terça-feira, 3 de maio de 2016

Capítulo 3 - Gelo e Fogo (Cont.)

- Alguma pista Ethan?
- Ainda não Cho! Não tem muita coisa nessa sala sobre os próximos passos! - disse Ethan, o qual estava inspecionando as inscrições nas paredes há muitos minutos  - Basicamente, fala sobre a relação de Gélim e Flamus!
- Continua tentando, por favor Ethan! - disse Oliver - Agora, mudando de assunto, como você veio parar aqui Cho?a
- Eu não sei Oliver, eu estava correndo junto com os outros, mas então fomos emboscados novamente por uma criatura! - explicou Cho - A Sophie interveio e conseguiu conter a criatura, para que nós pudéssemos fugir, então eu corri, achando que os outros estavam atrás de mim! Mas eu acabei sozinha em um túnel e, quando tentei voltar para encontrar os outros eu acabei sendo atacada por uma criatura, a qual me mordeu e eu senti todo o meu poder deixar o meu corpo. Depois disso, eu não me lembro de mais nada a não ser acordar aqui.
- Espera... então você não tem mais poderes?!
- Bem... - Cho gesticulou, tentando invocar seus poderes, porém nada aconteceu - Aparentemente, sim! - ela tinha uma expressão muito triste no rosto - Eu não acredito! Como isso pode acontecer?!
- Cho - disse Gabriela, abraçando a elemental da eletricidade - Olhe pelo lado positivo, você ainda está viva!
- Eu sei Gabriela, mas ser uma elemental tem sido parte da minha vida há tanto tempo... Eu nem sei mais o que é ser uma garota normal!
- Eu sei o que você quer dizer! Mas pelo menos você não vai mais que ter que se preocupar com o bem-estar daqueles que você ama... - Pontuou Ethan. Então voltou a ler as frases na parede.

- Eu não entendo Marco - disse Themba, o qual estava materializado em um boneco de pedra e auxiliava Marco em sua forma de chimpanzé a andar. Sophie, a qual consistia em um aglomerado de água ambulante, os acompanhava - Por que você não pode se transformar em outros animais que possam andar normalmente?
- É difícil de explicar, eu não consigo mais mudar dessa forma física desde que fui ferido! - explicou o elemental dos animais - Eu geralmente posso usar as minhas células para criar novos animais e posso, inclusive, me transformar por completo em algum animal específico, como eu fiz quando estávamos fugindo. Eu não tenho mais forma humana, então essa forma foi a mais similar que eu consegui pensar na hora.
- Mas, por que nós conseguimos entender o que você fala? Chimpanzés não falam! - disse Sophie.
- Bem, basicamente, eu alterei a morfologia do cérebro e das estruturas responsáveis pela fala no meu eu-chimpanzé - explicou Marco, mas vendo as expressões confusas de Sophie e Themba, ele complementou - Olha, sabe quando você cria redemoinhos de água no ar ou quando o Themba faz a terra virar monólitos? Basicamente, o que vocês estão fazendo é alterar a estrutura dos seus elementos para que eles façam coisas que não fariam sem o seu controle. A diferença é que eu altero as estruturas de animais para fazerem coisas que eles não fazem normalmente.
- Eu nunca parei para pensar nisso dessa forma! - disse Themba - Você é muito inteligente Marco!
- É verdade! Você deveria se tornar um cientista, professor ou algo do tipo! - complementou Sophie - Você já pensou em ir para a universidade?
- Sinceramente, eu não sei...
- Você definitivamente deveria pensar a respeito e, para a sua sorte, o Reino Unido tem excelentes universidades e você pode... - Sophie foi interrompida por um grunhido vindo de alguma porção do túnel a frente deles - Espero que isso não seja o que eu estou pensando!

- Mas, por que eu ainda tenho os meus poderes? - Indagou Gabriela.
- Como nós pensamos, o processo que nos trouxe de volta à forma humana não é o mesmo que transformou a Cho - respondeu Oliver - Afinal, eu e o Ethan não sugamos os seus poderes do seu corpo!
- Eu agradeço por isso!  - disse Gabriela rindo.
- Gente! - exclamou Ethan, ainda olhando para as paredes da câmara onde estavam - Acho que encontrei algo: "os quatro escudeiros de Flamus que habitam esta câmara guardam a entrada do santuário onde descansa o Imortal do fogo".
- Então nós só precisamos encontrar a porta para o tal santuário! As setas nos trouxeram ao lugar certo!
- Eu estou preocupada com a matemática implicada neste trecho que o Ethan acabou de ler - disse Gabriela - Se vocês destruíram duas criaturas, ainda restam outras duas! Nós precisamos achar essa porta antes que as outras duas criaturas achem o caminho de volta para o "quarto"!
- Ela tem razão! Além disso, vocês voltaram à forma humana e não podem usar os seus poderes com tanta intensidade!
- Eu concordo Cho! Mas pelo menos agora nós podemos ficar na mesa sala sem termos que nos preocupar em ferir os outros! O nosso grupo reuniu os poderes mais contrastantes!
- Por falar em grupo, a Alba não tinha ficado com vocês?
- Tudo bem, nós precisamos conversar Cho...

- Fiquem atrás de mim! - gritou Themba - Barreira dupla de pedra!
- Themba, eu tive uma ideia! - disse Sophie, a qual estava afastada alguns metros do elemental da terra na companhia de Marco. Enquanto isso, Themba continha o avanço da criatura que os tinha atacado - Você consegue construir uma piscina de pedra? Talvez nós pudéssemos afogar essa criatura!
- Ótima ideia Sophie! - respondeu Themba, o qual prontamente começou a transformar parte do solo em uma grande estrutura de pedra em formato retangular - Eu estou pronto Sophie!
- Tudo bem, agora é a minha vez - a elemental plasmou uma enorme quantidade de água do seu corpo até que a estrutura retangular que Themba havia construído estivesse cheia - Pronto! Agora preste muita atenção, nós vamos nos posicionar atrás da piscina e você vai desfazer a barreira. Então, eu vou controlar o avanço da criatura até que ela caia na piscina.  Assim que isso acontecer, você sela a piscina e deixa a criatura se "apagar"!
- Entendido! Você está pronta?

- Talvez você devesse usar os seus poderes na câmara Ethan! - pontuou Oliver - Assim como os meus poderes revelaram coisas ocultas, os seus também pode revelar algo que não estamos vendo! Afinal, você é um filho de Flamus!
- Você tem razão Oli! Saiam da câmara, eu vou ter que incendiar tudo!
- É assim que se fala Ethan! - incentivou Gabriela - Estaremos lá fora.

