domingo, 13 de julho de 2014

Capítulo 6 - Seguindo em Frente (Cont.)

Os três foram para um restaurante, perto do aeroporto. Depois que Enzo contou toda a história do término de namoro com Daniel, Guilherme teceu o seguinte comentário:

- Nossa! Esse Daniel me surpreendeu heim...pensei que ele fosse meio mosca-morta, mas ele se revelou bem esperto!
- Esperto! - Replicou Enzo boquiaberto.
- Sim, veja só: ele pegou o rapaz mais gato da universidade e depois voltou para a namorada! Típico bissexual inseguro! - Enfatizou guilherme.
- Gui! Isso me fez sofrer muito e você fica fazendo graça! - respondeu Enzo rindo - Não tem como falar sério com você mesmo!
- Você me conhece! Para que chorar se você pode rir disso! Mas e aí, agora que você está disponível, quando nós podemos sair?
- Ah Gui, eu não estou em clima de encontros! Mas seria muito legal sairmos como amigos, você sabe que eu adoro a sua presença!
- Obviamente! - respondeu Guilherme - Bem, isso é melhor do que nada! O seu telefone ainda é o mesmo?
- Sim, e o seu?
- Ainda é o mesmo! Agora, mudando de assunto - disse Guilherme se virando para Pietro, que se mantivera calado durante toda a conversa - E quanto à você Pietro, tem namorado?
- Ah...não! - Respondeu Pietro desconfortável.
- Gui, eu não acredito que você acabou de dar em cima do Pietro dois segundos depois de me pedir pra sair contigo!
- Qual o problema! A fila anda!
- Gui, você é impossível! - exclamou Enzo rindo.
- Mas sim, continuando, por que você está solteiro? Você não é feio! Está de coração partido igual ao nosso amigo aqui? Ou é outra coisa?
- Ah...bem, é uma história meio pessoal!
- Eu não me importo de ouvir! Além disso qualquer amigo do Enzo é meu amigo também! Então pode confiar em mim! - Disse Pietro decidido.
- Tudo bem Gui! - respondeu Enzo e, virando-se para Pietro, continuou: - Pietro conta logo, porque este aqui, quando quer saber de uma coisa, não desiste fácil e, apesar de um pouco desajustado, é realmente uma pessoa bastante confiável!
- Err...bem - iniciou Pietro um pouco tenso - Na verdade, eu me decidi sobre a minha orientação há pouco tempo e ainda não tive a oportunidade de me relacionar com nenhum rapaz!
- O que! - exclamou Guilherme em um tom um pouco alto - Enzo, como é que você deixa um pedaço de mal caminho desse sem uma companhia, que espécie de amigo é você?
- Gui, eu estava namorando e conheci o Pietro em uma época meio conturbada da minha vida, então ainda não pude fazer esses "favores" a ele! - respondeu Enzo na defensiva - Além disso, ele pode muito bem se arranjar sem a minha ajuda, porque gente querendo ficar com ele realmente não deve faltar!
- Err...eu não estava procurando ninguém para ficar também! - respondeu Pietro hesitante.
- Você quer se envolver sério logo de cara assim?! - disse Guilherme - Não! Inaceitável! Quer sair comigo para uma balada hoje?
- Ah, pode ser - respondeu Pietro mais decidido - Você anima Enzo?
- Não Pietro...ainda não estou muito no clima de baladas, principalmente com o Guilherme!
- O que tem de diferente em uma balada comigo?
- Somente o fato de que você quer dançar a noite inteira e parece nunca cansar já é motivo suficiente! - disse Enzo rindo.
- Isso é verdade! - confirmou Guilherme em tom orgulhoso - E você já foi mais animado né? Esse teu ex te estragou, porque se fosse comigo você ia ser uma pessoa mais enérgica!
- Sim Gui, eu não sou mais tão animado mesmo! Mas fico feliz de ver que você ainda tem toda aquela energia!
- Que você conhece muito bem, certo?! - respondeu Guilherme com um sorriso malicioso.
- Gui! Por favor! - disse Enzo corado.
- Desculpe! Mas é que eu tenho ótimas lembranças da gente!
- Tá, tudo bem! Mas as mantenha para si mesmo, certo! O Pietro não precisa saber delas! - respondeu Enzo - Mas Pietro, pode ir com o Guilherme, tranquilo tá? Ele é realmente uma das pessoas mais legais que eu já conheci e, além de transbordar sensualidade e ser um dançarino incansável, sempre teve muito respeito com os limites.
- Mas a gente ficou de sair hoje...
- Ah, não tem problema! Eu vou para casa matar a saudade dos meus pais, sei lá, ler um livro, ver um filme! - respondeu Enzo - Além disso, estar comigo tem sido um pouco monótono, eu sei, então você deve estar precisando de uma balada!
- Que isso Enzo! Claro que não! Eu gostei muito da nossa viagem!
- Tudo bem, mas, acredite em mim, uma balada com o Guilherme vai ser muito bom! Só não vou porque não estou no clima, mas quem sabe outro dia!
- Então tudo bem - respondeu Pietro - Para onde vamos Guilherme?
- Pode me chamar só de Gui! - disse Guilherme - O meu pai vem me buscar, eu posso pedir para ele deixar você na sua casa Enzo e a gente pode passar na sua casa Pieto, então você pega uma roupa legal e pode se arrumar lá em casa, o que acha?
- Por mim tudo bem! - Respondeu Pietro animado.

Trinta minutos depois, o pai de Guilherme deixou Enzo em casa. Depois de ser calorosamente bem recebido pelos pais, que estavam com muito saudade do rapaz, Enzo foi para o quarto e deitou em sua cama, que estava, como de costume, arrumada e com o cheiro agradável do amaciante de roupas que a sua mãe usava desde sempre. Enquanto estava deitado, ele refletiu sobre o quanto a sua amizade com Pietro tinha se fortalecido nas últimas semanas e, posteriormente, sobre o que Guilherme havia dito no restaurante: ele havia mudado bastante desde que namorara Guilherme e, principalmente, depois de ter conhecido Daniel. Esse último pensamento lhe trouxe as lembranças boas da relação com o rapaz, as quais, ultimamente, estavam sendo mais dolorosas do que aquelas em que Daniel havia dito coisas absurdas para ele. Estes pensamentos foram interrompidos pelo toque do celular de Enzo, que ficou surpreso quando a voz do outro lado da linha disse:

- Enzo?...Ouça, aqui é Pedro, o pai do Daniel...
- Ah... - respondeu Enzo confuso, principalmente depois de lembrar das cenas no hospital, em que Pedro evidenciava a sua desaprovação com a presença de Enzo no local - Oi, por de falar Seu Pedro...
- Bem...eu vou ser direto Enzo, eu estou ligando porque  eu estou muito preocupado com o Daniel e você foi a única pessoa que me veio à cabeça para ajudá-lo!
- Ajudar? Como assim, Seu Pedro? Aconteceu alguma coisa com o Daniel? - perguntou Enzo alarmado.
- Não, não...quero dizer, sim, mas não é nada que envolva risco de vida, pelo menos por enquanto!
- Seu Pedro, eu não estou entendendo! O Senhor está me deixando preocupado!
- Escute, eu acho melhor lhe explicar pessoalmente, podes vir aqui em casa agora?
- Seu Pedro, eu acabei de chegar de viagem agora e, se realmente não houve nada grave, eu preferiria fazer isso amanhã.
- Ah, tudo bem! Eu entendo, então eu passo na sua casa para te buscar amanhã, por volta de dez horas, pode ser?
- Err...sim, pode ser!
- Então tudo bem, amanhã eu passo na sua casa. Desculpe-me o incômodo.

