma tutoria em matemática, Cédric se inclina e beija Jérôme. Isto causa uma mistura de sentimentos para os dois e, enquanto Jérôme se descobre apaixonado, Cédric apresenta certa resistência em aceitar o que sente pelo companheiro de time.

  

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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

À Cause D'un Garçon (À Cause D'un Garçon)

À Cause D'un Garçon (À Cause D'un Garçon), 2002


Vincent (Julien Baumgartner) é um garoto de 17 anos de idade, o qual é um excelente aluno, um nadador campeão, popular entre os amigos, bonito e adorado pelas meninas na escola. Entretanto, apesar de ser homossexual, o garoto esconde este fato de todos e vive uma vida de mentiras na qual ele tem uma namorada, Isso muda, quando ele conhece Benjamin (Jérémie Elkaim), por quem ele tem uma repentina "queda" e que, acidentalmente, revela o seu segredo para as pessoas. A partir daí, Vincent precisa começar a aceitar e lidar com a sua orientação sexual e com as diferentes implicações que ela tem para os seus amigos, família e demais conhecidos.

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terça-feira, 4 de novembro de 2014

Capítulo 6 - Revolução: Pasine (Cont.)

Eu saí correndo pelas vielas do vilarejo, desejando desesperadamente encontrar Bernardo e, ao mesmo tempo, com medo da reação dele. Eu o encontrei na praça central do vilarejo, onde ele estava conversando, de costas para mim, exaltadamente com Raul, em meio às diversas outras pessoas que estavam nas missões de mapeamento. Eu andei devagar, mas decidido a falar com ele. O meu coração batia acelerado e as minhas mãos estavam úmidas de suor, pois eu não queria ser acusado de algo que eu não fiz no meio de outras tantas pessoas. Porém, para minha surpresa, quando eu toquei no ombro de Bernardo, este se virou em minha direção, agarrou-me em seu colo e me beijou apaixonadamente. Eu estava confuso, mas não me importei em apenas deixar aquele momento acontecer. Quando senti que estava preparado, eu disse:

- Meu amor, aquilo que você viu... Eu não estava lhe traindo... O Hugo...
- Eu sei, eu sei! Calma meu amor!
- Como assim você sabe?
- Eu sei que você não faria isso comigo! Eu confio em você!
- Mas por que você correu de mim então?
- Felipe... por mais tranquilo que eu possa parecer, eu posso ficar bastante agressivo em certas situações e... bem, alguém tentando beijar o meu marido com certeza é uma dessas situações, então eu preferi vir aqui informar ao Raul que ele precisa tomar conta do namorado dele, antes que eu o agrida!
- Sério?! Meu amor, isso é tão bom! Você confia mesmo em mim!
- É claro! Não seja bobo! Eu nunca mais desconfiarei de você depois do erro desastroso que eu cometi na situação com o William há alguns meses! Bem, eu quase lhe perdi... Eu não quero me afastar de você ou lhe julgar sem que você tenha uma chance de se explicar! Além disso, tem mais uma coisa...
- O que meu amor?
- O Hugo também tentou algo comigo alguns dias antes de eu sair para a minha missão e eu o adverti para que ele parasse com aquilo imediatamente e fosse fiel ao Raul, de modo que eu não comentaria nada com ninguém... Bem, pelo visto ele não conseguiu, certo?
- Mas que atrevido! Eu vou ensinar uma lição para ele agora mesmo!
- Não meu amor! O Raul acabou de sair daqui e acho que eles têm muito o que discutir! O que você acha de nós darmos uma volta pelo vilarejo? Eu estou louvo para ouvir o que aconteceu por aqui na minha ausência e também quero lhe contar o que ocorreu na minha missão!
- Claro meu amor! Vamos fazer isso!

Nós andamos pelas vielas, nas quais nós encontramos várias pessoas que estavam revendo os seus entes queridos e comemoravam o fato de todos estarem bem. Eu contei a Bernardo que as coisas tinham transcorrido com tranquilidade no vilarejo e a maioria das atividades tinham sido mantidas normalmente. Em contrapartida, ele me contou o que acontecera desde que ele saíra de Finnel:

- Bem, nós alcançamos um pequeno vilarejo o anoitecer do dia em que o meu grupo saiu de Finnel. Como nós não tínhamos certeza sobre a fidelidade dos habitantes, nós apenas nos alojamos na casa de um ancião que parecia ser o líder. Na manhã seguinte, nós nos separamos e investigamos discretamente a opinião dos diversos habitantes sobre Conde Rafael. No final do segundo dia, nós concluímos que o vilarejo estava submetido à influência de do seu tio, mas eles não estavam satisfeitos com isso, então nós decidimos conversar com o homem em cuja casa nós estávamos hospedados, a fim de oferecer uma parceria com Finnel para que o vilarejo pudesse se libertar da influência de Conde Rafael, o que foi muito bem recebido e aceito. Assim, no terceiro dia, o ancião convocou uma reunião na praça da cidade e convocou todos os habitantes, de modo a compartilhar a ideia e verificar a opinião deles sobre a união com Finnel. Infelizmente, algumas pessoas alegaram fidelidade a Conde Rafael, as quais foram neutralizadas e trazidas conosco para cá. Porém, a maioria acatou a ideia de se unirem ao nosso vilarejo, então nós temos outro aliado agora! Eu informei que as pessoas que se interessarem em treinamento de batalha podem vir a Finnel para serem treinado por nós, então provavelmente algumas pessoas chegarão nos próximos dias.
- Isso é incrível Bernardo! Bem, então eu acho que a finalização das outras casas que nós estávamos construindo aconteceu bem a tempo, eu acho!
- Com certeza! Essas pessoas vão precisar de um lugar para ficar! Mas, mudando de assunto, eu senti muito a sua falta! Eu queria ter voltado antes, mas nós passamos todo o terceiro dia acertando os termos da aliança entre os dois vilarejos! Mas eu parti no final da tarde do terceiro dia, para poder chegar hoje de manhã aqui! Viajar à noite não é o ideal, mas os outros entenderam que eu precisava lhe ver e foram bastante compreensivos.
- Eu também senti muito a sua falta meu amor! Bem, então você deve estar cansado! Vamos para casa, eu acho que o Raul e o Hugo não estão mais lá!

Nós caminhamos de volta para a nossa casa, onde nós de fato não encontramos Raul ou Hugo. Bernardo apenas deitou em nossa cama e adormeceu. Como eu tinha acabado de acordar, eu não me juntei a ele. Enquanto ele permaneceu dormindo em nossa casa, eu fui falar Raul, por motivos pessoais e também relativos à missão dele. Eu me dirigi à casa dele, na qual eu fui recebido surpreendentemente bem por ele:

- Olá Felipe! Pode entrar!
- Você não parece bem mestre!
- Faz algum tempo que você deixou de ser meu discípulo! De fato, é você quem tem me ensinado coisas atualmente.
- Você sempre vai ser meu mestre! Afinal, eu não estaria aqui sem o que você me ensinou! Não só as estratégias de batalha, mas também como ser mais forte e decidido!
- Eu fico lisonjeado! Agora pare de me bajular e diga o que você quer!
- Aí está! Agora sim, esse é o meu mestre! Insultos para dar e vender! Eu vim aqui perguntar se você precisa conversar com alguém sobre a missão ou... bem, sobre o que mais quiseres!

Para me surpreender ainda mais, eu presenciei Raul, aquele que me ensinou a ser forte e evitar demonstrar minhas fraquezas, começar a chorar. Ele se sentou e eu o acompanhei, sem saber o que fazer, até que ele falou:

- Eu não entendo Felipe... O que eu tenho de errado? Por que as pessoas fogem de mim?
- Raul, eu não sei sobre errado, mas eu posso ser sincero sobre uma coisa?
- Claro! Fique à vontade!
- As pessoas podem ficar um pouco intimidadas pelo modo como você trata tudo com tanto rigor! Uma relação é um pouco mais complexa do que uma estratégia de batalha! Não há, de maneira alguma, um jeito de você planejar isso! De fato, você apenas vive e faz o seu melhor para que isso funcione! Mas um pouco de flexibilidade é sempre útil!
- Então você está dizendo que o Hugo me traiu porque eu não sou flexível?
- Eu não sei o porquê do Hugo ter agido dessa forma! Só estou apontando algo que eu percebi sobre você Raul! Quem sabe o que está se passando na cabeça dele, né?
- Eu não sei o que dizer... Eu sou assim...
- Eu não estou sugerindo que você mude qualquer coisa! Apenas estou apontando uma percepção minha e lhe dando um conselho e amigo, totalmente com boas intenções!
- Obrigado Felipe! Fico feliz em saber que você me considera um amigo!
- Você salvou a minha vida Raul! Não há nada que eu possa fazer que vá retribuir o suficiente o que você fez naquele dia! Eu vou te abraçar agora e não quero ser rejeitado, ok?

Raul aceitou o meu abraço e o retribuiu, apesar de estar visivelmente desconfortável com a situação. Em seguida, eu o indaguei sobre a missão:

- Mudando de assunto, com foi a missão? Boas notícias vindas do Leste?
- Bem, eu acho que sim... Olha, os habitantes do vilarejo são todos pacifistas, então não estão do lado de Conde Rafael, o que é uma boa notícia, porém também não querem se juntar a nós em uma luta contra ele. Entretanto, eu estabeleci com eles uma aliança comercial, para que nós possamos comercializar produtos! Bem, nós tecnicamente temos aliados no leste, já que eles pelo menos estão dispostos a estabelecer algum tipo de relação com o nosso vilarejo. De qualquer forma, eu ofereci abrigo a qualquer pessoa que se interesse por batalhas, mas não queira envolver o seu vilarejo nisso, ou seja, qualquer deles que seja um guerreiro pode se juntar a Finnel como morador.
- Isso é ótimo Raul! Essas são realmente ótimas notícias! Nós precisamos de todo e qualquer tipo de apoio na nossa jornada! Além disso, Finnel tem prosperado bastante na produção de vários produtos, então acho que essa aliança seria uma boa forma de arrecadar mais fundos para armas.
- Bem, essa foi a minha jornada. Agora precisamos esperar pelos outros dois grupos, para que nós possamos analisar os resultados e planejar os nossos próximos passos!
- Exato! Bem, eu acho que você está cansado Raul, então eu vou te deixar descansar! Qualquer coisa, não hesite em me procurar na minha casa!
- Tudo bem, obrigado... discípulo!
- De nada, mestre!