- Pronto! - disse Themba, selando a piscina na qual ele e Sophie tinham feito a criatura cair - Espero que o seu plano dê certo! Mas eu acho melhor não ficarmos aqui para descobrir! Vamos tirar o Marco daqui! - ele pegou o elemental dos animais nos braços e o colocou em seu ombro.
- Eu concordo! Além disso, precisamos achar a Gabriela, pois ela deve saber algum tipo de planta que ajude o ferimento do Marco a cicatrizar mais rápido - disse Sophie, enquanto começavam a caminhar pelo túnel a frente deles.
- Muito obrigado gente! Eu... - Marco foi interrompido pelo barulho causado pela criatura ao sair da piscina que Themba havia construído - Bem, aparentemente, o plano não deu certo... - disse ele consternado - Essa criatura parece bem mais forte do que a outra, então vocês precisam fugir!
- Marco, nós não vamos te deixar aqui! Vamos continuar lutando! - respondeu Themba, veementemente - Eu vou ficar do seu lado, mesmo que precise repetidamente selar essa criatura em caixas de pedra!
- Pode contar comigo também!
- Isso seria uma perda de tempo! Vocês deveriam fugir e tentar encontrar os outros!
- Eu já disse que não vou te deixar Marco! Nós somos amigos!
- Eu sei! É por isso que eu não tenho escolha... - disse Marco, pulando dos ombros de Themba e invocando dois elefantes, os quais se interpuseram entre ele e os outros dos elementais - Vocês precisam ir! Eu vou ficar!
- Marco, isso é ridículo! Deixe-nos passar - Sophie tentava passar pelos dois elefantes, os quais eram anormalmente grandes, de modo a bloquear completamente a passagem - Você não precisa fazer isso!
- Eu só estou atrasando vocês! Eu fico honrado de poder me sacrificar para que vocês possam sair daqui! - Marco andava até a criatura - O meu amigo vai ajudar vocês a encontrar os outros, ele já conhece o cheiro deles - Nesse momento, um pastor alemão apareceu perto de Themba e Sophie - Os meus amigos grandões farão o possível para bloquear a passagem o maior tempo possível! Eles são muito fortes e corajosos (nesse momento os dois elefantes bramiram como sinal de concordância), além disso, eu fiz a pele deles ser mais resistente do que o normal! Adeus amigos! - Assim, Marco se entregou à criatura, que o envolveu em suas chamas.
- Não! - Sophie tinha acabado de utilizar a fluidez do seu corpo liquido para ultrapassar a barreira imposta pelos elefantes - Marco! Por toque? - A elemental, prontamente, começou a atingir a criatura com jatos de água - Você vai pagar por isso!
- Sophie, o que aconteceu?! - perguntou Themba, o qual não conseguia ver o que estava acontecendo.
- A criatura... - ela continuava a atingir a fera de fogo com jatos de água - consumiu o Marco... ele... ele se foi - Sophie não conseguia conter as lágrimas.
- O que?! Mas... - Themba ficou calado por vários segundos, até que, finalmente, disse: - Sophie... talvez nós devêssemos fazer o que o Marco disse... - ele também não conseguia conter as lágrimas, mas estava tentando ser racional - Ele queria que fosse assim! Precisamos achar os outros!
- Mas Themba... nós precisamos vingar o Marco! - disse Sophie, veementemente.
- Olha, ele sabia que nós não conseguiríamos vencer essa criatura, então nos deu alguns minutos de vantagem! Por alguma razão, nossos poderes, mesmo combinados, não são suficientes!
- Mas... - Apesar da vontade de continuar lutando para vingar o amigo, Sophie, bem no fundo, sabia que Themba tinha razão - Tudo bem... - ela atacou a criatura pela última vez, então correu, passou pelos elefantes e se juntou a Themba, o qual também estava pronto para fugirem daquele local - Vamos! Guie-nos garoto! - Assim, o eles começaram a seguir o pastor alemão que Marco havia deixado para eles, o qual já começara a farejar o caminho. Quando já haviam percorrido alguns metros, ouviram os elefantes bramindo mais intensamente.

- Não está dando certo! - gritou Ethan, enquanto invocava uma imensa tempestade de fogo que consumia toda a câmara na qual ele estava - Nada mudou na sala.
- Continue tentando! - gritou Oliver, o qual estava do lado de fora da câmara com as outras duas elementais - Mas tome cuidado, não esqueça que agora você está na sua forma humana!
- Ethan, talvez o que você procura seja um sinal pequeno - complementou Cho - Fique de olho em todos os cantos da sala!
- Tudo bem, vou continuar tentando! - disse o elemental do fogo, intensificando a tempestade criada por ele.

- Garoto, eu não quero apressar o seu trabalho, mas nós estamos com um pouco de pressa! - disse Themba. O pastor alemão respondeu com um latido, então continuou a farejar o caminho - Já sei o que posso fazer! - ele criou uma barreira de pedra atrás deles - Já que o nosso amigo sabe o caminho, nós não precisaremos voltar, então não há problemas em selar as partes do túnel atrás de nós! Isso vai nos ganhar algum tempo, caso... ou melhor, quando aquela criatura passar pelos mega elefantes!
- Ótima ideia! - disse Sophie - Você acha que já estamos perto dos outros?
- Talvez! Veja só essas marcas na parede! - disse ele, apontando - Parecem setas e estão levando exatamente para onde estávamos indo! Talvez os outros estejam no lugar para onde essas setas levam! - Nesse momento, o cachorro começou a latir de forma cada vez mais aguda, então caiu no chão, imóvel. Pouco tempo depois, o animal desapareceu - Isso não é nada bom!
- O que aconteceu?! - perguntou Sophie, com expressão muito assustada.
- Eu não sei! Mas eu acho que... os animais não existem sem o Marco e... eu acho que ele se foi de vez...
- Então, todo esse tempo, ele ainda estava sendo... consumido? - Os olhos de Sophie estavam arregalados e as lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto novamente.
- Sophie, não havia nada que pudéssemos fazer! Se houvesse, eu teria feito!
- Mas ele sofreu... ele passou vários minutos sofrendo...
- Eu sei, mas eu prefiro não pensar sobre isso, ou eu não conseguirei seguir em frente! Mas nós precisamos, pelo Marco! e pelos outros! - disse Themba - Vamos seguir essas setas e ver para onde elas levam!

- Eu achei! - disse Ethan, o qual sorria enquanto olhava para um pequeno triângulo incandescente na parte inferior de uma das paredes da câmara. O mesmo símbolo que ele vira seis anos atrás, quando foi levado até Flamus. Ele cessou a tempestade de fogo e direcionou uma rajada de fogo para o triângulo - Aperi! - Imediatamente, uma porta se formou no lugar onde antes estava o símbolo de Flamus - Gente, vocês precisam ver isso!
- O que foi? - Oliver e os outros correram ao encontro de Ethan. Quando o elemental do gelo viu o que Ethan havia mencionado, disse: - Esse é o...
- Flamus! - disse Gabriela, animada - Nós o encontramos!
- Sim! Finalmente!
- Então esse é o Flamus! Ele é lindo! - comentou Cho.
- Sim! Muito lindo! - disse Oliver.
- O que?! - reclamou Ethan.
- Ethan, cala a boca a acorda logo ele, antes que alguma daquelas criaturas apare... - A fala de Oliver foi interrompida pelo ataque de uma fera e fogo, a qual derrubou Ethan no chão - Ethan! Não acredito! - ele, rapidamente, invocou uma nevasca - Larga ele!
- Eu estou perdendo os meus poderes! Me ajudem! - disse Ethan, com tom de voz bastante fraco. Ele estava preso sob o corpo da criatura, a qual estava lentamente absorvendo a essência elemental de Ethan.
- Os meus poderes são inúteis Oli! Desculpa! - disse Gabriela, em tom triste. Ela e Cho haviam se posicionado atrás de Oliver quando a criatura atacara.
- Eu nem possuo mais poderes!
- Tudo bem garotas! Eu vou ter que dar conta disso! Afinal, se o Ethan perder os poderes, nós nunca conseguiremos acordar Flamus e, consequentemente, nunca sairemos desse lugar!

- Mas e agora? - disse Sophie, olhando para o rio de lava - As setas terminam aqui!
- Espere aqui! - Themba construiu uma ponte de pedra até o outro lado do rio, onde o túnel continuava e caminhou até o local - Não há mais setas aqui! Então esse não é o caminho certo! - Ele voltou para o lado onde havia deixado Sophie, então disse: - Eu tive outra ideia! Mas isso vai requerer muito poder! Fique de olho no rio Sophie! - O elemental da terra construiu uma barreira no leito do rio de lava, a qual durou apenas cinco segundos, frente ao grande fluxo, mas foi o suficiente para confirmar a teoria do rapaz - Você viu?
- Sim! Eu vi uma seta no chão! Acho que devemos seguir o curso do rio naquela direção! - disse Sophie, apontando para o curso do rio.
- Tudo bem, eu sei o que fazer! - Themba fez pilares surgirem por toda a extensão visível do rio, então conectou os pilares e formou uma enorme ponte de pedra - Sorte nossa que eu estou na minha forma elemental, porque a essa altura eu já estaria petrificado ou teria virado poeira se estivesse na minha forma humana! Vamos logo Sophie, eu não sei quanto tempo esses pilares irão aguentar a força do rio!