Depois daquela ligação, Enzo não conseguia parar de pensar sobre o que poderia estar acontecendo com Daniel a ponto de levar Pedro a ligar para ele. Envolto por esses pensamento, Enzo adormeceu e foi acordado no dia seguinte por Guilherme, que sussurrava em seu ouvido:

- Bom dia Príncipe!
- Gui! - respondeu Enzo em um murmurio, um pouco sobressaltado - O que você está fazendo aqui?
- Bom dia para você também! - respondeu Guilherme em tom irônico.
- Desculpe! Mas é que você me assustou! Bom dia!
- Não adianta, eu não aceito mais o seu cumprimento, porque não é do fundo do coração!
- Cala a boca! - disse Enzo rindo e puxando Guilherme - Vem cá! Me dá um abraço, que eu to precisando!
- Eu não! Só se eu puder deitar aí com você!
- Tudo bem, mas eu tenho duas condições - disse Enzo - Primeira, tira esses sapatos e, segunda, você vai ter que se comportar!
- Diga-me uma vez na minha vida quando eu não me comportei! - disse Guilherme tirando os sapatos.
- Eu quero que você cite uma vez quando você se comportou, essa é a verdadeira questão! - replicou Enzo.
- Você está certo! - respondeu Guilherme rindo e sentando na beira da cama de Enzo. Depois, puxando a cabeça do rapaz para apoiar em seu colo, continuou: - Agora me diga, o que está deixando esse coraçãozinho aflito?
- Nossa, eu nem sei por onde começar...
- Comece pelo começo, eu tenho o dia todo!
- Você é um bom amigo Gui! - disse Enzo olhando para Guilherme, que enrubesceu.
- Bem, eu espero que seja melhor do que como namorado!
- Você não foi um namorado ruim!
- Mas também não fui tão bom...por isso preferi ir mesmo embora, você precisava de alguém melhor.
- Nossa, eu nunca vi você falando tão sério em toda a minha vida!
- Por isso que eu não falo! - disse Guilherme rindo.
- Estou brincando! Olha, você teve suas falhas claro ou, do contrário, provavelmente estaríamos juntos, mas você foi ótimo como namorado e eu não tenho absolutamente qualquer mágoa de você! Além disso, eu não encontrei alguém tão melhor.
- Não seja bobo, eu nunca vi os seus olhos brilharem tanto quanto no dia em que você me disse que estava namorando com ele! Eu posso até não ter muita experiência com isso, mas definitivamente sei quando alguém está amando!
- Enfim - respondeu Enzo - Vamos mudar de assunto, antes que eu comece a chorar, o que eu te garanto que não me deixa nenhum pouco sexy!
- Você é sexy em todos os momentos da sua vida! - respondeu Guilherme rindo - Por isso que eu me apaixonei por você!
- Nossa Gui! - disse Enzo também rindo - Você é um raio de luz para o meu baixo-astral!
- Que bom! Quem sabe eu possa voltar a ser o raio de luz da sua vida também! - disse Guilherme olhando bem no fundo dos olhos de Enzo, que desviou o olhar e se levanto do colo do rapaz.
- Desculpa Gui, mas eu não tô pronto para isso! - disse Enzo, sentando na cama, de costas para Guilherme.
- Relaxa - disse o rapaz enquanto puxava Enzo novamente para o seu colo - Eu não disse agora! Eu quero dizer qualquer dia que você esteja se sentindo inclinado a isso! Olha Enzo, de verdade, você foi o meu melhor namorado e eu tenho um carinho muito grande por você! Eu amo ser um dos seus amigos, mas também adoraria ser mais do que isso! Mas, independente de qualquer coisa, saiba que pode contar comigo para o que você quiser!
- Nossa, nem sei o que dizer...Hoje é a segunda vez que você fala algo sério comigo!
- Ah, cala a boca Enzo! Vem aqui! - disse Guilherme enquanto puxava Enzo para si e lhe dava um abraço bem apertado.

Nesse instante, a mãe de Enzo entra e, ao ver a cena, exclama:

- Err...eu peço desculpas, eu não sabia... - Maria estava corada.
- Calma mãe! - disse Enzo rindo - É só um abraço!
- Vocês dois estão...namorando de novo?
- Bem que eu queria Dona Maria, mas o seu filho não me dá uma chance! - respondeu Guilherme em tom brincalhão.
- Ah, mas este meu filho realmente é muito esnobe desde criança! - respondeu Maria no mesmo tom.
- Ei! Vocês dois combinaram de me importunar hoje! E a resposta é não mãe, não está rolando nada entre nós além de uma saudável amizade!
- Ah, que pena! Eu gosto tanto do Guilherme! - disse Maria - Mas, mudando de assunto, meu filho, eu vim te avisar que o pai do Daniel está aí embaixo.
- Meu deus, eu tinha esquecido! Eu fiquei de conversar com ele hoje!
- Conversar sobre o que meu filho?
- Sim, sobre o que? - Ratificou Guilherme.
- Ah, eu não sei, ele ficou de me dizer hoje.
- Bem, meu filho, então se apresse e desça logo para falar com ele, enquanto isso eu vou fazer sala! - disse Maria caminhando até a porta do quarto.
- Tudo bem, muito obrigado mãe! - disse Enzo quando a mãe já estava no vão da porta, então virou para Guilherme e disse: - Você acredita nisso? O pai dele é a última pessoa que eu esperava querer falar comigo.
- O que será que ele quer? - respondeu Guilherme curioso.
- Não sei, mas eu estou um pouco apreensivo! De qualquer modo, eu vou ter que ir, já que eu me comprometi! Você me perdoa por ter que sair?
- Claro! Nada que um beijo seu não resolva!
- Gui! Você é simplesmente inacreditável! A sua chegada é uma das melhores coisas que poderia ter acontecido comigo nesse momento! - Enzo beijou a bochecha de Guilherme.
- Nossa, fiquei todo arrepiado com esse beijo - disse Guilherme apontando para o braço - Imagina se fosse na boca!
- Não vai rolar - disse Enzo rindo - Agora eu vou tomar banho, tudo bem?
- Quer companhia?
- NÃO! - gritou Enzo e depois, rindo, continuou: - Se quiser pode esperar aqui no quarto.
- Fazer o que né? Um dia você deixa!
- Vá sonhando! Aqui está fechado para balanço!

Enzo tomou banho, se arrumou - com Guiherme fazendo repetidas investidas -, e depois desceu para falar com Pedro. Quando chegou à sala, disse:

- Oi Seu Pedro, eu peço desculpas pelo atraso!
- Não se preocupe, eu não estou com pressa! Mas, agora podemos ir?
- Sim - Enzo respondeu e se dirigiu a Maria: -  Mãe, o Guilherme vai ficar por aqui até eu voltar, tudo bem?
- Claro meu filho! Você vem para o almoço?
- Provavelmente!

Depois que saíram da casa de Enzo, não houve muita conversa entre Pedro e o rapaz no caminho para a casa de Daniel, que, segundo o pai, não estava em casa aquela hora. Quando chegaram, Pedro pediu para Enzo sentar no sofá da sala e, prontamente, iniciou a conversa:

- Bem Enzo, eu vou ser direto! Eu sei tudo sobre o seu envolvimento com o Daniel, só para deixar isso claro, e justamente por isso que eu acho que você poderia ser a pessoa ideal para ajudar o meu filho! Veja bem, ele tem estado muito depressivo nestes últimos dias e, na verdade ele já melhorou um pouco depois de uma conversa que tivemos, mas ele ainda está mal e eu tenho certeza que é por causa do fim do namoro de vocês!Então eu queria te pedir para conversar com ele, podes fazer isso?
- Nossa Seu Pedro... - disse Enzo um pouco atordoado - É muito informação. Primeiro, como foi que o senhor soube? Ele lhe contou isso? Segundo, o que o senhor quer que eu converse com ele?
- Não, ele não me disse nada. Eu descobri de outro jeito, mas é uma história muito longa, que não vem ao caso agora. Quanto à conversa, eu não sei, talvez apenas a sua presença já lhe dê alguma motivação para sair dessa maré de tristeza em que ele está!
- Eu não sei Seu Pedro...Eu não sei o quanto ele lhe contou, mas o nosso relacionamento não terminou da melhor forma e eu queria me afastar dele, sinceramente.
- Mas repense isso, por favor! Eu estou lhe pedindo como um pai desesperado, pois eu tenho medo do que o Daniel possa fazer consigo mesmo se continuar nesse quadro depressivo!
- Mas o senhor não tem ideia das coisas que ele me disse ou o que ele me fez passar! Não é algo que se esqueça tão fácil! - disse Enzo indignado.
- Eu não sei mesmo - respondeu Pedro - Mas eu sei de algo que você não sabe e que explica tudo isso: O Daniel estava com uma espécie de culpa que o fez fazer tudo isso! Veja bem, a mãe dele e eu somos religiosos e, de um ponto de vista estrito, o homossexualismo é um pecado e é condenável, portanto o Daniel achou que a mãe dele jamais aprovaria esse relacionamento e que ele a estava decepcionando! A morte da mãe dele foi um choque muito grande para ele! E, para tentar contornar essa dor, ele se apegou a esse pensamento de que namorar a aquela moça, que eu não lembro o nome, seria mais aceitável para a mãe dele do que você!
- Nossa! - disse Enzo confuso - Eu não sabia disso...mas...mas por que ele não me falou nada?
- Bem, eu não sei...ele achou que fosse melhor terminar com você eu acho...
- Mas se ele acha isso e se está com a cabeça tão confusa sobre a sexualidade, como eu poderia ajudá-lo?
- O Daniel terminou com aquela moça há algum tempo e eu já expliquei a ele que, antes de morrer, a minha esposa me disse que também conhecia o segredo de vocês e nunca foi contra isso!
- Um momento, o Daniel terminou com  Frida? - disse Enzo sobressaltado.
- Sim...ainda não me sinto confortável com isso, mas o meu filho de fato te ama e não conseguiu, nem com todo o esforço, permanecer com ela!
- Eu também não sabia disso! Bem, mas isso ainda não muda o que ele fez...embora eu meio que entenda os seus motivos!
- Nada vai mudar o que ele fez, mas...por favor, passe uma borracha nisso e tente perdoá-lo!
- Mas, por que o senhor contou essa história só agora para ele?
- Eu também peço que me perdoe, mas eu estava de luto pela morte da minha esposa e não consegui dar o suporte que Daniel precisava, então simplesmente nunca entrei nesse assunto com ele até agora. Eu não me envergonho de dizer que tentei guardar esse segredo e pensar que Daniel simplesmente voltaria a ser hétero, porque a ideia de ter um filho gay me deixava desconfortável, mas, com o tempo, refletindo sobre o que a minha mulher me disse no hospital e vendo o Daniel definhar a cada dia por algo que eu poderia ter evitado, me fez perceber que eu me importo mais se o meu filho está vivo ou não ao invés de se ele gosta de homens ou mulheres.
- Isso é muito bom Seu Pedro! O Daniel precisa, mais do que nunca do seu apoio!
- Mas então, você vai conversar com ele?
- Eu posso tentar Seu Pedro...eu também acabei de perceber que me importo mais com o bem do seu filho nesse momento do que com o que ele me disse ou fez no passado!
- Que bom Enzo! Eu sabia que você era uma ótima pessoa! Me desculpe por todo o problema que eu causei e pelo modo como eu te tratei! Você se revelou uma pessoa bem superior a mim, porque nem titubeou em aceitar o meu convite para conversar, mesmo depois de eu ter te tratado tão mal no hospital.
- Que isso Seu Pedro, isso não tem a menor importância! Eu sei que o senhor estava apreensivo com o estado da sua esposa!
- De qualquer modo, muito obrigado! - disse Pedro, levantando-se e dando um abraço em Enzo.
- Bem, agora eu acho que preciso voltar para casa. Minha mãe e meu amigo estão me esperando para o almoço!
- Ah, claro! Eu vou te levar até a porta!

Enzo acompanhou Pedro em direção à porta, que, repentinamente, se abriu antes deles a alcançarem. Para surpresa do rapaz, Daniel tinha acabado de chegar em casa, o qual, ao vê-lo, disse:

- Enzo...O que você está fazendo aqui?

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Almost Normal (Quase Normal)

Almost Normal (Quase Normal), 2005


Brad Jenkins (J. Andrew keitch) é um homossexual se aproximando da crise de meia-idade que está cansado de ser diferente por ser gay. De repente é enviado para a época em que estava no ensino médio, porém, desta vez o mundo é gay e ser hétero é considerado comportamento depravado. Então uma coisa interessante acontece: ele conhece uma garota e, de repente, ele novamente não se adéqua à "normalidade".

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domingo, 6 de julho de 2014

Capítulo 5 - Revolução: A Homorevolta (Cont.)

Em meio à escuridão, o anseio por encontrar Bernardo novamente é ainda mais forte, tanto que eu consigo vê-lo me pegando em seus braços e me tirando da água. Eu sei que é um produto da minha imaginação, porque Bernardo estava muito longe do riacho, porém me entrego à essa ilusão e o beijo intensamente quando ele me tira da água e toca os seus lábios nos meus.
Porém, de repente, a minha visão clareia novamente e eu consigo ver que o homem que está debruçado sobre mim não é Bernardo e me afasto assustado, enquanto continuo a tossir. O homem, que eu reconheço como sendo Raul, antes mesmo de eu me recuperar completamente, brada:

- O que você estava pensando?! Como pôde ser tão estúpido de entrar nesse riacho? Não sabes que é perigoso, principalmente para alguém tão fraco como és?
- EU NÃO SOU FRACO! E se eu sou tão estúpido, porque me salvou então?
- Não ouse gritar comigo novamente! E não seja mal agradecido também!
- Desculpa! Mas uma experiência dessas deixa qualquer um nervoso!
- Ok! Só cala a boca e não faz mais isso certo?

Naquele momento, eu percebi um tom diferente na voz de Raul. O que ele disse não foi de um modo imperativo, como ele costuma fazer, e sim uma espécie de súplica. Desde que conhecera Raul, eu tinha detestado o modo como ele tratava as pessoas e, em especial, a mim, pois imaginava que ele fosse somente outra pessoa amargurada com o amor, cujo principal passatempo fosse infernizar a vida dos seus semelhantes. Porém, hoje eu senti uma coisa diferente: uma espécie de compaixão, cujo motivo eu desconhecia, mas que me nutria de uma forte vontade de perguntar a ele qual o motivo da tristeza que eu percebi em sua voz, que foi o que eu fiz:

- O que aconteceu?
- O que queres dizer com isso? Como assim "o que aconteceu"?
- Ah, eu não sei...olha, o modo como me pedistes para não fazer isso de novo me fez pensar que algo pode ter acontecido! Alguém querido para ti se afogou aqui? Raul...eu não sei porque me odeias, mas eu não sinto o mesmo por ti! Então, quero poder te ajudar!
- E quem disse que eu preciso de ajuda?
- Todo mundo precisa! E, desculpe-me a sinceridade, mas eu não acredito que alguém possa ser tão rude, sem um pouco de tristeza ou mágoa no coração.
- O que isso significa?
- Significa que eu acredito fortemente que o seu comportamento rude é apenas um reflexo da sua tristeza com algo que aconteceu em algum momento da tua vida!
- Mas como podes ter certeza disso?
- Não tenho! Apenas acredito nas minhas impressões sobre as pessoas!
- Ah...então pare de acreditar, porque estás errado!
- Tudo bem, então me desculpe...eu vou voltar para a clareira. E...desculpe por ter parecido mal agradecido! Eu te devo a minha vida!

Dito isso, virei-me para andar de volta à clareira, porém Raul segurou meu pulso e disse:

- Você me lembra muito dele...
- O que?
- Você me lembra muito do meu irmão! É por isso que eu te pedi para não fazer isso de novo e também é por isso que eu odeio o modo como és fraco, assim como ele era!
- Por que você continua insistindo que eu sou fraco? Você mal me conhece...mas enfim, me fala o que aconteceu com ele?
- Você é fraco, porque não acredita em si mesmo e espera que o seu namorado seja aquele que vai te defender o tempo todo! O meu irmão também era assim! Ele era uma pessoa incrível, porém não acreditava em si mesmo para ser um guerreiro porque tinha o seu biótipo, então desistiu disso e se dedicou apenas às artes. Não entenda mal isso, ele era incrível nisso e eu sempre o admirei pelo seu talento, mas todo mundo precisa saber se defender e, o mais importante, todo mundo tem potencial para isso, independente do seu tamanho. Quando essa caçada implementada por aquela corja real começou, o meu irmão foi um dos primeiros de Gorgi a morrer...ele tinha um namorado que jurou protegê-lo para todo o sempre no altar, porém, quando eles foram emboscados, ele foi o primeiro a fugir e deixar o meu irmão para trás, o qual não estava tão bem preparado e apenas correu para cá, onde ele foi atingido e morreu agonizando na água...sozinho!
- Nossa...eu sinto muito Raul! Eu não fazia ideia!
- É claro que não...olha...err...desculpa por te tratar mal, mas eu realmente não consigo desvencilhar a imagem de vocês dois ainda!
- Tudo bem...
- Olha, eu tenho uma proposta: você me deixa te dar o devido treinamento de batalha e eu prometo que vou pegar mais leve contigo...no dia-a-dia, porque no treinamento eu vou pegar pesado! O que achas?
- Bem...é um começo! Mas...porque faria isso por mim?
- Porque eu não pude preparar o meu irmão para esse mundo, que ainda é muito difícil para pessoas como nós! Mas eu posso fazer algo por ti e, assim, talvez eu consiga me redimir com ele!
- Nesse caso, tudo bem!
- Só tem uma condição, você não pode contar os meus motivos para ninguém, nem mesmo para o seu namoradinho, entendeu?
- Mas, por que? O que eu vou dizer a ele sobre a sua mudança, digamos assim, meio brusca de comportamento?
- Você vai encontrar uma maneira, eu tenho certeza! Mas se quebrares o nosso acordo, eu vou pegar tão pesado contigo, que vai preferir ter se afogado!
- Certo, certo! Já estava estranhando a nossa conversa sem uma ameaça da tua parte!

Depois disso, eu e Raul caminhamos em direção à clareira, enquanto conversávamos sobre o treinamento que ele me prometera. Quando chegamos, eu vi Bernardo, que corria em minha direção e, quando me alcançou, disse, em tom de preocupação:

- Onde você estava? Eu...eu fiquei preocupado! Está...está tudo bem entre a gente?

Eu nem pensei duas vezes, apenas enrosquei meus braços ao redor do pescoço dele, o puxei para perto de mim e o beijei, tal como queria fazer no momento em que achei que iria morrer e tudo o que me importava era lhe dizer:

- Eu te amo! Ninguém me interessa além de você e eu mal posso esperar pelo dia em que vou poder te chamar de marido!
- Então...então você me perdoa?
- É claro meu amor! Nada disso tem a menor importância...eu já esqueci!
- Muito obrigado meu amor! Você é incrível!
- Não, você é que é incrível! Porque você me fez ser quem eu sou hoje!

Nesse momento, eu agarrei a mão dele e corri até William, que estava encostado a um tronco de árvore conversando com Tomás. Quando ele me viu, levantou-se e disse:

- Por onde você andou?
- Nós estávamos preocupados!
- Eu peço desculpas...não quero falar sobre isso, mas eu estou bem. Agora, mudando de assunto, eu quero pedir uma coisa a vocês!
- Claro, pode falar!
- Eu quero que vocês sejam os nossos padrinhos de casamento?
- Vocês vão se casar? Que bom! Claro que nós aceitamos, certo Tomás?
- É óbvio que sim! Fico lisonjeado com pedido!
- Mas meu amor, que história é essa? Nós nem conversamos sobre isso ainda!
- Eu sei amor! Desculpe-me, é que eu tive uma ideia! Nós não temos uma pessoa para realizar a cerimônia aqui no acampamento, além disso, eu sei que você prefere que seja na igreja do seu vilarejo, assim como eu. Porém, eu quero que nós possamos entrar nessa batalha que acontecerá em breve, como maridos, ainda que de modo não-oficial. Então eu quis convidar os nossos dois amigos aqui, para serem nossos padrinhos, o que você acha?
- Eu acho que eu te amo cada dia mais! Essa é a ideia mais romântica que eu já ouvi e eu fico muito feliz de concordar com ela!
- Então tudo bem se o William for o meu padrinho, já que ele é meu recém-descoberto irmão, e o Tomás for o seu, já que não tem ninguém da sua família aqui e ele é nosso amigo? Sem problemas?
- Com certeza!
- Ele me pediu desculpas ainda há pouco Felipe e está tudo esclarecido entre nós!
- Isso é muito bom! Porque vocês farão parte da mesma família agora! Então já temos os padrinhos e só precisamos de alguém para realizar a cerimônia, e eu já sei exatamente quem chamar! Esperem aqui!

Eu sabia que esse era um pedido muito audacioso, mas mesmo assim o meu coração dizia que eu deveria fazer isso. Desse modo, eu caminhei em direção a Raul e disse:

- Raul, eu preciso de te pedir uma coisa!
- Estou ouvindo!
- Eu quero celebrar uma cerimônia não oficial de casamento com o Bernardo e...bem, eu queria que fosse você a celebrá-la?
- E por que você acha que eu faria isso?
- Por que você é o líder dessas pessoas e, também, porque eu quero que você celebre uma união que não vai ser tão frágil quanto...quanto a do seu irmão!
- Cuidado com o que fala! O meu irmão tinha uma ótima relação, mas apenas escolheu a pessoa errada.
- Desculpe-me, eu não quis dizer que a relação dele não era boa...eu tenho certeza que ele amava o namorado dele, mas eu tenho certeza que escolhi a pessoa certa?
- Sério? E como tem tanta certeza?
- Por que ele já poderia ter me deixado diversas vezes, mas ele escolheu ficar ao meu lado e entrar em uma batalha, sem nunca nem ter estado em nenhuma antes! Só porque ele me ama!
- Nesse caso, talvez você realmente tenha escolhido a pessoa certa!
- Eu tenho certeza! Mas então, você vai celebrar a cerimônia?
- Sim! Avise a todas as pessoas para se reunirem na clareira e se prepare para casar!

Naquele dia, eu a Bernardo fomos unidos em matrimônio em uma cerimônia que, mesmo sendo não-oficial, foi linda e eu senti que as pessoas que assistiam realmente partilhavam da nossa felicidade. Talvez, nesses dias em que tudo está tão ruim, algo tão simples pode trazer felicidade.
Depois da cerimônia, eu e ele fomos para a beira do rio, nos abraçamos e permanecemos em silêncio, até que eu ouvi um soluço e percebi que ele estava chorando, então perguntei:

- O que aconteceu meu amor?
- Eu estou tão feliz por ter você! E ao mesmo tempo tenho tanto medo de te perder!
- Eu também estou muito feliz meu amor! Hoje é um dia em meio a vários que eu espero passar ao seu lado, então não tem como você me perder! Não adianta, agora você já disse sim, vai ter que viver ao meu lado por toda a vida!

Nós rimos daquilo e logo em seguida ele disse:

- Eu passaria até duas vidas ao seu lado!
- Olha lá hein! Na outra vida eu vou te procurar para cobrar a promessa!
- Eu estarei esperando ansiosamente! Isso se eu não te encontrar primeiro!
- Vamos ver então! Agora, mudando de assunto, como foi a conversa com meu novo irmão?
- Ah, foi muito boa! Ele realmente gosta muito de você e espera o melhor para a sua vida...eu não sei como eu pude acreditar que existia algum outro tipo de sentimento entre vocês!
- Não seja tão duro com você! Até eu achei que existia algo mais!
- Eu não vou fazer isso novamente! Eu não preciso mais ter medo de você não gostar de mim! Eu seria muito idiota para não perceber de uma vez que você é apaixonado por mim!
- Bem, não posso negar isso!
- Não sei o que faria se te perdesse! Ainda bem que você me perdoou dessa vez! E, por falar nisso, onde você foi depois que nós nos separamos?
- Meu amor...se eu te contar isso, você vai ter que me prometer que vai ficar calmo!
- Como assim? Você está me assustando amor! Conta logo!
- Bom, para começar, eu andei pela floresta, depois eu entrei em um riacho, que parecia raso, então...então...não consigo...

Eu comecei a chorar e aninhei minha cabeça no peito de Bernardo, que apenas repousou a mão na minha cabeça e acariciou os meus cabelos. Permanecemos assim, em silêncio, por longos minutos, até que ele perguntou:

- Você não precisa falar, se não conseguir!
- Eu preciso dividir isso com você, mas odeio lembrar da sensação! Bernardo, tinha uma depressão no solo do riacho e eu não sei nadar, então eu quase me afoguei!
- Meu Deus! Meu amor, porque você não me contou isso antes! Ainda bem que você conseguiu sair de lá!
- Bem...eu não consegui. Foi o Raul quem me salvou!
- Raul?!
- Eu sei! Inacreditável né? Mas eu devo a minha vida a ele e é por causa dele que nós estamos aqui...err, tipo casados!