Depois que eu saí da casa de Raul, eu caminhei em direção à praça central do vilarejo, porém fui interceptado por Hugo em uma das ruas, o qual indagou:

- Felipe, eu posso falar com você?
- Hugo, eu realmente não quero conversar com você agora!
- Mas eu preciso apenas te dizer uma coisa...
- Tudo bem, então diz enquanto nós caminhamos, porque eu não tenho tempo para perder com você!
- Felipe, eu gosto mesmo de você!

Eu não consegui reagir tão bem àquilo como eu gostaria, já que eu, em um impulso, empurrei com um braço o peito de Hugo contra a parede de uma casa e pus meu outro braço sob o queixo dele, dizendo:

- Qual é o seu problema? Se você gosta mesmo de mim, então por que também flertou com o meu marido há alguns dias? Você muda tão rápido assim de sentimento ou só tem problemas mesmo?

Para a minha surpresa, ele começou a chorar copiosamente e disse entre soluços:

- Eu não sei!

Ao ver o sofrimento nos olhos dele, eu o soltei e, desconcertado, indaguei:

- Como assim?
- Eu não sei qual o meu problema!
- Eu peço desculpas pelo que acabou de acontecer Hugo! Você está com algum problema? Quer conversar?
- Sim...
- Vem, vamos até a praça! Lá nós podemos sentar e conversar melhor.

Nós caminhamos até a praça e nos sentamos em frente a uma estátua recém construída, a qual era um símbolo da nossa luta e uma homenagem às pessoas que morreram por causa do ódio de Conde Rafael contra os homossexuais, a qual consistia em dois homens, duas mulheres e um casal heterossexual de mãos dadas. Quando nos sentamos, Hugo havia parado de chorar, então eu perguntei:

- Então Hugo, qual o problema?
- Eu não sei Felipe, eu tenho me sentido perdido nestes últimos dias! Eu não sei qual vai ser o meu futuro e eu estou com medo... eu não sei, eu não tenho nenhum familiar vivo, Finnel é tudo o que me sobrou...
- Mas as pessoas de Finnel são sua família agora, não precisa ter medo, nós vamos conseguir nos livrar da ameaça de Conde Rafael! Por que você não veio conversar comigo antes? Ou melhor, por que não conversou com o Raul sobre isso?
- Felipe, o Raul tem pouquíssima habilidade de entender as outras pessoas e eu não consigo conversar sobre os meus sentimentos com ele, além disso, eu estou confuso, eu não sei o que fazer da minha vida! Eu não amo o Raul... ele é uma ótima pessoa e eu realmente não queria ter feito isso com ele... e nem com você! Eu peço desculpas pela confusão que eu causei! Eu acho que eu só estou procurando um pouco de compreensão, carinho, eu não sei... você e o Bernardo são as minhas únicas referências sobre esse assunto, eu acho que foi por isso que, bem... você sabe...
- Bem, eu acho que compreendo... Mas eu achei que estava tudo bem entre você e o Raul! Não sabia que você não amava ele!
- Bem, como eu disse, ele é uma ótima pessoa, mas eu acho que preciso de mais! O Raul foi o meu primeiro porto seguro quando eu entrei nesse grupo, por isso eu me envolvi com ele! Eu acho que estava procurando a princípio um pouco de segurança, mas eu preciso de alguém que possa me oferecer algo a mais além de sexo e segurança!
- Err... Bem, eu entendo o que você quer dizer Hugo, mas o modo como você agiu foi a pior forma de sair desse relacionamento! Se você aceitar um conselho, eu diria que, da próxima vez, você deveria falar com a outra pessoa e explicar o que você está sentindo!
- Eu aceito o seu conselho Felipe, e... eu peço desculpas novamente pelo modo como eu agi!
- Bem, agora está tudo acabado mesmo! Apenas não faça isso novamente, ok? Principalmente a parte de flertar com o Bernardo!

Neste exato momento, em que eu e Hugo tínhamos resolvido as nossas pendências, uma pessoa nos aborda gritando:

- Corram! É o William, ele está ferido!

Imediatamente, eu comecei a seguir a pessoa que me dera a notícia e em minha mente eu imaginava o que poderia ter acontecido com o meu irmão. Eu havia o identificado como tal há pouquíssimo tempo e realmente gostava da ideia de ter um irmão mais velho, portanto eu não estava pronto para perdê-lo.