- A criatura não está soltando o Ethan! - disse Oliver, em desespero - Eu estou usando o máximo de poder que posso, sem perder o controle! Mas a criatura está apenas derretendo o gelo! Que estupidez da nossa parte voltarmos à nossa forma humana!
- Calma Oli - disse Gabriela - Você está dando o melhor de si!
- É verdade Oliver! - complementou Cho.
- Oliver... - Ethan estava, visivelmente, no limite.
- Você não vai levar outro dos meus amigos! - disse Sophie, lançando um jato de água sobre a criatura, o qual, associado aos poderes de Oliver, fez a criatura congelar no lugar onde estava. Ethan conseguiu se libertar e correr para onde os outros elementais estavam.
- Amigos! Você conseguiram!
- Muito obrigado Sophie! Agora nós podemos, definitivamente, acabar com essa criatura!
- Definitivamente!
- Não se esqueçam de mim! Mas, por que vocês voltaram à forma humana?! - perguntou Themba - Como isso aconteceu?
- É uma longa história! Mas, antes de te contar, temos outras coisas para resolver! - respondeu Oliver, apontando para a criatura, a qual estava livre novamente - Ethan, Gabriela e Cho, fiquem atrás de nós! Estão prontos para acabar com essa criatura!
- Claro!
- Só se for agora! - Themba invocou uma caixa de pedra, a qual encurralou a criatura em um espaço fechado. Enquanto isso, Sophie e Oliver combinaram seus poderes para preencher a caixa com água e, posteriormente, gelo. Desse modo, a criatura ficou presa em um bloco gigante de gelo, o qual estava sendo constantemente mantido sólido pelos elementais do gelo e da água.
- Essa foi por pouco! - disse Ethan, ainda debilitado.
- Vai ficar tudo bem! O Oliver sabe o que está fazendo!
- Eu não tenho dúvidas - o elemental do fogo mantinha os olhos fixos em Oliver, admirando a forma como o elemental do gelo estava conduzindo as coisas. Há algum tempo, os dois haviam conversado sobre a possibilidade de Oliver liderar o grupo de elementais, mas ele nunca aceitara a ideia porque achava que não tinha espírito de liderança. Ethan nunca estivera tão feliz de ver que Oliver estava errado sobre alguma coisa.
- Gabi! Você consegue produzir algum tipo de remédio para acelerar a recuperação do Ethan, utilizando os seus poderes?
- Talvez ginseng possa melhorar a fadiga! - a elemental das plantas produziu alguns exemplares - Eu vou preparar um tônico!
- Ótimo! Mas, por favor, faça isso o mais rápido possível! - disse Oliver, decidido - Eu acho que podemos derrotar a criatura, mas vou precisar da ajuda do Ethan!
- Eu posso ajudar! - disse o elemental do fogo, tentando se levantar.
- De jeito nenhum - disse Cho, impedindo Ethan - Se você tentar usar os seus poderes nesse estado, provavelmente vai se consumido pelas chamas!
- Ela tem razão amigo! Acho melhor você esperar o tônico que a Gabriela está preparando fazer efeito! Assim você pode nos ajudar mais! -pontuou Themba.
- Vocês estão certos! É só que... vocês salvaram a minha vida... eu queria poder retribuir o favor!
- É claro que nós te salvamos bobo! Você é nosso amigo! - disse Sophie - Não se preocupe conosco! Nós somos fortes! Além disso eu e o Themba ainda estamos em nossa forma elemental, o que significa que temos poder praticamente ilimitado! Agora, Oliver... você, definitivamente, deveria descansar e tomar um pouco do tônico que a Gabriela está fazendo! Se vocês dois vão utilizar os poderes para derrotar a criatura, você precisa estar descansado!
- Eu concordo! Vem aqui Oli!
- Vocês têm razão! - respondeu Oliver - Mas, se eu parar, a criatura vai se libertar!
- Deixa com a gente! Certo Sophie?
- Com certeza! - respondeu a elemental da água, confiante.

Vários minutos se passaram, nos quais Themba e Sophie utilizaram os seus poderes para manter a criatura imersa em água dentro de uma caixa de pedra. Porém, logo chegara o momento em que os elementais do gelo e do fogo poderiam combinar os seus elementos novamente.

- Você está pronto? - perguntou Oliver, segurando a mão direita de Ethan.
- Sempre, com você ao meu lado! - os dois caminharam de mãos dadas e se posicionaram ao lado de Themba e Sophie, os quais pareciam surpresos com a evidente relação entre Oliver e Ethan, mas não mencionaram nada - Vocês dois foram sensacionais! Mas agora é a nossa vez! Muito obrigado por enfraquecer a criatura para nós!
- Pode apostar amigo! Mas qual o plano?
- Nós, acidentalmente, derrotamos duas dessas criaturas utilizando uma combinação dos nossos poderes!
- Sério?! - perguntou Themba, confuso - Isso parece impossível!
- Foi o que nós pensamos! - respondeu Ethan - Mas, aparentemente, gelo e fogo podem se combinar de uma forma inimaginável! Olhem só! Vamos lá Oli! 3...2...1...agora! - uma rajada mista de gelo e fogo percorreu a distância entre eles e a criatura, a qual foi atingida em cheio e, prontamente, se tornou um bloco inanimado de cristal de gelo.
- Mas o que foi isso?! - perguntou Sophie, extremamente surpresa - Isso foi incrível! Onde vocês aprenderam essa técnica?
- Como eu disse, foi acidental! Mas, aparentemente, essa técnica foi criada por Gélim e Flamus para ser usada pelos elementais de gelo e fogo!
- Será que todos os elementais de gelo e fogo estão destinados a se amar? - disse Sophie, rindo. Aparentemente, derrotar a criatura deixou o clima na câmara bem mais leve.
- Eu não sei! Mas isso, com certeza, é verdade para a dupla de elementais que vocês estão vendo - Ethan continuava segurando a mão de Oliver - Porque eu amo muito esse carinha!
- Mas o que está acontecendo? - disse Cho olhando para a própria mão, da qual emanava uma corrente elétrica - Eu achei que tinha perdido os meus poderes!
- Então você ainda é uma elemental!
- Sim! Eu ainda sou a elemental da eletricidade!
- Isso é muito bom Cho! Bem-vinda de volta ao mundo elemental!
- Isso é realmente muito bom! E vai ficar ainda melhor quando eu despertar Flamus! - disse Ethan, caminhando em direção ao leito no qual repousava o Imortal do fogo. Quando chegou perto, proferiu as seguintes palavras: - expergiscere igne tiger!
- Satis! - disse o Imortal do fogo, olhando para a entrada na câmara, na qual estava a última criatura guardiã do santuário.
- Flamus! Você está vivo e acordado!
- Sim! Graças a vocês! - responde o Imortal em tom calmo, olhando para cada um dos elementais presentes no local.

Assim, o objetivo dos elementais tinha, finamente, sido alcançado. Apesar de algumas perdas, agora o grupo estava reunido novamente e eles tinham conseguido acordar um dos Imortais. Agora poderiam sair da caverna onde tinham entrado com muitas dúvidas e, com sorte, eles obteriam as respostas.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Capítulo 8 - Aqueles que Amam

-Você tem certeza disso? - perguntou Pietro, enquanto caminhava ao lado de Enzo pelos corredores do Palácio Shopping Center - Você pode ter imaginado...
- Você esta me chamando de doido? - respondeu Enzo, indignado.
- Não! Desculpa Enzo, mas é que isso é muito sério! - disse Pietro - Você poderia ter morrido! Eu nem acredito que isso tenha acontecido! E como se já não fosse ruim o suficiente, você ainda me diz que o Lucas deliberadamente te deixou se afogar?!
- Eu sei! Eu também não acredito nisso! Eu nunca fiz nenhum mal para ele! Eu não sei o porquê disso e não sei o que fazer com essa informação! Mas eu tenho certeza do que eu vi Pietro!
- Tudo bem amigo, eu acredito em você! O que o Daniel disse sobre isso?
- Eu não contei para ele... para não estragar o fim de semana, sabe? Ele estava tão feliz! Mas eu vou conversar amanhã com ele.
- Eu imagino o porquê da felicidade! Vocês estão noivos! Isso é tão bom Enzo! Fico muito feliz por vocês!
- Obrigado Pietro! Eu queria que você estivesse lá conosco, mas não foi nada premeditado! Você é um dos primeiros a saber, depois dos meus pais, eu juro!
- Tudo bem - respondeu Pietro rindo - Contanto que eu não seja o último a saber! E você já falou com o Guilherme?
- Não, eu vou falar agora! Espero que você não tenha comentado nada!
- É claro que não! - respondeu Pietro - Eu deixei a tarefa para você, já que você vinha comigo.
- Sim! Muito obrigado por me convidar para o cinema, eu estava precisando sair de casa!
- Claro! Bem, na verdade era para ser um encontro de casal, mas o Daniel não pode vir... espero que não fique desconfortável por "segurar vela" - disse Pietro rindo.
- Bom, eu acho que não... - respondeu Enzo - Na verdade eu nem ligo de "segurar vela", só acho um pouco estranho ir ao cinema com meu ex-namorado e meu amigo, que já se declarou pra mim! - finalizou ele rindo.
- Nossa, quando você diz isso dessa forma, parece realmente bastante estranho!
- Eu sei, mas agora vocês dois são o meu casal de melhores amigos! Vamos logo encontrar o Gui, porque ele já deve estar impaciente!
- A culpa é sua por demorar tanto naquela loja!
- Bem, a culpa não é minha se eu preciso de ajuda para experimentar calças! Eu vou dizer isso para ele e aposto que não vou ouvir qualquer reclamação! - disse Enzo, rindo.
- Isso é golpe baixo! - respondeu Pietro, também rindo.