Apesar de tentar amenizar o clima com uma piada, Bernardo continuava sério, então eu disse:

- O que foi meu amor?
- Você quase morreu e eu não estava lá para te ajudar! Como posso ser um bom marido para você?!
- Você é um bom marido quando me ouve e me apoia! Você não pode estar comigo o tempo todo e isso estava fora do seu controle!
- Mas eu deveria te proteger!
- Você não pode fazer isso o tempo todo meu amor! E é por isso que o Raul prometeu me treinar para combate daqui para a frente!
- Prometeu? Por que ele faria isso?
- Meu amor, eu não posso te contar isso! Você vai ter que confiar em mim!
- Tudo bem! Eu confio!

Eu imaginei que ele iria me questionar sobre o assunto e pedir explicações sobre as intenções de Raul, porém, novamente, Bernardo me surpreendeu, ao simplesmente confiar em mim. Então eu disse:

- Obrigado por ser tão...você!
- Como assim, tão eu?
- Ah, você tem um jeito tão próprio que eu nem sei como te definir, então eu te agradeço por simplesmente ser assim!
- Ah, obrigado...eu acho! Mas olha só, eu quero exigir só uma coisa!
- O que?
- O Raul pode te ensinar o combate, mas eu quero ter o privilégio de te ensinar a nadar!
- Ah, é só isso?! É claro que eu aceito, até porque eu vou adorar ver você sem essas roupas, enquanto me ensina a nadar!

Bernardo corou subitamente e eu o beijei apaixonadamente. Apesar de eu saber que nós não poderíamos ter nossa noite de núpcias, porque nosso casamente não estava sacramentado, eu aproveitei o nosso tempo juntos para nos proporcionar momentos ainda mais íntimos, com carícias e beijos intensos.
Vários dias se seguiram ao meu casamento com Bernardo, nos quais nós nos concentramos na preparação para a batalha que, segundo Raul, aconteceria muito em breve, quando nós invadiríamos cada vilarejo ou reino aliado a Conde Rafael. Nesse tempo, a nossa população cresceu, pois Raul e o grupo de busca de suprimentos também passou a desenvolver o papel de busca de aliados.
No quadragésimo segundo dia depois do casamento, eu já me sentia mais preparado para entrar em uma batalha e até mesmo Raul me elogiou em um dos dias de treinamento, embora ele usualmente pegasse bem pesado, como havia prometido, e me xingasse de várias maneiras. Além disso, as aulas de natação com Bernardo se tornaram a parte mais aguardada do meu dia, pois vê-lo sem suas roupas era maravilhoso para mim, assim como a possibilidade de me livrar do medo de entrar em águas mais profundas, que eu tinha desde quando era criança.
Neste mesmo dia, um dos acampados, cujo nome era Hugo e tinha entrado recentemente no meu grupo de preparo das refeições - o qual se tornou mais trabalhoso, dado o contingente de, aproximadamente 80 pessoas que atualmente habitavam naquela floresta -, estava fazendo aniversário e nós estávamos comemorando. Este fato foi estanho para todos nós, pois nenhum aniversário foi comemorado antes, porém eu já desconfiava do porquê, o qual foi confirmado no início da festa, quando Raul anunciou que estava namorando rapaz.
Eu e Bernardo comemoramos com o resto das pessoas por um tempo, porém, depois nos retiramos para a margem do rio, que se tornou o nosso local preferido. Nós ficamos conversando e namorando por algumas horas, até que ouvimos uma forte gritaria e vimos William, Tomás, Raul e Hugo correndo em nossa direção, os quais simplesmente gritaram, sem parar de correr, quando nos alcançaram:

- Corram! Conde Rafael nos achou!

domingo, 29 de junho de 2014

Capítulo 6 - Seguindo em Frente (Cont.)

No outro dia, Roberto estava decidido a ligar para a casa de Daniel, a fim de "compartilhar a sua opinião" sobre o que acontecera no dia anterior. Enquanto isso, Enzo estava tendo grande dificuldade em dissuadi-lo da ideia:

- Pai, o senhor não pode ligar para a casa dele! o Seu Pedro não sabe que Daniel e eu namoramos!
- Eu não me importo! Quem esse rapaz, ou melhor, esse moleque pensa que é pra ir e vir da sua vida quando quiser, fazer e acontecer desse jeito? - Respondeu Roberto decidido.
- Pai - Enzo pôs as mãos nos ombros do pai - Deixa isso comigo tá? Eu estou aqui, inteiro e de bem com vida! Eu não quero mais nada com o Daniel e a melhor forma do senhor me ajudar é me ajudando a esquecer completamente dele. Pode ser?
- Eu não gosto disso...mas tudo bem, se é o que você quer... - Disse Roberto resoluto.

Enzo, de fato, se empenhou em se afastar de Daniel e, de certa forma, este contribuiu para isso, na medida em que não buscou mais Frida na porta da sala e nem se fez presente nos mesmos locais frequentados por Enzo.Além disso, o semestre logo chegou ao fim, assim como as aulas na UFTU, o que deu ao rapaz um tempo livre do local em comum com o ex-namorado. Desse modo, seja por intencionalidade de Daniel ou por pura "sorte" de Enzo, passou-se dois meses nos quais Enzo seguiu com sua vida e cultivou uma amizade forte com Pietro, que se tornou um grande confidente e um porto-seguro para os momentos em que Enzo sentia qualquer dificuldade. Os dois inclusive viajaram juntos para o Rio de Janeiro, a fim de aproveitar as férias na casa dos pais de Pietro, que adoraram conhecer Enzo.
Em contrapartida, Daniel tentou continuar o namoro com Frida, porém, depois da interrupção das aulas na UFTU, ele perdeu o interesse no relacionamento e passou a permanecer horas no quarto, simplesmente deitado. Certo dia, o pai do rapaz, preocupado com a situação, indagou:

- Daniel, meu filho, você precisa sair desse quarto! - disse o homem em tom preocupado - Por que você não liga para um dos seus amigos e o convida para sair ou fazer alguma coisa?
- A maioria está viajando pai - respondeu o rapaz, que estava com a barba por fazer, cabelos desgrenhados e com feições de sono - E eu também não quero sair daqui...
- Mas por que? Aconteceu alguma coisa?
- Sim...eu não tenho mais motivação para sair de casa...foi isso que aconteceu...
- Mas e a Frida?
- Nós terminamos... - respondeu o rapaz desleixadamente - agora, se o senhor não se importar, eu vou voltar a dormir....
- Ah, eu me importo! - disse Pedro com firmeza - Arrume-se e venha comigo...eu quero te levar a um lugar...
- Eu não quero ir pai...
- Por favor Daniel, faça isso por mim!
- Ahh...tudo bem...estarei na sala em dez minutos! - respondeu Daniel contrariado.

Depois de tomar banho, fazer a barba, colocar roupas limpas e pentear o cabelo, Daniel partiu com o pai para um local que foi mantido em segredo até que o rapaz avistou um local familiar da estrada no qual ele lembrou já ter estacionado na companhia dos pais, então ele perguntou:

- Por que você me trouxe aqui pai?
- Por que eu quero que você lembre de uma coisa... - respondeu o pai do rapaz - Mas precisamos fazer aquela velha trilha...então, topa?
- Tudo bem...
- Que bom, então vamos.

Os dois seguiram uma trilha dentro de uma floresta por quinze minutos, até que chegaram na beira de um riacho, no qual havia uma pequena cascata, onde eles se sentaram. Nesse momento, Daniel, impacientemente, perguntou:
- Agora você pode me dizer o motivo pai?

- Posso sim meu filho! Na verdade eu quero que você me diga uma coisa - disse Pedro com um tom de voz calmo - Você se lembra do que me disse na última vez em que nós estivemos nesse lugar?
- Ah pai, eu devo ter dito muita coisa! Eu não sei...
- Não meu filho - continuou Pedro - Você me disse da última vez que estivemos aqui, há mais de dois anos, que você queria ser educador físico, porque o seu sonho era ser como o seu instrutor de natação e eu lhe disse que desistisse disso...lembra?
- Err...lembro... - disse Daniel incerto - Mas por que o senhor resolveu me trazer aqui só para me lembrar disso?
- Por que não foi só para isso! Eu queria te mostrar que você é como aquela cascata, segue o seu próprio fluxo e eu não posso tentar te conter...eu fui insensível e ignorante por tentar controlar a sua vida em todos os aspectos possíveis!
- Isso não tem importância pai, eu estou gostando de cursar Direito!
- Mas eu não estou me referindo somente a isso...meu filho, eu sei sobre o Enzo!
- Do que você está falando pai - respondeu Daniel apreensivo.
- Não precisa ter medo filho! Eu sei de tudo desde antes da morte da sua mãe!
- É mesmo? Mas por que nunca me disse nada?
- Eu não sabia como tocar no assunto e, para falar a verdade, eu não sabia, ou melhor, ainda não sei como me sinto em relação a isso!
- Como assim? - perguntou Daniel confuso e ainda apreensivo com a possibilidade de decepcionar o pai - o senhor também está decepcionado comigo?
- Também?
- Sim, também estava decepcionando a minha mãe... - respondeu Daniel em tom quase inaudível.
- Do que você está falando? Você nunca nos deixou decepcionados! Na verdade sempre foi o nosso maior orgulho!
- Ela queria que eu tivesse uma boa esposa, mas eu não consigo pai! Eu...eu gosto do Enzo... - Daniel começou a chorar.
- Calma meu filho - disse Pedro ao abraçar Daniel - Eu preciso te contar uma coisa que talvez te faça se sentir melhor - ele respirou fundo, então continuou: - A sua mãe também sabia do Enzo e nunca desaprovou isso, na verdade, ela me disse antes de morrer que te amasse independente de qualquer coisa! Por isso...meu filho, por isso que eu quero que você faça da sua vida o que você quiser a partir de agora, sem pensar se vai me decepcionar ou não! Desde que você não faça nada ilegal, eu nunca vou te dizer que você está errado, pois eu só quero que você tenha um motivo para viver... - Pedro começou a chorar - Não desista da vida, por favor meu filho!
- Pai... - Daniel abraçou o pai bem apertado e os dois permaneceram desse modo por longos minutos, até que Daniel quebrou o silêncio: - Eu não desisti da vida, é só que o fato de perder o amor da minha vida estava me deixando sem vontade de fazer qualquer coisa.
- Eu entendo meu filho...mas eu quero lhe dar um conselho muito valioso também: Não deixe a sua vida depender de outras pessoas! Ame, ame intensamente, mas sempre se permita existir além desse amor, pois quando a relação acabar, você sempre terá as sua próprias razões para viver! É por isso que eu falei da Educação Física...se esse é realmente o seu sonho, vá atrás dele!
- Mas eu vou começar o quinto semestre pai! Isso é metade do curso!
- E dai? Você é jovem! Ainda tem tempo de sobra para ir atrás dos seus sonhos! Eu acho que você precisa e algo novo no que focar para  sua vida! Eu sei que a sua mãe faz muita falta, acredita, mas a vida, infelizmente, tem que seguir sem ela.
- Realmente, ela faz muita falta e o fato de achar que eu talvez pudesse tê-la decepcionado deixou as coisas ainda piores, mas eu...eu não sei, estou me sentindo um pouco mais leve.
- Desculpe por ter omitido isso filho...eu não entendia a profundidade do que você sentia por esse rapaz até o momento em que te vi definhar diariamente por não estar com ele e...desculpe por isso, mas outra noite eu passei perto do seu quarto e ouvi você rezando e pedindo perdão por ainda gostar do Enzo, quando a sua mãe não aprovaria isso. Isso cortou meu coração e me fez repensar a minha decisão de omitir isso de você e, mais ainda, fez-me repensar os meus conceitos. Portanto, se é ele que você ama, quem sou eu para dizer que você está errado?! Apenas não esqueça de você mesmo tá?
- Então...então o senhor está dizendo que aprova isso? - perguntou Daniel animado.
- Bem...sim, eu estou dizendo isso!
- Nossa, o senhor não sabe o quanto isso me faz feliz!
- Bom, eu posso imaginar!

Dessa forma, finalmente, Daniel tomou conhecimento do que a sua mãe pensava a respeito do seu relacionamento com Enzo e isso o deu um novo motivo para se alegrar com a vida. Enquanto voltavam de carro para casa, o pai do rapaz perguntou:

- E agora, você vai voltar a err...se relacionar com aquele rapaz? - Pedro tinha um tom reservado e um pouco desconfortável.
- Relaxa pai - disse Daniel rindo - não precisa ficar tenso! Bom, eu não sei pai...eu pensei no que o senhor disse e talvez eu precise me reestruturar antes de iniciar qualquer relacionamento! Além disso, eu já fiz muito mal ao Enzo e já o fiz sofrer demais sabe? Acho que ele merece ser deixado livre para seguir a vida sem mais sofrimento, mas quem sabe quando eu estiver melhor, nós possamos pelo menos voltar a ser amigos!
- Eu entendo! Bem, seja lá o que você decida fazer, saiba que tem todo o meu apoio!
- Obrigado pai!
- E quanto à faculdade?
- Bem - respondeu Daniel em tom calmo e firme - Eu realmente não quero largar direito a essa altura do campeonato, mas pensar novamente em Educação Física me trouxe boas lembranças do quanto eu gosto disso...portanto, se o senhor puder pagar o curso, eu ficaria muito feliz em conciliar os dois!
- Você acha que consegue?
- Eu acho que sim pai - respondeu Daniel com segurança - o meu curso tem horários predominantes em um turno a partir de agora, então posso fazer o outro curso no contra-turno.
- Sendo assim, eu ficarei muito feliz de pagar o curso para você! Mas já lhe aviso que eu exijo um rendimento muito bom em ambos os cursos, para me provar que você consegue conciliar os dois, ok?
- Tudo bem pai!

Enquanto isso, no Aeroporto Internacional João Ribeiro Barros, em São Patrício, Pietro e Enzo estão desembarcando de um avião vindo do Rio de Janeiro. Enquanto andavam pelo salão de desembarque, Enzo é surpreendido por alguém batendo em suas costas e dizendo:

- Oi Enzo! - disse Guilherme, outro ex-namorado de Enzo, com a sua habitual irreverência.
- Guiherme! - respondeu Enzo abraçando o recém-chegado - O que você está fazendo aqui?
- Ah, eu vim passar uns dias com os meus pais antes de retornar às aulas. Mas e você, por que está aqui no aeroporto? Está chegando de onde?
- Ah, eu viajei para o Rio com o meu amigo, que, a propósito, chama-se Pietro - disse Enzo apontando para Pietro que tinha se mantido calado durante os cumprimentos dos dois rapazes.
- Ah, ta! Oi Pietro, prazer em te conhecer! - respondeu Guilherme analisando o rapaz dos pés à cabeça e estendendo a mão direita.
- Eu digo o mesmo! - replicou Pietro apertando a mão  de Guilherme.
- Vocês estão tipo...namorando? - perguntou Guilherme.
- Não! - respondeu Enzo prontamente - Será que dois rapazes não podem viajar juntos e ainda serem amigos?
- Não com um pedaço de mal caminho como você! - disse Guilherme apertando a bochecha de Enzo.
- Você não muda mesmo não é?! - perguntou Enzo.
- Claro que não! E você me ama assim mesmo certo? - respondeu o rapaz rindo.
- Claro...perdidamente!
- Mas então onde está o seu namorado Enzo?
- Ah...é uma longa história...você tem tempo?
- Claro! Para você todo o tempo do mundo!
- Ótimo! Então você pode vir fazer um lanche conosco! - disse Enzo - Tudo bem para você Pietro?
- Claro, sem problemas!
- Certo, então vamos logo!

Dessa forma, uma figura muito importante da vida de Enzo retorna para a vida ele em um momento no qual ele está tentando "reconstruir" a sua vida sem Daniel, com a ajuda de Pietro, que se tornou o seu melhor amigo.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Capítulo 1 - A Benção dos Imortais (Cont.)