Naquela terça-feira, Pietro e Guilherme esperavam que Enzo e Daniel pudessem acompanhá-los ao cinema. Porém, Daniel estava tendo uma semana muito complicada na universidade. Desse modo, naquela noite seriam apenas os três amigos indo ao cinema. Enzo e Pietro foram mais cedo para o Palácio Shopping, já que Enzo precisava de ajuda para escolher algumas peças de roupa e Pietro não teria aula no período da tarde. No início da noite, eles encontraram Guilherme na praça de alimentação, o qual já estava, como esperado, impaciente pelo atraso de mais de meia hora.
A sessão para a qual haviam comprado ingresso começava bem mais tarde, então os três tiveram muito tempo para conversar sobre diversos assuntos, incluindo o que havia acontecido com Enzo durante o final se semana.

- Como você conseguiu ficar o resto do fim de semana sem falar nada sobre isso para o seu namorado?! - perguntou Guilherme, depois de ouvir o que Enzo contara.
- O que poderia fazer? - disse Enzo, incerto - Eu não tenho provas e eu não queria estragar o nosso fim de semana. O domingo não foi tão ruim, embora eu tenha evitado a piscina qualquer custo! Nós brincamos com jogos de tabuleiro a maior parte do dia e voltamos na segunda-feira cedo para cá. Eu troquei poucas palavras com o Lucas, então não foi tão difícil. Hoje, durante a sessão de Terapia Ocupacional, eu também nem precise manter qualquer tipo de contato com ele, já que ele não é mais meu terapeuta.
- Enzo! Não seja bobo! - disse Guilherme, visivelmente agitado - Isso é muito sério! Só de pensar que você poderia ter... Eu quero quebrar a cara desse Lucas! Você deveria ter contado para o Daniel! Ele não iria duvidar de você! E se ele ousasse duvidar, ele seria um idiota!
- Mas então você acredita em mim? - Enzo estava realmente surpreso.
- É claro Enzo! Não esqueça que namoramos por um bom tempo! Você é controlado demais para verbalizar isso sem ter muita certeza de que é verdade! Se você tivesse o mínimo de dúvida, eu duvido que você fosse contar isso a outra pessoa!
- Isso é verdade! Eu fico feliz de saber que você ainda me conhece tão bem - Enzo se moveu em direção à cadeira de Guilherme e abraçou o ex-namorado.
- Eu acho que vou comprar um refrigerante... - disse Pietro, enquanto se levantava e caminhava rapidamente para longe da mesa.
- Espera amigo, eu vou com você! - disse Enzo, mas Pietro já estava longe - Nossa, ele nem esperou... Será que ele está bem?
- Ele está bem... - disse Guilherme - Eu acho que ele... sente um pouco de ciúmes do quão bem eu te conheço, mas não há nada que eu possa fazer sobre isso... Eu vou conversar com ele! Eu já volto Enzo!
- Tudo bem... - Enzo ficou confuso com a situação, pois não imaginava que Pietro tivesse ciúmes da relação entre ele e Guilherme. Quando pensou bem no assunto, até que fazia sentido, já que Guilherme e ele continuavam muito próximos, mesmo depois de tanto tempo decorrido desde que haviam namorado. Porém, esses pensamentos foram interrompidos pela chegada de outra pessoa na mesa onde Enzo estava sentado.
- Oi Enzo! - disse Lucas, aproximando-se do rapaz - Que coincidência te encontrar aqui pelo shopping!
- É... - respondeu Enzo, um pouco atordoado, visto que, depois do ocorrido, não tinha interagido ativamente com Lucas - Eu vim fazer algumas compras...
- Está tudo bem? Você parece um pouco abatido.
- Sim! Tudo bem... Bom, não exatamente, na verdade... Escuta, você tem um segundo? - Enzo indicou o assento para Lucas.
- Claro! - disse Lucas, sentando-se - O que foi?
- Olha, eu não deveria fazer isso, mas eu não importo com o que você vai pensar de mim ou se você vai admitir ou não... - começou Enzo.
- Como assim Enzo? Eu não entendo...
- Olha, eu sei o que aconteceu na piscina! - disse Enzo, finalmente - Eu sei que você ficou me olhando, sem fazer nada, por vários segundos, enquanto eu me afogava na piscina! E aí?
- Enzo... - respondeu Lucas, com uma expressão triste - Eu não sei o que dizer... eu achei que você não tivesse visto...
- O que?! - exclamou Enzo, em tom de voz levemente alterado - Então você admite!!
- Sim... - respondeu Lucas com a expressão inalterada - Eu não me orgulho disso Enzo! Foi um momento de fraqueza! Eu acho que estava com ciúmes... eu não sei! Eu te peço desculpas por isso!
- Lucas... eu nem sei o que pensar... - disse Enzo, em tom de voz mais calmo - A minha vida já tem sido complicada demais sem alguém que meio que tentou me matar... olha, eu não posso lidar com isso agora...
- Tudo bem Enzo? - disse Pietro, que acabara de chegar na companhia de Guilherme - Oi Lucas...
- Oi Pietro... pelo visto ele já sabe né? - perguntou Lucas para Enzo.
- Sim Lucas e não está muito satisfeito com a notícia... - respondeu Enzo.
- Bem, então eu acho que é melhor eu ir...
- Eu concordo - intrometeu-se Guilherme - E também acho que você deveria ficar bem longe do meu amigo!
- Calma Gui, eles já está indo embora! - disse Enzo, apaziguando - Não é Lucas?
- Claro... Desculpa pelo que houve Enzo!

Assim, Lucas se retirou. Os três rapazes não tiveram tempo para discutir o que acontecera, visto que a sessão para a qual haviam comprado ingresso começava em poucos minutos. Porém, depois da sessão, o assunto veio a tona.

- Ele simplesmente admitiu?! - disse Pietro - Sinceramente, eu não sei se eu acho isso bom ou ruim!
- Exatamente! Eu também não sei o que pensar! - disse Enzo - Eu... nossa, ele parecia genuinamente arrependido...
- Cuidado Enzo! - disse Guilherme - Ele pode estar fingindo! Não o perdoe assim tão fácil! Eu sei que você é uma pessoa muito boa, mas precisa fingir que não é nesse caso, pois não sabemos os porquês desse cara! Já foi muito estranho o modo como ele entrou na sua vida... depois ele foi convidado para uma viagem que tão reservada essa... e, pra fechar com chave de ouro, ele confessadamente te deixou se afogar! Isso não soa como alguém que você quer perdoar tão fácil ou mesmo ter por perto!
- Ele tem razão! - concordou Pietro - O Lucas é muito estranho e você deveria ter cuidado!
- Eu prometo que vou ter cuidado gente! Obrigado pela preocupação! - respondeu Enzo - Mas mudando de assunto, está tudo bem entre a gente?
- Como assim? - perguntou Pietro.
- Bem, eu não sei... eu senti um atrito mais cedo e queria esclarecer as coisas...
- Ah sim... - respondeu Pietro, corando - Eu agi como bobo amigo, eu peço mil desculpas! Mas vocês dois tem tanto em comum, que às vezes eu me sinto deslocado!
- Eu entendo! Se eu estivesse no seu lugar, eu também acharia tudo muito irritante! Principalmente, o Gui! - finalizou Enzo, rindo.
- Ei! Eu sou o sedutor lembra? - protestou Guilherme - O irritante é você!
- Você é o que?! - exclamou Pietro.
- Sedutor aposentado, foi isso que eu quis dizer! - corrigiu-se Guilherme, prontamente - Agora eu só seduzo uma pessoa: você!
- Essa foi por pouco! - disse Enzo, rindo novamente.
- Por pouco mesmo! - concordou Pietro.
- Ah, parem de se unir contra mim! - respondeu Guilherme - Assim a nossa relação não vai funcionar! - finalizou ele com uma expressão sedutora, caraterística.
- Como assim?! Até parece que estamos falando de um triângulo amoroso! - disse Pietro.
- Nem vem! Eu sou noivo!
- Eu não tenho ciúmes! - disse Guilherme, rindo.
- Mas eu tenho - respondeu Pietro, dando um leve tapa na nuca de Guilherme.
- O meu namorado também é ciumento Gui! - acrescentou Enzo - E, por falar em ser noivo, não esqueçam que amanhã teremos o jantar na minha casa para "oficializar" o meu noivado! Mesmo que, segundo o Seu Pedro, essa não seja a oficial de fato, pois ele insiste que façamos algo bem maior em algum outro momento! Amanhã teremos apenas os nossos pais e vocês!
- Eu fico muito feliz que você tenha nos convidado para um evento que parece tão íntimo! - disse Guilherme, abraçando o amigo - Muito obrigado Enzo!
- É claro! Vocês são como meus irmãos! Não poderia deixar de convidar vocês! Minha mãe concorda comigo!
- Ai, eu também estou lisonjeado! - disse Pietro - Além disso, só de pensar na comida da dona Maria já me faz salivar!
- Pois é! Então nem ouse faltar!
- Eu nem pensaria nisso!