- Nádia! Por que você está fazendo isso a este lugar? - Afirmou Gélim enfaticamente.
- O que você esperava?! Que eu realmente agisse como se nada tivesse acontecido? - Nádia demonstrava ira enquanto falava.
- Mas o que aconteceu? Vamos conversar Nádia!
- Eu não quero conversar! Só preciso agir e causar tanta dor quanto eles me causaram! Obrigado por me dar o poder para fazer isso! - Nádia sorriu brevemente, mas não era de fato felicidade que irradiava pelo seu rosto.
- Os seus poderes não deveriam causar nenhum mal às pessoas! Deixe-me ajudá-la Nádia!
- Cale a boca Gélim! Você nunca me compreendeu!
- Eu nunca....
- Chega! - Bradou Nádia enquanto levantava ambas as mãos.

Repentinamente, surgiu uma tempestade de neve a partir das mãos de Nádia e, conforme ela movimentava alternadamente cada mão, estalactites de gelo voavam em direção a Gélim, que as desviava facilmente.

- Nádia, por favor, pare com isso! - Disse Gélim incerto.
- Por que eu deveria? - Nádia ainda sustentava o sorriso no rosto.
- Porque eu estou mandando! - Gélim abriu os braços e uma tempestade de neve se formou progressivamente até atingi Nádia, que surpreendentemente, não saiu do lugar.
- Não desta vez mestre! - Ela olhou diretamente para o Imortal e, fazendo a gesticulação das palavras, disse: - отдых в мирном Gelim!

Nesse momento, a tempestade cessou progressivamente, até sobrar apenas uma estátua de gelo no lugar onde Gélim esteve, a qual, segundos depois, se desfez em minúsculos flocos de neve, que foram levados pelo vento e deixaram o lugar antes ocupado pelo Imortal do gelo vazio.

- COMO VOCÊ SOUBE DISSO? - Bradou Flamus.
- Por que eu ensinei a ela o que eu mesmo pretendia fazer hoje! - Disse um homem que surgiu de trás de uma das casas do pequeno vilarejo.
- Espera...essa voz - Flamus virou em direção ao locutor - Não pode ser! Você morreu há muitos anos!
- Eu acho que não Flamus! Talvez você devesse se esforçar mais da próxima vez! Ah...que pena que não vai haver uma! - O homem fez a gesticulação das palavras e disse: - requiescant in pace Flamus!

De repente, uma labareda de fogo surgiu ao redor de Flamus e, quando esta se extinguiu, restava apenas a neve derretida e um circulo vazio onde antes estivera o Imortal do fogo.

- O QUE VOCÊ FEZ? - Gritou Ethan.
- Nada que você não fosse ter vontade de fazer muito em breve! - Respondeu o homem, que aparentava ter 35 anos - A propósito, meu nome é Saulo e eu quero que você seja o meu pimeiro aprendiz!
- NUNCA! - Bradou Ethan enquanto corria em direção a Saulo - DESFAÇA ISSO AGORA! - Enquanto falava Ethan movimentava os braços e um anel de fogo circulava sobre a sua cabeça, então ele o atirou em direção a Saulo.
Desine! - Assim que Saulo proferiu as palavras, o anel de fogo se extinguiu - Você é bom, mas eu posso te tornar ainda melhor! Flamus nunca te ensinaria o que eu irei se você aceitar ser meu discípulo, porque ele não queria que você crescesse, estava apenas preocupado em possuir outro seguidor! Pense nisso e, se quiser, pode me encontrar no Monte Corona para iniciarmos o seu verdadeiro treinamento! - Finalizadas as palavras o homem desapareceu, deixando um resquício de fumaça no ar.
- NÃO! - Bradou novamente Ethan.

Logo em seguida, surgiram labaredas nas mãos de Ethan, que se espalharam pelo corpo todo. O garoto permaneceu em uma posição estática enquanto as chamas se tornavam ainda mais intensas.
Quando as chamas se tornaram um redemoinho de fogo, surgiram queimaduras pelo corpo de Ethan, que permanecia imóvel. Nesse momento Oliver disse:

- Ei! Pare com isso...acho que você sobrecarregou o seu corpo... - Oliver estava aflito e não sabia o que fazer, enquanto Ethan permanecia sem esboçar nenhuma resposta, então disse: - Desculpe por isso! - Oliver abraçou Ethan e o envolveu em uma grossa camada e gelo, que cessou o fogo e congelou o corpo do garoto.

 Na confusão, Oliver não percebeu quando Nádia também desapareceu, então se viu sozinho com Ethan, que lhe era um completo estranho cuja vida ele acabara de salvar. Inicialmente, ele descongelou Ethan, que caiu no chão e prontamente começou a se contorcer de dor. Oliver perguntou:

- Precisa de ajuda?
- O que aconteceu? - respondeu Ethan em meio aos gritos de dor - O que você fez?
- Eu não fiz nada! - disse Oliver um pouco ofendido - Apenas apaguei o fogo que você mesmo criou!
- Eu criei?
- Sim...e depois ficou como se estivesse hipnotizado ou em transe...eu não sei direito...
- Eu não lembro disso! - Ethan ainda gritava de dor - Meu deus! Meu corpo está doendo muito!
- Eu posso te ajudar...com o gelo...queres?
- Sim! Sim, por favor!

Oliver criou uma fina camada de neve, a qual foi colocada sobre as áreas de vermelhidão no corpo de Ethan, então disse:

- Você...lembra do que aconteceu?
- Sim...eu não sabia o que fazer, então simplesmente me desesperei e...bem, acho que entrei em crise... - Ethan demonstrava frustração - Meu corpo está queimado agora e eu não estou acostumado com isso, porque...bem, você sabe...esse é o meu elemento!
- Relaxa! - Disse Oliver enquanto continuava com as "compressas de gelo" - Eu também nunca tive medo do gelo, até ter euqueimaduras graves por conta dele! Bem, eu ainda me sentia seguro para lidar com meu elemento quando...bem, quando Gélim estava aqui, mas agora...eu...simplesmente não sei  que fazer.
- Pelo menos você não é um perigo para as pessoas ao teu redor....já eu...
- Nunca subestime uma tempestade de neve! - Disse Oliver, para amenizar o assunto.
- Bem, isso é verdade...mas...e agora? Eu não tenho para onde ir! Flamus era meio que meu tutor!
- Quer dizer que você não tem pais?
- Bem...é uma longa história, sobre a qual eu não quero falar!
- Tudo bem! Eu entendo...olha...eu acho que tenho uma solução, por enquanto - disse Oliver incerto - Eu tenho que voltar para casa, já que eu não sei onde está Gélim. Se você quiser vir comigo...
- Ir para a sua casa? Mas você mal me conhece!
- Você é um elemental certo? Isso quer dizer que, tecnicamente, somos quase primos!
- Bem...eu não sei...e quanto aos seus pais?
- Vem logo! De qualquer maneira temos que sair daqui!
- Isso é verdade! Vamos então!

Os garotos caminharam até a estação mais próxima para pegar o trem transiberiano até Moscou, de onde continuaram utilizando a malha ferroviária europeia para chegar até Londres e, finalmente, à cidade natal de Oliver: Birmingham. Quando se aproximavam da casa de Oliver, este disse:

- Ethan...podes esperar um pouco aqui fora, enquanto eu converso com eles?
- Eles não vão deixar eu ficar né? Eu já sabia! - Disse Ethan em tom desanimado - Eu não quero te colocar em problemas, eu já agradeço muito por teres me salvo...
- Não seja teimoso! - Disse Oliver em tom firme, porém gentil - Eles são muito compreensivos e nunca te deixariam ficar por aí sozinho! Só preciso de um minuto para dizer a eles o que aconteceu, tudo bem?
- Certo.