No outro dia, os preparativos para o jantar na casa de Enzo começaram cedo. Os pais do rapaz haviam, surpreendentemente, sido muito receptivos à notícia, depois que Enzo explicou como aquilo funcionaria. Pedro, Maria e Roberto haviam conversado bastante no dia anterior sobre o tal jantar de comemoração e, como os noivos haviam expressado a vontade de fazer algo bastante reservado, ficara decidido que os pais de Enzo seriam os anfitriões e Maria faria algumas de suas especialidades culinárias. Pedro não se opôs à ideia, mas insistiu que Zuleica servisse o jantar, a fim de que Maria pudesse desfrutar do momento, sem preocupações. Assim, Maria estava desde cedo trabalhando no que seria servido à noite.
Enzo teve sessão na clínica de Fisioterapia de manhã, mas não teve muito que fazer à tarde. O pai estava trabalhando e, infelizmente, os amigos e o namorado teriam aulas o dia todo. Ele até tentou ajudar a mãe mas, como ele bem sabia, Maria ficava muito estressada e mandona quando estava cozinhando, então ele preferiu dormir. A sessão tinha sido bem trabalhosa, portanto cair no sono não foi tão difícil. Ele foi acordado por um suave, quente e reconfortante beijo na testa.

- Acorda Lindo! - disse Daniel, em tom de voz calmo e com um sorriso no rosto - A gente vai noivar, lembra?
- Como eu poderia esquecer?! Fui eu quem propus, lembra? - respondeu Enzo, rindo.
- Isso porque você roubou o meu momento! - replicou Daniel, apertando as bochechas do namorado.
- Você me conhece! - De repente, Enzo notara o modo como Daniel estava vestido - Amor! Você está deslumbrante! - Daniel vestia um traje social, com um paletó preto que lhe caia muito bem, uma calça preta bem ajustada ao seu corpo e uma gravata vermelha que realçava o tom claro da sua pele e combinava com a cor dos seus lábios. O seu cabelo preto, o qual estava ligeiramente longo, estava arrumado para trás, em um padrão que deixava os seus olhos azuis e o seu nariz de tamanho proporcional ao rosto em evidência.
- Obrigado amor! Eu queria ser "deslumbrante" pra você todos os dias, mas dá tanto trabalho! - disse ele rindo.
- Não foi isso que eu quis dizer! - defendeu-se Enzo - Eu digo que você é lindo todos os dias! Mas hoje você está... um verdadeiro príncipe!
- Nossa! Obrigado! - disse ele, corando - Você quer que eu vá pegar meu cavalo branco para te levar ao baile no castelo real? - Daniel gesticulava e falava. tal como nos filmes que havia assistido, nos quais haviam príncipes encantados.
- Sim, por favor! - respondeu Enzo em tom compatível - Enquanto isso, eu vou tomar banho e colocar os meus trajes adequados para ir a um baile real!
- Você é muito bobo mesmo! - Daniel se jogou na cama com Enzo e começou a beijar o namorado.
- Amor! Você vai se amarrotar todo! - exclamou Enzo - Sai! Eu não quero que você estrague o seu traje de príncipe! Além disso, eu realmente preciso tomar banho, porque se você já está aqui eu devo ter dormido muito!
- Não, relaxa! Eu que cheguei cedo mesmo!
- Bem, de qualquer forma eu preciso tomar banho! Me ajuda com a cadeira?
- Claro!

Enquanto Enzo tomava banho, Daniel conversava com Roberto, o qual havia chegado do trabalho há pouco tempo e estava fazendo sala para o rapaz. Maria estava finalizando os preparativos do jantar quando Zuleica chegou e assumiu a finalização do trabalho, enquanto Maria poderia se arrumar. Pouco tempo depois, Enzo estava pronto: vestia uma calça preta como Daniel, mas optou por um paletó com um padrão discreto de listas verticais e uma gravata azul. O cabelo preto ondulado de Enzo também estava ligeiramente longo e agora começava a formar cachos. A escolha da roupa favoreceu o tom de pele oliva e os olhos verdes do rapaz.

- Pai, obrigado por fazer companhia para o Daniel! - disse ele, aproximando-se do sofá onde Roberto estava sentado - Pode ir se arrumar, eu já estou pronto.
- Tudo bem filho, já está quase na hora dos convidados chegarem realmente - respondeu Roberto - Depois continuamos essa conversa Daniel.
- Tá certo, vá lá Seu Pedro! - respondeu Daniel. Então, dirigindo-se a Enzo, disse: - Ora, ora! Quem é o príncipe agora?
- Ai não começa! - respondeu Enzo, corando - Você sabe que eu não sei lidar com elogios!
- Eu sei! Mas não tem como eu deixar de reparar na sua beleza! Ela está irradiando de você e quase me cegando!
- Não seja dramático! - respondeu Enzo, rindo e revirando os olhos.
- Eu não sou dramático! Eu sou romântico!
- Eu sei! É por isso que eu te amo tanto! - disse Enzo. Então mudando o tom, continuou: - Amor, mudando de assunto, eu não sei se esse é o melhor momento, mas tem algo que eu preciso te contar!
- O que foi amor?! - respondeu Daniel, preocupado.
-Bem, é sobre o meu quase afogamento no fim de semana... algo que aconteceu durante eu estar na água... antes de eu desmaiar...
- Amor, você está me deixando preocupado! Tem algo de errado com você? Está sentindo alguma coisa?
- Não... Ai amor, eu não sei como te dizer isso... Bem, eu vou direto ao assunto! Quando eu estava na piscina, eu vi que a pessoa que estava na beira da piscina ficou parada por vários segundos sem tomar qualquer tipo de iniciativa enquanto eu estava me afogando... e você sabe quem estava comigo naquele dia...
- Espera, então você está me dizendo que o Lucas... ele não te ajudou?! - Daniel estava, visivelmente, alterado - Amor! Isso é muito sério! Eu...
- Eu juro que é verdade amor! - interrompeu Enzo - Acredita em mim!
- É claro que eu acredito em você! - disse Daniel, abraçando o namorado - Eu não duvidaria de algo tão sério! Por que você não me contou antes?! Já faz dias que isso aconteceu! Amor, espera aqui, eu preciso fazer algo sobre isso! - completou ele, puxando o celular do bolso.
- O que você vai fazer amor? - perguntou Enzo.
- Não se preocupe! Vai ficar tudo bem!

Daniel estava, aparentemente, escrevendo uma mensagem de texto e Enzo podia ver que o namorado estava bastante exaltado. Alguns minutos depois, o rapaz provavelmente enviou a mensagem e voltou a conversar com o futuro noivo.

- Desculpe, mas eu precisava falar algo para o Lucas! Isso não se faz com ninguém e, principalmente, com alguém como você que só ajudou ele desde que vocês se conheceram! Eu estou muito decepcionado com ele e eu quero te pedir desculpas amor, porque fui eu que convidei ele e, indiretamente, te causei esse problema! Eu sinto muito!
- Que nada amor! Você não tem culpa! O Lucas parece bem mais problemático do que eu pensava! Ele admitiu tudo ontem, quando eu o confrontei!

Enzo atualizara Daniel sobre a noite anterior, já que o rapaz não pudera ir. Decorrido algum tempo, Pietro e Guilherme chegaram. Logo em seguida, Pedro também chegou. Por fim, Roberto e Maria estavam prontos, o que completou a lista de pessoas que deveriam estar presentes naquele dia. Houve um breve momento de socialização na sala de estar, até que Zuleica avisou que estava tudo pronto para que o jantar fosse servido. Porém, bem no momento em que todos se dirigiam para a mesa de jantar, uma pedra atravessou a janela e parou próximo aos pés de Daniel. Todos, evidentemente, ficaram muito surpresos e espantados com o acontecido, mas Enzo notou que havia um pedaço de papel enrolado no objeto, então resolveu pegar a pedra do chão, tomando cuidado com os cacos de vidro provenientes da vidraça que fora quebrada.

- Vocês estão todos bem? - perguntou Roberto, muito agitado. Conforme todos indicaram que sim, o pai de Enzo correu para fora da casa, a fim de identificar o autor daquela ação, mas não viu nada além dos vizinhos que também tinham corrido para fora de suas casas. Então, voltando para a casa, disse: - Os vizinhos não viram muita coisa e não tinha ninguém lá fora quando eu saí! Algumas pessoas dizem que viram um carro preto acelerando para fora daqui, mas não foram muito específicos! O que tem nessa pedra afinal? Alguma ideia de quem tenha feito isso?
- Eu não sei quem foi - disse Enzo - Mas essa pessoa não está muito satisfeita com o nosso noivado! - então ele mostrou a Roberto o pedaço de papel que estava enrolado na pedra, no qual estava escrito "Vocês não foram feitos um para o outro"

As pessoas presentes na sala começaram a discutir sobre o que havia acontecido, incluindo a necessidade de ir até uma delegacia para notificar o ocorrido, Em meio a toda a discussão, Enzo e Daniel se olhavam e compartilhavam, silenciosamente, a mesma questão: quem tinha feito aquilo?

sábado, 26 de março de 2016

Nota do Autor

Oi galera que acompanha o blog, queria compartilhar com vocês algumas informações:

1- Agradeço muito as visitas!

2- Agradeço muitos a todos que comentam as postagens com opiniões, criticas, conselhos e incentivos. Pois, dessa forma, eu posso saber qual a percepção dos leitores a respeito do que é compartilhado no blog.

3- Quem gostar e quiser acompanhar a história pode seguir o blog.

4- Estou adicionando alguns blogs aos favoritos que podem ser do seu interesse, então deem uma olhada no tópico "eu recomendo".

5- Agora nós temos três romances disponíveis para leitura e todos estão na integra em suas respectivas páginas "Enzo e Daniel", "Um Conto Medieval" e "Os Elementais". Mas quem já acompanha e quiser ver apenas as postagens novas de cada história pode acompanhar na página "início" mesmo. Quero lembrá-los de que eu não posto os capítulos na íntegra, portanto verifiquem  constantemente as páginas de cada capítulo para atualizações.

6- As dicas de filmes sobre a temática Romance Gay ganhou um espaço fixo na página "Top Filmes", então fiquem à vontade para conferir a minha lista pessoal, que estará constantemente sendo atualizada, conforme eu entrar em contato com novas obras cinematográficas desse tipo.

7- Peço desculpas aos leitores pela falta de publicações, mas no momento estou em uma fase muito complicada, na qual está cada vez mais difícil conseguir postar atualizações. Como todo mundo, eu tenho uma vida e há momentos nos quais não há espaço para o blog, mas asseguro que sempre que possível estarei escrevendo a continuação das histórias.


Valeu, continuem acompanhando, postarei atualizações em breve!

domingo, 10 de janeiro de 2016

Capítulo 7 - Revolução: A Nova Finnel

- Eu preciso ir atrás dele!
- Eu já lhe disse que não posso permitir isso! Pare de ser inconsequente! Nós estamos em guerra!
- Mas não tivemos qualquer notícia dele e já se passaram várias semanas!
- Irmão, eu sei que você está preocupado com o Bernardo, mas ele vai ficar bem! Eu tenho certeza!
- Você só diz isso porque o amor da sua vida está bem aqui, onde você pode vê-lo!
- Bem... talvez não por muito tempo...

William se retirou da reunião. Eu sabia que tinha ido longe demais e fui atrás dele para consertar o que eu havia feito.

- Espera William! Eu sinto muito!
- Está tudo bem Felipe...
- Não, eu sinto muito mesmo! Eu estava sendo egoísta quando disse aquilo! Eu sei que a situação do Tomás é crítica!
- Eu sei e eu estou com tanto medo!

Aquela era a primeira vez que eu via William chorar. Eu não sabia muito bem o que fazer, então permaneci em silêncio.

- Desculpa! Eu deveria ser mais forte, mas eu não sei o que eu faria se o pior acontecesse!
- Não vai acontecer! Ele vai ficar bem!
- Você sabe que isso não é verdade... Ele vai ter que perder a perna direita se quiser sobreviver! Eu não posso tomar essa decisão por ele e nem quero! Mas ele insiste que só vai tomar uma decisão com base em minha opinião! Isso está me consumindo, porque, obviamente, eu não quero que ele morra, mas ele é um guerreiro e eu tenho medo que, se perna for retirada, ele definhe por não poder andar como anteriormente!
- Eu entendo a sua aflição. Mas, se você quer a minha opinião, você deveria aconselhá-lo a deixar que cortem a perna, já que essa é a única maneira de conseguir com que ele fique vivo e depois vocês podem encontrar uma maneira de fazê-lo voltar a andar.
- Você tem razão! Eu não sei o porquê de tanta hesitação! Eu deveria me manter calmo, mas vê-lo doente por tanto tempo está acabando comigo!
- Isso é normal William! Ouça, se você quiser nós podemos ir agora conversar com ele e ajudá-lo a tomar a melhor decisão! Eu vou lhe oferecer suporte enquanto você explica o que decidiu para ele!
- Mas eu pensei que você queria ir atrás do Bernardo!
- Eu acho que isso pode esperar mais um dia! Além disso, essa é a minha forma de pedir desculpas por falar besteira durante a reunião!

Aproximadamente, cinco semanas haviam passado desde a fuga de Pasine. Do grupo que havia partido para atacar o reino do meu tio, apenas nove pessoas haviam retornado. Bernardo e Hugo haviam, voluntariamente, ficado para trás, a fim de se infiltrarem no exército de Conde Rafael, já que ambos haviam conquistado a confiança do meu tio. O restante das pessoas, infelizmente, havia morrido ao longo do tempo em que permanecemos prisioneiros em Pasine.
Quando retornamos a Finnel, o vilarejo que havíamos lutado tanto para construir estava completamente devastado e não havia qualquer sinal das pessoas que haviam ficado para trás. Nós sabíamos que Conde Rafael viria atrás de nós, então continuamos a nossa caminhada para outro local no qual pudéssemos nos esconder. Inicialmente, nos alojamos de forma precária em uma floresta muito densa nas proximidades de Finnel, tal como havia ocorrido depois da minha fuga de Heliópolis. Cada noite naquele local fazia-me lembrar de Bernardo, pois ele fora meu porto seguro enquanto eu ainda era um principezinho fraco e assustado que havia acabado de ser expulso de seu próprio reino. Porém, as coisas agora eram diferentes e eu precisava me manter calmo, já que, tecnicamente, eu ainda era o líder daquelas pessoas que haviam sobrevivido ao massacre em Pasine. Mesmo que o meu coração estivesse partido pela distância e pela incerteza que permeavam a minha vida com Bernardo naquele momento, eu tentei me manter centrado na missão de conduzir os meus companheiros a um local seguro.
A minha maior demanda era encontrar um local adequado para tratar Tomás, o qual havia sido atingido na perna direita por um dos guardas de Conde Rafael. Nós estancamos o sangramento, porém a ferida não se curou e foi progressivamente piorando. Além disso, a situação foi agravada pelo fato de nossa alimentação e asseio terem sido bastante precários durante as primeiras semanas, tanto por falta de recursos como pela necessidade de continuarmos escondidos dos guardas do meu tio que, provavelmente, estavam nos procurando.
Na segunda semana, William saiu para procurar outro local, visto que a situação de Tomás vinha piorando muito e não poderíamos mais permanecer naquela floresta ou ele certamente morreria. Felizmente, o meu irmão retornou com ótimas notícias: Carlos, um jovem rapaz que fazia parte do grupo que atacou Pasine, conseguiu escapar da emboscada e avisar ao nosso povo para que fugissem com algumas horas de antecedência do ataque que dizimou Finnel, o qual aparentemente não deixara vítimas. Posteriormente à fuga do nosso vilarejo, o nosso povo foi recebido nos vilarejos que faziam parte do então "quase reino de Finnel". Conde Rafael havia destruído a sede do nosso poder, a Finnel original, mas os vilarejos que nos apoiavam ainda existiam e, naquele momento, eles eram a nossa esperança.
Nós fomos muito bem recebidos no vilarejo para onde Carlos nos levou, o qual ficava ao sul do nosso antigo vilarejo e, portanto, ainda mais longe de Pasine, o que era perfeito para a nossa estratégia de fugir do alcance de Conde Rafael. As pessoas que faziam parte da antiga Finnel nos reverenciaram e nos trataram como heróis de guerra, mas eu não poderia ter me sentido menos heroico, pois muitas daquelas pessoas haviam perdido os seus entes queridos e eu não consegui impedir aquilo.
Outras três semanas decorreram, estranhamente sem nenhum sinal dos homens de Conde Rafael, embora tenhamos recebido notícias de ataques a outros vilarejos ao norte, os quais faziam parte da antiga Finnel. Durante esse período, eu e meus outros oito companheiros nos adaptamos à vida no nosso novo vilarejo, cujo nome era Arlyston. O vilarejo era consideravelmente menor do que Finnel e, considerando-se que muitas pessoas haviam mudado para lá recentemente, eu não fiquei surpreso quando fui designado a dividir um alojamento com outras três pessoas. Felizmente, Raul, Tomás e William concordaram em ficarmos no mesmo alojamento, de modo que a transição não foi tão difícil. Arlyston era um vilarejo predominantemente rural, de modo que a principal atividade era cuidar de bois e vacas, bem como lidar com derivados de leite e abate dos animais. Também havia porcos, ovelhas e galinhas em menor quantidade. O vilarejo tinha um conselho para realizar decisões importante e, mesmo sem ter pedido, fui incluído no grupo de conselheiros. Eu estava bastante à vontade com a função e vinha me sentindo muito bem com a vida no vilarejo, até que a saudade de Bernardo ficou insuportável e eu agi como idiota na frente de todos, bem como ofendi ao meu irmão.
Porém, depois do surto, eu percebi que estava errado e, para me redimir com William, eu ofereci o meu suporte para ele contar ao seu marido que o mesmo iria ter que abrir mão da perna direita, a qual piorou drasticamente desde que ele fora ferido em Pasine, mesmo com a ajuda de curandeiros e outras pessoas que estavam acostumadas a tratar de feridas. Segundo essas pessoas, o tempo na floresta não fez bem ao ferimento e quando Tomás chegou a Arlyston era tarde demais para remediar o estrago. A única medida efetiva seria cortar a perna dele, pelo menos até a altura do joelho, a fim de evitar que a gangrena se alastrasse para as outras partes do corpo.