Oliver adentrou a casa e, alguns segundos depois, surgiu uma mulher alta, de cabelos loiros, como os de Oliver, a qual parecia aflita com alguma coisa. Quando esta se aproximou do garoto, perguntou:

- Você está bem?
- Err...sim senhora! - Disse Ethan timidamente.
- Ora, não fique nesse frio - fazia 5° na região - entre, vamos! - enquanto convidava o garoto a entrar ela continuou: - Você pode ficar o tempo que quiser aqui conosco! Este é o meu marido Darwin - disse ela quando adentraram a enorme sala dos Fletcher, apontando para um homem de estatura mediana, cabelos marrons, olhos verdes, como os de Oliver, e que aparentava ter 40 anos.
- Muito prazer meu jovem! - Disse o homem oferecendo a mão a Ethan, que a apertou fracamente - Qual o seu nome?
- Ethan senhor...
- Pode me chamar de Darwin.
- Mãe...pai...o Ethan precisa descansar...posso levar ele para o quarto e já volto para nós conversarmos melhor?
- É claro meu filho - Disse Darwin - Até mais Ethan.
- Até mais senh...quero dizer...Darwin! Até mais senhora.
- Até mais Ethan, mas você pode me chamar de Daisy também.
- Eu já volto.

Oliver levou Ethan até o seu quarto, que felizmente tinha um beliche e era grande como todo o restante da casa. Ethan o acompanhou observando tudo em silêncio, porém, quando notou as duas camas, perguntou:

- Você tem irmãos?
- Bem, tecnicamente eu sou filho único...
- Como assim?
- A minha mãe estava grávida de gêmeos, porém o meu irmãozinho morreu logo depois de nascer...bem, a minha mãe nunca superou isso, então ela continua comprando tudo em dobro desde o meu nascimento. É um pouco estranho, mas o meu pai me disse que os médicos não veem problema nisso, já que ela é... "funcional", é esse o termo que eles usam!
- Ah, entendi...bom, eu sinto muito!
- Tudo bem! Na verdade, de certa forma é melhor, porque eu tenho tudo em dobro e, se quiseres, eu posso dividir contigo!
- Comigo? Como assim?
- Eu sempre quis ter um irmão ou algo assim...os meus pais não querem mais ter filhos, porque isso poderia piorar o estado da minha mãe, e a minha família é muito pequena, eu não tenho primos ou algo do tipo sabe...então, já que você não tem casa, você poderia ficar aqui e ser meu...amigo, pelo menos!
- Mas a gente mal se conhece...por que você acha que eu seria um bom amigo?
- Por que você é como eu!
- Ah... - Isso deixou Ethan sem mais palavras.
- Não precisa responder agora! - disse Oliver rapidamente - Apenas descanse e depois eu vou fazer mais uma compressa de gelo - dito isso o garoto saiu do quarto.

Oliver levou mais de duas horas para compartilhar os detalhes da sua jornada e para tranquilizar os pais depois e contar sobre o que acontecera em Ulan-Ude, incluindo as queimaduras de Ethan. Além disso, ele conversou com os pais sobre a possibilidade de Ethan passar a morar com eles. A mãe do garoto proferiu a seguinte resposta:

- Eu adoraria que ele pudesse ficar aqui, porque ninguém merece ficar sozinho nesse mundo e nós temos uma casa tão grande, mas nós só podemos fazer isso com o consentimento dele!
- Então, se ele aceitar, vocês deixam ele viver aqui com a gente? - Perguntou Oliver animado.
- É claro que sim meu filho! Nós nunca poderíamos deixar ele sair sozinho pelas ruas.
- Mas nós também precisamos nos certificar de que ele não tem nenhuma família! - Disse Darwin - Se ele não tiver, nós com certeza preferimos que ele fique aqui meu filho!
- Legal! Eu vou contar para ele!

Oliver subiu as escadas correndo, porém, quando abriu a porta, encontrou Ethan com meio corpo para fora da janela, o qual levou um susto ao ver o garoto e disse:

- Não era para você ver isso!
- O que você está fazendo? - Disse Oliver, confuso.
- Meu lugar não é aqui...e eu tenho coisas para fazer!
- Coisas? - Perguntou Oliver atravessando o quarto em direção à janela - Que tipo de coisas?
- Você não entenderia...
- Tenta... - Oliver parou a poucos centímetros da janela, levantou ambos os braços e disse: - Olha eu não posso te obrigar, mas gostaria muito que ficasses, assim como os meus pais...
- Eu quero...eu quero vingança...eu não quero mais ficar sozinho ou ter culpa pela morte daqueles que eu gosto!
- Eu não acho que os Imortais estejam, de fato, mortos - disse Oliver tranquilamente - E aquilo não foi culpa sua!
- Então onde eles estão? Se eu não fosse fraco eu teria acabado com aquele idiota do Saulo! - Ethan estava visivelmente irado.
- Aquilo não foi sua culpa! Esquece isso tá! E, se depender de mim, nunca estarás sozinho de novo!
- Eu preciso ir atrás do Saulo...
- Acho que uma força-tarefa elemental seria melhor que apenas você certo?
- Do que você está falando? - perguntou Ethan mais calmo.
- Talvez você não saiba, mas eu sou um ótimo elemental do gelo e, bem...antes de "morrer", Gélim me disse que os elementais podem encontrar uns aos outros!
- Outros elementais?
- Sim! Somos oito a cada 10 anos! Então ainda existem seis pessoas da nossa geração com seus seis respectivos Imortais para encontrarmos e nos unirmos para encontrar o Saulo e a Nádia também!
- Tem certeza de que eu posso ficar aqui?
- Bem, tem só um problema...
- Qual?!
- Você precisa me chamar de irmãozinho! - Oliver riu, assim como Ethan - Agora falando sério, você tem algum parente vivo?
- Não... - Ethan assumiu um tom melancólico - sempre fomos eu e o meu pai, até...
- Quer falar sobre isso?

Ethan aceitou contar a história da morte de seu pai, ao final da qual Oliver disse:

- Isso não foi sua culpa...de verdade! Você não poderia controlar o seu poder por muito tempo! Quem sabe o que poderia ter acontecido aos meus pais se eu esperasse até os 14 anos...
- Eu sei...foi burrice minha...
- Não, isso foi um gesto de amor pelo teu pai e eu acho isso muito legal! Eu sei que os meus não podem substituir ele, mas eles são muito bons para mim...
- Então eu posso ficar mesmo?
- Claro! Meu pai só impôs essa condição, então quer dizer que você pode ficar.
- Bem, eu gostaria de ficar então...
- Legal! Eu vou ser o melhor amigo que você já teve!
- Bom, eu nunca tive muitos amigos, então não vai ser algo tão difícil!
- Todos os elementais do fogo são estraga-prazeres ou é só você mesmo?

Desde esse dia, Ethan passou a morar com os Fletcher, que o adotaram como um filho alegando que este fora encontrado na rua e o rebatizaram, depois de dois anos de um longo processo legal, como Ethan Fletcher.
Os dois garotos passaram este dois primeiros anos procurando os os outros elementais, até que em 2014, eles finalmente, encontraram Gabriela Rodrigues, a elemental das plantas. Depois disso, a casa dos Fletcher, que tinha muitos quartos, se tornou uma espécie de quartel-general, com a total provação dos pais de Oliver, pois, infelizmente, os outros Imortais também tiveram o mesmo destino de Gélim e Flamus e os meninos e meninas, apesar de terem casa para voltar, precisavam aprimorar as suas habilidades de controle dos poderes.
Assim, no quartel-general dos Fletcher, os oito elementais, escolhidos no ano de 2001, começaram a treinar as suas habilidades juntos e eles se tornaram cada dia mais fortes e precisos na utilização dos seu poderes.
Seis anos se passaram desde o desaparecimento de Gélim e Flamus e, nesse tempo, Ethan e Oliver se tornaram praticamente inseparáveis, pois construíram uma amizade que, na verdade, os tornou realmente irmãos. Eles se tornaram os lideres dos outros elementais e uma espécie de instrutores para eles, visto que foram os únicos que realmente receberam, ainda que pouco, algum tipo de treinamento de um elemental.
Porém, uma coisa ainda inquietava Ethan: Ele nunca achou Saulo, o homem que "matou" Flamus, o Imortal que se tornou uma especie de pai para ele, mesmo que por pouquíssimos dias, depois que ele perdeu o seu pai biológico na triste tragédia ocorrida quando ele tinha 14 anos. Apesar disso, Ethan seguiu a vida normalmente diante de toda a receptividade dos Fletcher e até quase esqueceu a sua vingança contra Saulo. Porém, muito em breve, este personagem do seu passado voltaria para lhe lembrar destes sentimentos.