- Você tem certeza?
- Eu sinto muito! Eu gostaria que houvesse outra solução, mas... eu não quero te perder Tomás, você tem sido meu companheiro há tantos anos! Eu nem imagino a minha vida sem você! Eu sei que eu estou sendo egoísta, mas... por favor, não me deixe! Permita que eles façam o que for necessário para te salvar!
- William... eu não sei se seria capaz de sobreviver dessa forma! Nós estamos em guerra e eu não quero ser um peso morto, caso vocês tenham que lutar ou mesmo se vocês tiverem que fugir! Eu não suportaria viver dessa forma!
- Eu sei Tomás! Eu conheço muito bem o homem com quem eu me casei! Eu não estaria te pedindo isso, se eu não tivesse refletido inúmeras vezes sobre o assunto! Eu sei que não posso decidir isso por você, mas já que você demanda a minha opinião, então saiba que eu prefiro te carregar nas minhas costas por todos os lugares, caso você não consiga andar, ao invés de ter que carregar o seu corpo morto para uma cova.
- William... Eu te amo! Eu não tenho certeza de como vai ser o resto da minha vida sem parte da minha perna, mas já que você está tão decidido a permanecer do meu lado, eu aceito me submeter ao procedimento. Mas eu preciso que você esteja comigo, o tempo todo! Eu não vou mentir William, eu nunca tive tanto medo na minha vida!
- É claro que eu vou ficar ao seu lado! Não se preocupe!

Eu não quis fazer parte da conversa porque me pareceu que aquele momento pertencia a eles e não a mim, então eu discretamente me retirei do alojamento. O amor que existia entre William e Tomás era reconfortante e, ao mesmo tempo, doloroso, porque eu adorava ver o quanto eles se amavam, mas isso me lembrava de Bernardo e toda a saudade que eu sentia naquele momento.
Raul ainda estava na reunião e eu havia saído sem muita explicação, então eu resolvi voltar ao local onde todos estavam reunidos, para me desculpar com os demais. Como esperado, as pessoas do vilarejo foram muito gentis e receptivas ao meu pedido de desculpas. Todos na cidade sabiam do sacrifício de Bernardo, então não era segredo para ninguém que eu estava passando por um momento muito difícil. Antes do meu surto, a reunião daquele dia estava pautada na possibilidade de enviar pequenos grupos para outros vilarejos, em busca de novas informações sobre os avanços de Conde Rafael, afinal nós não tínhamos sido atacados ainda, mas vivíamos todos os dias com a certeza de uma iminente nova batalha contra o meu tio. Eu me voluntariei para ir até os vilarejos do norte, os quais eram mais próximos de Pasine, mas os meus companheiros sabiam que as minhas reais intenções eram ir até o reino do meu tio para ter certeza de que o meu marido estava vivo. No fim, eu desisti de participar das missões de busca e me voluntariei para ficar em Arlyston cuidando do povo que me acolheu.
Raul resolveu se juntar a um dos grupos de exploração. Ele vinha exercendo uma forte influência sobre as pessoas do vilarejo, pois, ao contrário de mim, ele estava bastante focado em sua nova função como conselheiro. Nós continuávamos conversando bastante, mas eu ainda não tinha conseguido definir o estado emocional dele.  Segundo William, o rapaz que Raul tinha acabado de conhecer antes de sairmos de Finnel, cujo nome era Paulo, havia morrido durante a batalha em Pasine. Porém, Raul não parecia desconfortável com o assunto e não demonstrava estar sofrendo por isso. Entretanto, ele não gostava de tocar no assunto de Hugo ter ficado para trás, o que me fazia suspeitar que ele, na verdade, não o tinha superado. De qualquer modo, Raul era a pessoas mais visivelmente equilibrada do nosso grupo no momento. Quando a reunião acabou, nós voltamos juntos para o nosso alojamento.

- Então vocês partirão em dois dias?
- Sim, nós precisamos de mais informações o mais breve possível! Eu não sei o que o seu tio está preparando, mas deve ser bem grande! Ele já deveria ter nos atacado, afinal este vilarejo não é tão fora de rota e estava claramente ligado a Finnel! Se ele ainda não nos atacou, é porque está planejando algo muito bem elaborado!
- Eu concordo! Nós precisamos estar preparados!
- Sim! Escuta, está tudo bem com você? Tem certeza que não quer que eu fique para te ajudar a lidar com todas essas pessoas?
- Não Raul, eu estou bem! Eles precisam de alguém com a sua liderança para guiá-los nessa missão! Eu... você sabe... estou sentindo falta do Bernardo e não resisti à possibilidade de poder ir vê-lo! Mas eu preciso agradecer o fato dessas pessoas terem me acolhido através da priorização da necessidade coletiva ao invés da minha necessidade egoísta de ver o Bernardo!
- Eu entendo! Você tem toda razão de se sentir assim, já que o seu marido ainda está naquele lugar! Não se preocupe, ele é um rapaz forte e muito corajoso! Você deveria ter visto o modo como ele organizou a operação que nos permitiu fugir de lá!
- Infelizmente, esse é um lado do Bernardo que eu ainda não vi... mas espero poder ver algum dia!
- Ele te ama! Esse sentimento foi o que moveu todas as ações dele e veja o que ele conseguiu! Ele nos tirou de lá! Não subestime a capacidade de uma pessoa apaixonada de fazer de tudo para poder voltar para o alvo da sua paixão! Ele vai voltar para você!

Raul havia me contado tudo o que acontecera naqueles mais de dois meses nos quais nós tínhamos sido prisioneiros de Conde Rafael. Conforme o meu tio havia dito, a maioria das pessoas que partira de Finnel morrera durante a emboscada do meu tio. Os sobreviventes, exceto eu, foram trancafiados no calabouço, sem receber qualquer tipo de assistência. Dessa forma, inevitavelmente, muitas pessoas acabaram morrendo de sede nos primeiros quatro dias. Posteriormente, quantidades mínimas de água foram fornecidas aos prisioneiros, porém muitos ainda morreram de desnutrição e por complicações devido a feridas mal curadas. Depois de mais alguns dias, apenas quinze pessoas haviam resistido ao tempo no calabouço.
Certo dia, o meu tio foi ao calabouço e ofereceu o tal tratamento para a homossexualidade aos prisioneiros, alegando que queria fazer deles exemplos, para que as pessoas pudessem ver a efetividade do seu tratamento. Para a surpresa de todos, Bernardo se voluntariou e foi submetido às sanguessugas. Ele foi devolvido ao calabouço, embora pudesse desfrutar de comida e água, os quais ele dividia com as outras pessoas. Dois dias depois, ele foi levado à presença do meu tio novamente, o qual informou a Bernardo que ele seria deixado a sós em um quarto com uma serva, para que ele pudesse demonstrar a efetividade do tratamento.
Posteriormente, Bernardo contou a Raul que pensava que seu plano estava fadado ao fracasso, já que ele não conseguiria manter relações sexuais com a serva. Porém, milagrosamente, a moça implorou a Bernardo que ele não fizesse aquilo, pois ela estava apaixonada por outra pessoa e queria se manter virgem até o casamento. Desse modo, ele fingiu que a estava poupando e que, entretanto, ela deveria contar a todos que ele havia mantido relações sexuais com ela. A serva fez como pedido e, felizmente para Bernardo, a partir daquele dia o meu tio passou a exibi-lo como um troféu e uma prova de que existia uma cura para a homossexualidade. Não demorou muito para que Bernardo ganhasse ainda mais a confiança de Conde Rafael, o qual havia sido cegado pela própria soberba. Bernardo ascendeu ao posto de guarda e, frequentemente, ia ao calabouço com a desculpa de torturar os outros prisioneiros, a fim de "convertê-los" para o bom caminho. Ele, de fato, teve que ferir superficialmente alguns de seus companheiros, a fim de dar veracidade à sua desculpa para estar no calabouço e inclusive levou Hugo para ser submetido ao tal tratamento, o qual também conquistou rapidamente a confiança de Conde Rafael e passou a fazer parte da equipe que cozinhava para o meu tio.  Porém, na verdade, todos os dias em que Bernardo foi ao calabouço, ele levava comida para os nossos companheiros, a fim de fortalecê-los, bem como estava planejando uma fuga junto com as outras dez pessoas que haviam sobrevivido a todo o tempo que permanecemos em Pasine.
O plano envolvia, discretamente, entrar no castelo para me resgatar e fugir em seguida. O plano foi elaborado durante vários dias e, conforme informações de Bernardo, o qual estava infiltrado nas reuniões de meu tio, poderia ser operacionalizado quando Conde Rafael fosse a outro reino para outra de suas famosas "caçadas", pois ele geralmente levava boa parte dos seus homens consigo nessas ocasiões. O plano realmente iniciou como esperado, mas alguns guardas do meu tio flagraram os prisioneiros entrando no castelo e isso deu inicio a toda a confusão que eu vira e ouvira no dia da fuga de Pasine. Dessa forma, houve mais luta do que esperado e dois dos nossos companheiros morreram, incluindo Paulo. Além disso, Hugo e Bernardo decidiram que ficariam para trás, a fim de atrasar o meu tio. Segundo Raul, os dois haviam conquistado a confiança de Conde Rafael e iriam fingir que foram atacados, assim como os outros guardas. Desse modo, eles poderiam continuar usufruindo da confiança do meu tio, monitorar os seus avanços e nos avisar de qualquer perigo, se fosse o caso. Porém, mais de um mês havia passado sem qualquer notícia deles, o que enchia a minha cabeça com os piores pensamentos e teorias possíveis.

- Mas e você Raul, está tudo bem?
- É claro! Por que não estaria?
- Você perdeu duas pessoas importantes durante a fuga de Pasine e eu não vejo qualquer tipo de sofrimento! Eu estou apenas me certificando se você não precisa de alguém para conversar sobre isso!
- Felipe, isso é muito gentil da sua parte, mas eu já aceitei o fato de que as pessoas que eu amo morrem! Na verdade, eu e o Paulo mal nos falávamos quando ele morreu, pois estar em um calabouço acabou com todo o clima para o romance! Talvez ele não me amasse de verdade, mas ele foi importante pra mim e estar ao meu lado o fez morrer!
- E quanto ao Hugo?
- Eu não...
- Você ainda gosta dele?
- Eu reaprendi a gostar dele... assim como Bernardo, ele nunca abandonou o nosso grupo e ajudou o seu marido a nos manter fortes! Eu o admiro muito...
- Espera, você ainda o ama! Por que está negando isso?
- Ele mudou em Pasine! Sim, eu acho que ainda o amo! Mas eu tenho certeza que ele não sente o mesmo! Ele mesmo disse isso lembra?
- Eu entendo! Mas se Pasine o mudou tanto, talvez ele tenha amadurecido sobre como amar alguém, certo?
- Bem, talvez nunca saibamos...
- O que?!
- Nada! Esquece isso Felipe! Vamos ver como está o Tomás!

A partida do grupo de exploração na verdade foi adiada por mais dois dias, pois Raul queria partir depois de se certificar que o procedimento na perna de Tomás tinha dado certo. De fato, a perna dele foi cerrada na altura do joelho, o que causou um sangramento intenso. Felizmente, tudo foi controlado e dois dias depois o estado de Tomás era, aparentemente, estável. William, entretanto, estava em seu limite e eu tentei oferecer todo o suporte que eu consegui. Depois de se certificar que eu, Tomás e William ficaríamos bem, Raul partiu com o grupo de exploração. Fiquei muito feliz de ver que nós quatro realmente havíamos estabelecido um laço forte de amizade, mas eu acho que nós não poderíamos passar por tanta coisa juntos, sem que se formasse uma ligação forte. Após a partida, eu fui ver como Tomás e William estavam, já que eles não puderam vir se despedir do grupo que partia.

- Obrigado por todo o seu apoio irmão! Eu precisava de alguém ao meu lado nesse momento! Foi muito difícil ver aquele cara cortar a perna do meu marido!
- Eu tenho certeza que foi! Fico feliz de poder ser útil!
- Também foi muito difícil para mim!
- Eu não sabia que você estava acordado!
- É claro! Você me acha tão fraco assim?
- Eu te acho muito forte, mas você precisa descansar!
- Eu sei! Mas você deveria ter ido se despedir do Raul! Eu iria ficar bem!
- Eu não queria te deixar sozinho! O Raul sabe que eu desejo sucesso para ele nessa missão!
- Vocês querem que eu saia? Eu posso ir fazer alguma coisa para que vocês possam ter mais privacidade!
- Claro que não! Esse também é o seu alojamento!
- Eu sei, mas eu não me importo de dar algum espaço a vocês!
- Pode ficar irmão! O Tomás está se fazendo de forte, mas ele vai cair no sono em breve! Afinal, ele ainda está muito fraco!
- É verdade! Eu só estou tentando manter a pose de forte e destemido para o seu irmão, já que foi isso que fez ele se apaixonar por mim!
- Tomás! O Felipe não precisa saber dessas coisas!
- Na verdade, eu adoraria ouvir a história de vocês! Um pouco de romance seria ótimo para o momento que estamos vivendo!
- Está certo! Então, tudo começou quando estávamos em uma missão!

Tomás, brevemente, revelou que ele e William sempre realizavam missões em grupo, de modo que nunca tinham tido a oportunidade de conversar a sós, embora, eventualmente, flagrassem um olhando para o outro. Certo dia, meu tio os designou para uma missão simples em outro reino, de modo que não seria necessário um grupo naquela ocasião. Nesta oportunidade, os dois puderam se conhecer melhor e acabaram confessando que estavam mutuamente atraídos. Assim, a missão foi o ponto de partida para a relação deles e, desde então, eles se apaixonavam cada dia mais um pelo outro. Tudo convergiu para que eles conseguissem se casar em Gorgi, o vilarejo que fora dizimado por Conde Rafael por realizar casamento homoafetivos. Pouco tempo depois de começar a contar a história, Tomás de fato se sentiu cansado e caiu no sono. Ele estava, milagrosamente, se recuperando muito bem e, após dois dias, já aparentava estar muito melhor do que tinha estado durante todo o tempo que estivemos em Arlyston.
Na manhã do terceiro dia desde que o grupo de exploração partira, nós fomos acordados com gritos vindos da entrada do vilarejo. Eu, prontamente, alcancei a minha espada e saí para verificar o que ocorrera e encontrei Raul, o qual correu em minha direção e disse:

- Ele está bem! Não se preocupe!
- Do que você está falando?

A minha resposta foi a imagem de Bernardo inconsciente em um cavalo, no qual estava montado Hugo. Para completar, eu vi os meus dois primos com as mãos e pés amarrados e sendo carregados por dois outros homens que estavam montados em cavalos.

- O que eles estão fazendo aqui?
- Eu não tenho certeza! Mas precisamos nos preparar para uma guerra!